Main Five Nights At Freddy's - Olhos Prateados

Five Nights At Freddy's - Olhos Prateados

No popular videogame criado por Scott Cawthon, o jogador assume o papel de um segurança contratado para tomar conta de uma pizzaria durante a noite, enquanto os animatrônicos perambulam e ganham ímpeto violento. Mas o mistério por trás dessas criaturas e dos assassinatos que ocorreram ali nunca foi desvendado... até agora. Olhos prateados extrapola o universo que conquistou fãs no mundo todo e traz à tona os medos mais obscuros que só brinquedos sinistros são capazes de provocar.
O primeiro livro da trilogia Five Nights at Freddy’s leva o leitor ao mundo de Charlie, uma adolescente que volta para sua cidade natal quando é convidada para participar de uma homenagem a um de seus amigos de infância, morto dez anos atrás, em circunstâncias misteriosas, dentro da pizzaria do pai dela.
Tomados pela nostalgia e determinados a desvendar o crime jamais solucionado, Charlie e seus amigos acabam voltando à pizzaria, agora totalmente abandonada. Eles logo vão descobrir que as coisas lá dentro não são mais as mesmas. Os quatro animatrônicos mudaram. Os bonecos que antes encantavam as crianças agora guardam um segredo sombrio... e um plano mortal.
Year: 2020
Language: portuguese
File: EPUB, 1.73 MB
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Bayfield

Year: 2019
Language: english
File: EPUB, 203 KB
Copyright © 2016 Scott Cawthon.

Publicado mediante acordo com Scholastic Inc., 557 Broadway,

New York, NY 10012, USA.

TÍTULO ORIGINAL

Five Nights at Freddy’s: The Silver Eyes

PREPARAÇÃO

Rayssa Galvão

REVISÃO

Cristiane Pacanowski

Juliana Werneck

ADAPTAÇÃO DE CAPA

Julio Moreira | Equatorium Design

IMAGEM DE CAPA

© 2016 Scott Cawthon

ARTE DE CAPA

Rick DeMonico

VINHETA ESTÁTICA DE TV

© Klikk/Dreamstime

REVISÃO DE E-BOOK

Vanessa Goldmacher

GERAÇÃO DE E-BOOK

Intrínseca

E-ISBN

978-85-510-0150-9

Edição digital: 2017

1ª edição

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA INTRÍNSECA LTDA.

Rua Marquês de São Vicente, 99, 3º andar

22451-041 – Gávea

Rio de Janeiro – RJ

Tel./Fax: (21) 3206-1512

www.intrinseca.com.br





Sumário

Folha de rosto

Créditos

Mídias sociais

Capítulo um

Capítulo dois

Capítulo três

Capítulo quatro

Capítulo cinco

Capítulo seis

Capítulo sete

Capítulo oito

Capítulo nove

Capítulo dez

Capítulo onze

Capítulo doze

Capítulo treze

Sobre os autores

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Ele está me vendo.

Charlie se ajoelhou no chão. Estava espremida entre uma fileira de fliperamas e a parede, em cima de um emaranhado de fios e tomadas inúteis espalhadas. Havia sido encurralada; a única saída era passar pela coisa, mas a menina nunca seria rápida o bastante. Por entre as máquinas tinha vislumbres daquilo andando de um lado para outro. Não havia muito para onde ir, mas Charlie tentou engatinhar para trás. Quando seu pé ficou preso em um fio, ela parou e se contorceu com cuidado para soltá-lo.

Ouviu um estrondo de metal, e a máquina mais distante tombou na direção da parede. A coisa atacou outra vez, estilhaçando a tela, depois se dirigiu à máquina ao lado, e foi golpeando uma por uma em um movimento quase ritmado, destruindo tudo e se aproximando cada vez mais do esconderijo de Charlie.

Tenho que sair daqui. De qualquer jeito! O pensamento desesperado era inútil; não havia saída. O braço de Charlie doía, sua vontade era gritar. O curativo estava ensopado de sangue, e a menina tinha a sensação de que estava se esvaindo, ficando seca.

O fliperama a alguns centímetros de seu esconderijo bateu na parede, e ela se encolheu. A coisa estava chegando mais perto; Charlie ouvia o ranger das engrenagens e os cliques do mecanismo, cada vez mais alto. Mesmo de olhos fechados, via a maneira como aquilo olhava para ela, podia visualizar a pelagem suja, embaraçada, e o metal exposto por baixo da carne sintética.

De repente, a máquina à sua frente foi atirada para longe como se fosse um mero brinquedo. Os fios e cabos embaixo de Charlie foram puxados com força, e ela escorregou, quase sendo derrubada. Recuperou o equilíbrio e olhou para cima a tempo de ver o golpe do gancho...





BEM-VINDO A HURRICANE, UTAH.


Charlie abriu um sorriso amargo ao avistar o letreiro e continuou dirigindo. O mundo não parecia nem um pouco diferente ali do outro lado da placa, mas ela sentiu um misto de ansiedade e nervosismo ao atravessar aquela fronteira. Não reconheceu nada no lugar. Mas também não estava esperando reconhecer mesmo, não ali, onde só havia estrada e áreas abertas, tão distante do centro.

Ela se perguntou como estariam os outros, quem haviam se tornado. Dez anos antes, eram todos melhores amigos. E então aquilo aconteceu, e tudo acabou, pelo menos para Charlie. Não os via desde que tinha sete anos. Na infância, trocavam cartas o tempo todo, principalmente com Marla, que escrevia como falava: rápido e sem muita coerência. Mas com os anos foram se distanciando, as cartas, diminuindo, e as conversas que levaram àquela viagem tinham sido todas superficiais e repletas de pausas constrangedoras. Charlie repetia os nomes como se quisesse reafirmar a si mesma que ainda se lembrava: Marla. Jessica. Lamar. Carlton. John. E Michael... Michael era a razão da viagem, afinal. Tinham se passado dez anos desde sua morte, dez anos desde o acontecimento, e os pais do menino queriam que todos se reunissem para uma cerimônia em sua homenagem. Queriam todos os velhos amigos presentes ao anunciarem a bolsa de estudos que estavam instituindo em nome do filho. Charlie sabia que a intenção era boa, mas a reunião ainda lhe parecia um pouco macabra. Estremeceu e desligou o ar-condicionado, embora soubesse que a sensação não tinha nada a ver com o frio.

Ao chegar ao centro da cidade, começou a reconhecer determinados pontos: algumas lojinhas e o cinema, que estava anunciando o sucesso de bilheteria do verão. Ficou surpresa e abriu um sorrisinho. O que estava esperando? Que a cidade inteira tivesse permanecido a mesma? Um monumento à sua partida, congelado por toda a eternidade no mês de julho de 1985? Bem, sim, era exatamente aquilo que estava esperando. Olhou o relógio. Ainda tinha algumas horas antes do encontro. Pensou em ir ao cinema, mas sabia o que realmente queria. Fez uma curva para sair do centro.

Dez minutos depois, desligou o motor e saiu do carro.

A casa a engolia de tão grande, a silhueta escura da construção era como uma ferida no céu azul-claro. Charlie se apoiou no automóvel, um pouco tonta. Respirando fundo, levou um instante para se recompor. Sabia que a encontraria lá. Uma bisbilhotada nos extratos bancários da tia alguns anos antes tinha revelado que a hipoteca fora paga e que tia Jen continuava arcando com os custos dos impostos. Só fazia uma década; não havia por que ter mudado nada na casa. Charlie subiu a escadinha devagar, observando a tinta descascada. O terceiro degrau ainda tinha uma tábua solta, e as roseiras haviam tomado conta da lateral da varanda, os espinhos cravados, famintos, na madeira. A porta estava trancada, mas Charlie ainda carregava sua chave no cordão. Jamais chegara a usá-la. Quando a colocou na fechadura, se lembrou da vez em que o pai pendurara aquela correntinha em seu pescoço. Caso você precise um dia. Bom, o dia havia chegado.

A porta se abriu com facilidade, e Charlie olhou ao redor. Não lembrava muita coisa dos seus primeiros anos ali. Era um bebê na época, e aquelas memórias haviam se dissipado na névoa de luto e perda de uma criança. Junto com a incapacidade de compreender por que a mãe tivera que ir embora, e a necessidade de se agarrar ao pai por causa disso, desconfiando de tudo o que não o incluísse e só conseguindo se sentir confortável em sua presença, ou afundada em suas camisas de flanela e em seu cheiro de graxa e metal quente.

A escada se estendia à sua frente, mas em vez de subir ela foi para a sala de estar, onde toda a mobília continuava no mesmo lugar. Nunca percebera quando criança, mas a casa era um pouco grande demais para os poucos móveis que tinha. As coisas eram posicionadas distantes umas das outras para preencher o espaço: a mesinha de centro ficava longe do sofá, de modo que quem estivesse sentado não conseguia alcançá-la; a poltrona ficava quase do outro lado do cômodo, isolada. Havia uma mancha escura no piso perto do centro da sala. Charlie a contornou depressa e foi até a cozinha, onde os armários só guardavam algumas panelas, frigideiras e pratos. Nunca sentira falta de nada na infância, mas naquele momento lhe parecia que a enormidade desnecessária da casa era uma espécie de pedido de desculpas; um homem que tinha sofrido tantas perdas tentando dar à filha tudo o que podia. Não importa o que fizesse, ele sempre tendia a exagerar.

Na última vez em que ela estivera naquela casa, o lugar estava escuro e tudo lhe parecia errado. Foi carregada até o quarto no andar de cima, embora já tivesse sete anos na época e pudesse chegar mais rápido se fosse andando. Tia Jen havia parado na varanda para pegá-la no colo e protegeu seu rosto como se Charlie fosse um bebê sob o sol escaldante.

No quarto, a tia a colocou no chão, fechou a porta e mandou que arrumasse a mala. Charlie então chorou porque sua malinha tão pequena jamais daria conta de todos os seus pertences.

“Voltamos depois para pegar o resto”, dissera a tia, sem disfarçar a impaciência enquanto a menina enrolava, indecisa, em frente ao armário, tentando escolher que camisetas levar. Nunca voltaram para pegar o que ficou para trás.

Charlie subiu a escada e seguiu para seu antigo quarto. A porta estava entreaberta, e, ao entrar, foi tomada por uma sensação vertiginosa de deslocamento, como se estivesse prestes a encontrar, sentada no chão, cercada de brinquedos, uma versão mais nova de si mesma, que olharia para ela e perguntaria: quem é você?

Como o restante da casa, o quarto estava intocado. As paredes eram de um tom pálido de rosa, e o teto, que tinha uma inclinação acentuada acompanhando o telhado, era da mesma cor. A cama continuava encostada na parede, embaixo de uma grande janela; o colchão permanecia intacto, embora sem roupa de cama. Havia uma frestinha de janela aberta, e cortinas de renda já apodrecendo ondulavam na brisa gentil que entrava. Uma mancha escura na pintura ali embaixo, onde a chuva tinha se infiltrado por anos a fio, entregava o abandono da casa. Charlie subiu na cama e fechou a janela, que resistiu um pouco, com um rangido. Depois ela se afastou e voltou sua atenção para o restante do cômodo, para as criações do pai.

Em sua primeira noite na casa, Charlie teve medo de dormir sozinha. Não se lembrava da ocasião, mas o pai lhe contara tantas vezes que a história acabou quase virando uma lembrança. Charlie se sentou na cama e chorou, desesperada, até que ele foi ao quarto, a pegou no colo e, com um abraço, prometeu que ela jamais ficaria sozinha de novo. Na manhã seguinte, a levou pela mão até a garagem, onde começou a trabalhar, determinado a cumprir a promessa.

Sua primeira invenção foi um coelho roxo, que ficara cinza com o tempo, por causa da exposição ao sol. O pai o chamara de Theodore. Era do tamanho de uma criança de uns três anos — o tamanho da própria Charlie, na época — e tinha pelo macio, olhos brilhantes e uma elegante gravata-borboleta. Não fazia nada de muito complexo, apenas acenava a mão, inclinava a cabeça para o lado e dizia na voz do pai: “Eu te amo, Charlie.” Mas seria um ótimo vigilante noturno, alguém para fazer companhia quando a menina não conseguisse dormir. Tantos anos depois, ela encontrava Theodore ali, sentado na cadeira de vime em um canto afastado do quarto. Charlie acenou para ele, que, desligado, não respondeu ao gesto.

Depois do coelho, os brinquedos foram ganhando mais complexidade. Alguns deram certo, outros não; alguns pareciam ter falhas permanentes, enquanto outros simplesmente não atraíam a imaginação infantil de Charlie. Esses, ela sabia que o pai levava de volta à oficina para aproveitar algumas partes, embora ela não gostasse de vê-los sendo desmantelados. Mas os que ficavam, os que ela amava, estavam ainda ali, olhando para sua dona com grande expectativa. Sorrindo, Charlie apertou um botão ao lado da cama. Com certa resistência, ele cedeu, mas nada aconteceu. Ela voltou a apertá-lo, dessa vez segurando por mais tempo, e, do outro lado do cômodo, com o ruído desgastado de metal arranhando metal, o unicórnio começou a se mover.

O unicórnio (Charlie lhe dera o nome de Stanley por alguma razão que já não lembrava mais) era feito de metal e tinha sido pintado de branco com acabamento brilhoso. Deu a volta pelo quarto sob um trilho circular, balançando a cabeça para cima e para baixo, o pescoço rijo. O trilho guinchou quando Stanley fez uma curva e parou ao lado da cama. Charlie se ajoelhou no chão e acariciou o unicórnio. A tinta reluzente estava arranhada e descascando, e o focinho dele tinha perdido a batalha contra a ferrugem. Os olhos continuavam vivazes, imunes à decadência.

— Você está precisando de uma pintura nova, Stanley — comentou Charlie.

O unicórnio continuou olhando para a frente, inerte.

Ao pé da cama ficava uma roda. Feita de pedacinhos de metal unidos com solda, aquilo sempre a fizera pensar em alguma peça de um submarino. Charlie a virou. Ficou emperrada por uns segundos, depois cedeu, girando como de costume, e do outro lado do quarto, a menor porta do armário se abriu. De dentro dele, presa a seu trilho, Ella saiu desfilando, uma boneca do tamanho de uma criança, levando uma xícara e um pires nas mãozinhas como se oferecendo a um convidado. O vestidinho xadrez de Ella continuava impecável, e os sapatos de couro ainda brilhavam; talvez o armário a tivesse protegido dos estragos da umidade. Charlie tivera roupas idênticas um dia, quando ela e a boneca eram da mesma altura.

— Oi, Ella — cumprimentou Charlie, baixinho.

À medida que a roda ia fazendo o movimento reverso, Ella retornava para o armário, e a porta se fechou depois que a boneca entrou. Charlie a seguiu. Eram três armários, que foram construídos alinhados à inclinação do teto. Ella morava no menor, que tinha cerca de um metro de altura. Ao lado ficava o segundo, uns trinta centímetros mais alto, e depois o terceiro, o mais próximo da porta do quarto, que ia até o teto do cômodo. Charlie sorriu, recordando.

“Por que é que você tem três armários?”, perguntara John na primeira vez que foi à casa. Ela olhou para ele, confusa.

“Porque sim, ué”, respondeu, enfim. Apontou, na defensiva, para o menor deles. “Mas aquele ali é da Ella”, acrescentou. John assentiu, satisfeito com a explicação.

Charlie abriu a porta do móvel do meio — ou tentou. Estava trancada. Ela a sacudiu algumas vezes, mas desistiu sem muita convicção. Continuou agachada e olhou para o armário mais alto, seu armário de mocinha, que um dia teria tamanho para usar. “Não vai precisar dele até estar mais crescidinha”, seu pai costumava dizer, mas esse dia nunca chegou. Embora a porta estivesse entreaberta, Charlie não quis mais saber. Não estava se abrindo para ela; era só a ação do tempo.

Quando fez menção de se levantar, Charlie notou algo reluzente, meio escondido sob a porta trancada do armário do meio. Inclinou-se para pegar. Parecia um pedaço quebrado de uma placa de circuito. Ela deu um sorrisinho. Houve uma época, muitos anos antes, em que poderia encontrar porcas, parafusos, sucatas e partes avulsas por todos os cantos da casa. O pai sempre tinha alguma pecinha solitária escondida nos bolsos. Carregava para cima e para baixo os projetos em que estava trabalhando, os deixava em algum lugar e depois esquecia onde, ou ainda pior: guardava algo “para não perder” e acabava nunca encontrando. Havia também alguns fios de cabelo da menina presos no pedaço quebrado de placa; ela os desembolou da pecinha de metal com cuidado.

Finalmente, como se viesse adiando o momento, Charlie cruzou o cômodo e pegou Theodore. O sol não tinha desbotado as costas do brinquedo como fizera com a parte da frente; ali, ele permanecia do mesmo tom escuro de roxo que ela lembrava. Apertou o botão na base do pescoço, mas ele continuou flácido, sem vida. O pelo estava puído, uma das orelhas, quase solta, presa apenas por um fio apodrecido, e pelo buraco que se formava Charlie via a placa verde lá dentro. Ela prendeu a respiração, tentando escutar algo, temerosa.

— Eu t... mo... lie — disse o coelho com ruídos hesitantes e quase inaudíveis, e a garota o colocou no chão, o rosto quente e o coração apertado.

Não esperava ouvir a voz do pai outra vez. Também te amo.

Charlie olhou ao redor do quarto. Quando criança, aquele era seu mundo mágico particular, e ela era possessiva com ele. Apenas alguns amigos escolhidos a dedo tinham permissão para entrar. Ela foi até a cama e colocou Stanley no trilho de novo. Saiu do quarto, fechando a porta antes que o unicórnio pequenino chegasse ao seu destino.

Saiu da casa pela porta dos fundos e parou diante da garagem que funcionava como oficina do pai. Meio enterrado no cascalho a poucos passos adiante, Charlie pegou um pedacinho de metal. Tinha uma articulação no meio, e ela abriu um sorriso ao empurrá-la para a frente e para trás. É uma articulação de cotovelo, pensou. Para quem devia ser?

Charlie estivera ali naquele ponto do quintal muitas vezes. Fechou os olhos, e as lembranças a invadiram. Voltara a ser uma menininha, sentada no chão da oficina do pai, brincando com pedacinhos de sucata de madeira e de metal como se fossem blocos de montar, tentando construir uma torre com peças irregulares que não se encaixavam. A garagem era quente, e ela estava de short e tênis, a fuligem grudando em suas pernas suadas. Quase sentia o odor pungente e metálico do ferro de solda. O pai estava por perto, nunca saindo de vista, trabalhando em Stanley, o unicórnio.

O focinho ainda estava inacabado: um lado era branco, brilhante e simpático, com um reluzente olho castanho que quase parecia enxergar. A outra metade era apenas placas de circuito e partes de metal. O pai de Charlie olhou para a filha e sorriu, e a menina também sorriu, se sentindo amada. Em um corredor escuro atrás dele, quase visível, estava pendurado um aglomerado de membros metálicos, um esqueleto retorcido com olhos prateados ardentes. De tempos em tempos, tinha um espasmo esquisito. Charlie tentava não olhar para ele, mas enquanto o pai trabalhava e ela se distraía com os brinquedos improvisados, seu olhar acabava sendo atraído para aquele canto. Os braços e as pernas, contorcidos, pareciam quase debochar dela, feito um bobo da corte sombrio, e ainda assim havia algo naquela confusão que sugeria uma dor imensa.

“Papai?”, chamou Charlie, e o pai não tirou os olhos do trabalho. “Papai?”, repetiu ela, com mais urgência, e ele se virou para a filha devagar como se não estivesse presente de corpo e alma naquele mundo.

“Está precisando de alguma coisa, amor?”

Ela apontou para o esqueleto de metal. Dói?, era o que queria perguntar, mas quando encarou o pai, descobriu que não conseguia. Balançou a cabeça.

“Nada, não.”

Ele assentiu com um sorriso distraído e voltou ao trabalho. Atrás, a criatura teve outro daqueles espasmos horríveis, e seus olhos ainda ardiam.

Charlie teve um calafrio e voltou ao presente. Olhou para trás, se sentindo observada. Quando abaixou a cabeça, algo chamou sua atenção: três sulcos no solo, com uma pequena distância entre eles. Ajoelhou-se, intrigada, e passou o dedo por cima de um. O cascalho tinha sido espalhado, deixando marcas profundas na terra. Um tripé de câmera ou algo do tipo? Foi o primeiro detalhe que encontrou ali que não lhe era familiar. A porta da oficina estava entreaberta, convidativa, mas ela não sentiu nenhuma vontade de entrar. Sem perder tempo, voltou para o carro, mas foi obrigada a parar assim que se instalou no banco do motorista. Não encontrou as chaves — elas deviam ter caído do bolso em algum lugar da casa.

Refez os passos, mal checando na sala de estar ou na cozinha e seguindo logo para o quarto. O chaveiro estava na cadeira de vime, ao lado de Theodore, o coelho. Pegou-o e sacudiu as chaves por um segundo; ainda não estava pronta para deixar o quarto. Sentou-se na cama. Stanley, o unicórnio, tinha parado bem ao lado dela, como sempre, e ao se sentar, Charlie acariciou a cabeça dele. No meio-tempo em que ficou lá fora o dia escureceu, e àquela altura sombras se projetavam no quarto. E de alguma forma, sem a luz forte do sol, os defeitos e a deterioração dos brinquedos ficavam ainda mais evidentes. Os olhos de Theodore já não brilhavam, e a pelagem rala e a orelhinha solta lhe davam a aparência de um bêbado caído na sarjeta. Quando Charlie olhou para Stanley, a ferrugem ao redor dos olhos do unicórnio fazia com que parecessem órbitas vazias, e os dentes à mostra, que ela sempre interpretara como um sorriso acolhedor, viraram o terrível sorriso de uma caveira. Charlie se levantou, tomando o cuidado de não tocar em mais nada, e correu em direção à porta, mas prendeu o pé na roda ao lado da cama. Quando se soltou, tropeçou nos trilhos e se estabacou no chão. Ouviu o zumbido de metal girando, e, ao levantar um pouco a cabeça, um par de pés pequeninos apareceu embaixo de seu nariz, calçados em sapatinhos de verniz. A menina olhou para cima.

Lá estava Ella, muda e indesejada, olhando para sua dona, os olhos vítreos quase pareciam enxergar. Xícara e pires estavam estendidos em suas mãos com rigidez militar. Charlie ficou de pé, tentando não encostar na boneca. Saiu do quarto, dando passos calculados para evitar acionar qualquer outro brinquedo por acidente. Enquanto a garota saía, Ella retornava ao armário, ambas se movendo praticamente na mesma velocidade.

Charlie desceu a escada correndo, desesperada para sair dali. No carro, depois de três tentativas, conseguiu enfiar a chave na ignição. Saiu da vaga bem depressa, sem medo de passar sobre a grama do quintal, e acelerou. Um quilômetro e meio depois, Charlie parou no acostamento e desligou o carro, fitando pelo para-brisa o vazio à sua frente, sem focar o olhar em nada especificamente. Esforçou-se para acalmar a respiração. Levantou a mão e ajustou o espelho retrovisor para que pudesse se ver no reflexo.

Sempre esperava encontrar dor, raiva e pesar estampados em seu rosto, mas isso nunca acontecia. Suas bochechas estavam rosadas, e a face redonda parecia quase animada, como de costume. Nas primeiras semanas morando com tia Jen, sempre ouvia a mesma frase quando era apresentada a alguém: Mas que menina linda. Tem uma carinha tão alegre. Estava sempre disposta a ser simpática, os olhos castanhos grandes e brilhantes, a boca fina, pronta para abrir um sorriso, mesmo quando tudo que queria era soluçar de tanto chorar. A incongruência era uma leve traição. Passou os dedos pelos cabelos castanho-claros, como se, em um passe de mágica, aquilo fosse domar os fios arrepiados, e depois recolocou o espelho na posição normal.

Ligou o motor e procurou uma estação de rádio decente, torcendo para que a música a trouxesse de volta à realidade. Foi passando uma por uma, sem parar para ouvir nada, e enfim optou pela frequência AM, na qual um locutor parecia estar gritando de maneira condescendente para a plateia. Charlie não fazia ideia do que o homem berrava, mas a fala rude e irritante bastou para ancorá-la ao presente mais uma vez. O relógio do carro estava sempre errado, então ela consultou o de pulso. Estava quase na hora do encontro que marcou com os amigos em uma lanchonete perto do centro da cidade.

Charlie pegou a estrada novamente, deixando que o discurso raivoso do locutor de rádio acalmasse sua mente.

Quando chegou ao restaurante, entrou no estacionamento e parou, mas não chegou a estacionar. Na frente da lanchonete havia uma janela comprida, e ela podia ver tudo lá dentro. Embora fizesse anos que não os encontrava, não levou nem um minuto para identificar os amigos através da vidraça.

Jessica era a que mais se destacava na multidão. Sempre enviava fotografias junto com as cartas, e naquele momento estava idêntica à última foto que Charlie recebera. Mesmo sentada, era claramente mais alta do que os dois garotos, e muito magra. Embora Charlie não pudesse ver o modelito completo, a amiga estava com uma bata branca soltinha e um colete bordado, e usava um chapéu sobre os cabelos castanhos sedosos que batiam nos ombros, sem falar na flor enorme que ameaçava cair dele. Gesticulava, empolgada, enquanto falava.

Os dois garotos estavam sentados juntos de frente para Jessica. Carlton parecia a mesma criancinha ruiva de antes. Tinha resquícios da carinha de bebê, mas as feições estavam mais refinadas, e os cabelos haviam sido cuidadosamente bagunçados, mantidos no lugar pelo que só podia ser algum produto capilar alquímico. Tinha uma beleza quase feminina e vestia uma daquelas camisetas de ginástica preta, embora Charlie duvidasse que ele tivesse colocado os pés em uma academia alguma vez na vida. Debruçava-se na mesa, com o queixo apoiado nas mãos. A seu lado, John estava sentado mais perto da janela. Tinha sido o tipo de criança que se sujava antes mesmo de sair de casa: quando a professora ia distribuir os kits de aquarela, sua camiseta já estava manchada de tinta; antes de sequer ter chegado ao parquinho, os joelhos já estavam imundos de grama; segundos depois de ter lavado as mãos, tinha sujeira debaixo das unhas. Charlie o reconheceu, pois não poderia ser outra pessoa, mas o amigo estava totalmente mudado. A imundície da infância fora substituída por uma aparência arrumada e limpa. Vestia camisa social verde-clara, bem engomada, as mangas dobradas e os botões da gola abertos, o que o deixava com cara de almofadinha. Estava recostado, confiante, no banco da mesa, assentindo com entusiasmo, absorto no que quer que Jessica estivesse dizendo. A única coisa que continuava igual eram os cabelos, bagunçados e apontando para todos os lados, e a barba por fazer — uma versão presunçosa e adulta de toda a sujeira que estava sempre grudada nele quando criança.

Charlie abriu um sorriso. John fora o mais próximo que ela teve de uma paixonite de infância, antes mesmo de eles sequer entenderem o que aquilo significava. Ele sempre lhe dava os biscoitos que levava em sua lancheira dos Transformers e, uma vez no jardim de infância, chegou até a assumir a culpa quando ela quebrou a jarra que guardava as miçangas coloridas da aula de artes. Charlie se recordava do exato instante em que o vidro escorregara de suas mãos; ficou parada observando. Não teria sido ágil o suficiente para evitar que ele se quebrasse, mas também nem tentou. Queria ver o vidro se espatifando. Ele atingiu o piso de madeira e se estilhaçou em mil pedacinhos, e as continhas se espalharam, em uma explosão de cores por entre os cacos. Achou a cena linda e em seguida começou a chorar. John acabou levando uma advertência para casa. Quando ela agradeceu, ele piscou com uma ironia que desafiava sua idade e se limitou a perguntar “pelo quê?”.

Depois disso, John recebeu permissão para entrar no quarto dela e brincar com Stanley e Theodore. Charlie ficou observando com nervosismo quando ele aprendeu a apertar os botões certos para movê-los. Teria ficado arrasada se John não tivesse gostado dos brinquedos, pois sabia que isso diminuiria sua admiração por ele. Aquela era a família dela. Mas ele ficou fascinado assim que bateu o olho nas criações; amou os brinquedos, e ela o amou por isso. Dois anos depois, atrás de uma árvore próxima à oficina do pai, ela quase deixou que ele a beijasse. E então aquilo aconteceu, e tudo acabou, pelo menos para Charlie.

Ela balançou a cabeça, forçando os pensamentos a voltar ao presente. Olhou mais uma vez para a aparência sofisticada de Jessica e depois analisou suas próprias roupas. Camiseta roxa, jaqueta jeans, calça jeans preta e coturnos. Tinha lhe parecido uma boa opção pela manhã, mas naquele momento desejava ter escolhido algo diferente. É o que você usa sempre, lembrou a si mesma. Estacionou em uma vaga e trancou as portas, embora os moradores de Hurricane não tivessem esse hábito. Depois entrou na lanchonete para se encontrar com os amigos pela primeira vez em dez anos.

Calor, barulho e iluminação a atingiram feito uma onda quando ela entrou no restaurante. Por um momento, se sentiu desnorteada, mas Jessica notou que ela estava parada à porta e gritou seu nome. Charlie sorriu e se aproximou.

— Oi — disse ela, sem jeito, passando os olhos por todos os presentes, mas sem fazer contato visual com ninguém.

Jessica deslizou para o lado no banco de vinil vermelho, dando tapinhas para indicar o lugar vago.

— Senta aqui. Eu estava falando da minha vida cheia de glamour para o John e o Carlton.

Ela revirou os olhos, conseguindo transmitir ao mesmo tempo autodepreciação e a ideia de uma vida, de fato, empolgante.

— Você sabia que a Jessica mora em Nova York? — comentou Carlton.

Havia certo cuidado em seu tom, como se pesasse as palavras antes de dizê-las. John permaneceu calado, mas sorriu para Charlie, ansioso.

Jessica voltou a revirar os olhos, e Charlie teve um déjà-vu, lembrando que a amiga tinha aquele hábito desde pequena.

— Oito milhões de pessoas moram em Nova York, Carlton. Não chega a ser nenhuma conquista — ironizou Jessica.

Carlton deu de ombros.

— Nunca saí daqui — retrucou ele.

— Não sabia que você continuava morando em Hurricane — disse Charlie.

— Onde mais eu ia morar? A minha família está aqui desde 1896 — acrescentou, imitando a voz grave do pai.

— Isso é verdade mesmo? — perguntou Charlie.

— Sei lá — respondeu o garoto, em seu tom normal. — Pode ser. Meu pai concorreu ao cargo de prefeito há dois anos. Tipo, ele perdeu, mas mesmo assim, quem ia querer ser perfeito? — Fez uma careta. — Juro, no dia que fizer dezoito anos, me mando daqui.

— E pra onde você vai? — perguntou John, olhando para Carlton, sério.

Carlton o encarou, tão sério quanto John. De repente, se virou para o lado e apontou para a janela, fechando um dos olhos como se estivesse preparando a mira. John ergueu uma das sobrancelhas, tentando ver para onde Carlton apontava. Charlie também olhou. Ele não estava mirando nada. John abriu a boca para dizer algo, mas Carlton o interrompeu.

— Ou — disse, virando o dedo lentamente para o outro lado.

— Ok. — John coçou a cabeça, parecendo um pouco envergonhado. — Pra qualquer lugar, é isso? — Deu uma risada.

— Onde é que está o resto do pessoal? — indagou Charlie, olhando pela janela, à procura de recém-chegados.

— Só amanhã — respondeu John.

— Eles chegam amanhã de manhã — esclareceu Jessica, às pressas. — A Marla vai trazer o irmão mais novo. Dá pra acreditar?

— O Jason? — perguntou Charlie, sorrindo.

Lembrava-se do menino como um pacotinho embrulhado em cobertores com apenas o rosto para fora.

— Mas, tipo, quem quer ficar andando por aí com um bebezinho no colo? — Jessica endireitou o chapéu quase com afetação.

— Aposto que ele não é mais um bebê — retrucou Charlie, sufocando o riso.

— Praticamente um bebê — corrigiu Jessica. — Mas, enfim, fiz uma reserva pra gente num hotelzinho de beira da estrada. Foi o que consegui. Os meninos vão ficar na casa do Carlton.

— Ok — concordou Charlie.

Ficou ligeiramente impressionada com a organização de Jessica, mas o plano não lhe agradava. Estava relutante em dividir um quarto de hotel com a antiga amiga, que se tornara uma estranha para ela, o tipo de garota que a intimidava: sofisticada e impecável, daquelas que, só de abrir a boca, pareciam já ter a vida toda planejada. Por um momento, Charlie considerou passar a noite em sua antiga casa, mas na mesma hora tirou essa ideia da cabeça. Aquele lugar, à noite, não era mais domínio dos vivos. Não seja dramática, repreendeu-se, mas John já estava falando. Ele tinha o dom de exigir atenção quando falava, provavelmente porque se pronunciava menos que os outros. Passava a maior parte do tempo escutando, mas não por ser discreto. Estava, na verdade, coletando informações, se limitando a falar quando tinha alguma sabedoria ou sarcasmo para destilar. Não raro, os dois ao mesmo tempo.

— Alguém sabe como vai ser amanhã?

Ficaram todos em silêncio, e a garçonete aproveitou a deixa para ir até a mesa anotar os pedidos. Charlie folheou o cardápio depressa, sem focar em nada. Sua vez de pedir chegou muito mais rápido do que esperava, e ela ficou sem ação.

— Hum... ovos — disse, enfim. A expressão séria da mulher continuou voltada para ela, que se deu conta de que não tinha terminado. — Mexidos. Torrada integral — acrescentou, e a atendente se afastou.

Charlie voltou a olhar o cardápio. Odiava aquele traço de sua personalidade. Sempre que era surpreendida, parecia perder toda a habilidade de agir ou processar o que estava acontecendo ao redor. As pessoas se tornavam incompreensíveis, e suas exigências pareciam de outro mundo. Escolher meu pedido não deveria ser tão difícil, pensou. Os outros tinham retomado a conversa, e ela voltou a prestar atenção, se sentindo deixada para trás.

— O que é que a gente vai dizer para os pais dele? — perguntou Jessica.

— Carlton, você costuma encontrá-los por aí? — indagou Charlie.

— Na verdade, não. Só de vez em quando.

— Acho bem estranho que eles tenham decidido continuar morando em Hurricane — comentou Jessica, em um tom de reprovação, como se fosse a voz da experiência.

Charlie não abriu a boca, mas pensou: Como poderia ter sido diferente?

O corpo do filho jamais fora encontrado. Como não teriam, lá no fundo, a esperança de que ele voltasse para casa um dia, ainda que soubessem que era quase impossível? Como abandonariam o único lar que Michael conhecera? Significaria que tinham enfim desistido dele. Talvez aquela bolsa de estudos fosse isto mesmo: estavam admitindo que o filho não voltaria mais.

Charlie tinha plena consciência de que aquele era um lugar público, onde falar sobre Michael seria inapropriado. Eram, de certa forma, tanto nativos quanto intrusos ali. Tinham sido próximos do menino, provavelmente mais do que qualquer um dos presentes, mas, a não ser por Carlton, não eram mais de Hurricane. Não pertenciam àquele lugar.

Charlie viu lágrimas caírem em seu jogo americano de papel antes de sentir que estava chorando, e as secou depressa, olhando para baixo e torcendo para que ninguém tivesse notado. Quando levantou a cabeça, John parecia estar observando os talheres, mas ela sabia que ele havia reparado. Ficou grata por não ter tentando reconfortá-la.

— John, você ainda escreve? — perguntou Charlie.

Aos quatro anos, John aprendera a ler e a escrever — um ano antes que o restante da turma —, e, aos seis, se declarou “escritor”. Aos sete, tinha concluído seu primeiro “romance” e mostrado a criação cheia de erros de ortografia e ilustrações indecifráveis aos amigos e parentes, exigindo opiniões e críticas. Charlie se lembrava de ter lhe dado apenas duas estrelas.

John riu da pergunta.

— Hoje em dia até faço o “e” certinho. Nem acredito que você se lembra disso. Mas ainda escrevo, sim. — Parou por ali, embora estivesse claro que queria falar mais.

— E o que é que você escreve? — Charlie satisfez a vontade dele, e John baixou os olhos para o prato, quase falando com a mesa.

— Ah, contos, basicamente. Cheguei até a publicar um no ano passado. Quer dizer, foi numa revistinha, nada de mais.

Todos fizeram questão de demostrar a devida admiração, e ele ergueu o rosto outra vez, tímido mas satisfeito.

— Sobre o que era a história? — indagou Charlie.

John hesitou, mas antes que pudesse decidir se respondia ou não, a garçonete chegou com os pedidos. Todos tinham escolhido alguma opção de café da manhã: café, ovos e bacon; panquecas de mirtilo para Carlton. A comida toda colorida parecia convidativa, como um novo começo para o dia. Charlie deu uma mordida na torrada, e todos comeram em silêncio por um momento.

— Ei, Carlton — começou John —, que fim a Freddy’s levou, afinal?

Houve um breve silêncio. Carlton olhou para Charlie, nervoso, e Jessica olhou para o teto. John corou, e Jessica falou, depressa:

— Tudo bem, Carlton. Também queria saber.

Ele deu de ombros, fincando o garfo em um pedaço de panqueca, ainda nervoso.

— Começaram a construir outra coisa lá.

— O quê? — insistiu Jessica.

— Aquele lugar virou outra coisa? Eles aproveitaram o espaço ou destruíram tudo? — perguntou John.

Carlton deu de ombros novamente, um movimento rápido, como se fosse um tique nervoso.

— Já disse, não sei direito. Fica lá no fim da rodovia, e eu não quis investigar. Talvez tenham alugado para alguém, mas não sei o que fizeram. Interditaram a área toda faz uns anos, virou um canteiro de obras. Não dá nem para saber se o prédio continua de pé.

— Mas então pode ser que ainda esteja lá? — insistiu Jessica, uma centelha de empolgação surgindo por trás da pergunta.

— Vou repetir, eu não sei — disse Carlton.

Charlie sentiu as lâmpadas fluorescentes da lanchonete queimando seu rosto, de repente fortes demais. Sentia-se exposta. Mal tinha comido, mas quando deu por si estava se levantando da mesa, tirando algumas notas amassadas do bolso e as deixando ao lado do prato.

— Vou lá fora um minutinho — disse ela. — Pausa para o cigarro — acrescentou, às pressas.

Você não fuma. Repreendeu-se pela mentira esfarrapada ao passar pela porta, abrindo caminho por uma família de quatro pessoas sem ao menos pedir licença, e saiu para a tardinha fresca. Foi até o carro e se sentou no capô, afundando o metal de leve. Respirou o ar frio como se estivesse bebendo água e fechou os olhos. Você sabia que o assunto viria à tona. Sabia que teria que falar disso em algum momento, lembrou a si mesma. Tinha até praticado no caminho, se obrigado a recuperar lembranças felizes, a sorrir e dizer: “Lembra quando...?” Achou que estava preparada. Mas é claro que se enganara. Por que outro motivo teria fugido do restaurante feito uma criança?

— Charlie?

Abriu os olhos e viu John ao lado do carro, estendendo a jaqueta dela como se fosse uma oferenda.

— Você esqueceu o casaco lá dentro — explicou, e ela se forçou a abrir um sorriso.

— Valeu. — Pegou a jaqueta e a colocou sobre os ombros, depois deslizou para o lado, abrindo espaço para o garoto se sentar no capô também. — Foi mal.

Mesmo à luz fraca do estacionamento, viu que até as orelhas de John ficaram coradas. Ele se juntou à amiga, deixando de propósito um espaço entre os dois.

— Ainda não aprendi a pensar antes de falar. Desculpa.

Ele observou o céu enquanto um avião passava.

Charlie sorriu, e dessa vez não foi um sorriso forçado.

— Tudo bem. Sabia que alguém ia querer tocar no assunto, não tinha jeito mesmo. É só que... Pode parecer idiota, mas eu nunca penso na pizzaria. Não me permito pensar. Ninguém sabe o que aconteceu, a não ser pela minha tia, e a gente nunca fala sobre isso. Aí chego aqui e, de repente, está por toda a parte. Fui pega de surpresa, só isso.

— Ops. — John apontou, e Charlie viu Jessica e Carlton hesitantes na porta da lanchonete.

Gesticulou para que se aproximassem, e eles obedeceram.

— Lembra aquela vez que o carrossel da pizzaria deu problema, e a Marla e aquele garotinho malvado, o Billy, tiveram que ficar dando voltas e mais voltas até os pais deles chegarem para tirar os dois de lá? — perguntou Charlie.

John riu, e ela abriu um sorriso também.

— Os dois ficaram muito vermelhos, chorando que nem bebezinhos.

Ela escondeu o próprio rosto, culpada por achar a história tão engraçada.

Houve um silêncio rápido de surpresa, e depois Carlton começou a rir também.

— Aí a Marla vomitou no garoto!

— Bem feito! — exclamou Charlie.

Jessica franziu o nariz.

— Que nojo. Nunca mais subi naquilo, não depois desse incidente aí.

— Ah, para, Jessica, eles limparam o carrossel — interveio Carlton. — Tenho certeza de que aquele lugar inteiro foi batizado pelas crianças. Aquelas placas dizendo “cuidado, chão molhado” não estavam lá à toa. Não é, não, Charlie?

— Não olha pra mim. Nunca vomitei na pizzaria.

— A gente passava tanto tempo lá! Privilégio de quem conhecia a filha do dono — comentou Jessica, lançando a Charlie um olhar acusatório de brincadeira.

— Não se escolhe o próprio pai! — retrucou Charlie, rindo.

Jessica pareceu refletir por um instante antes de continuar.

— Mas, tipo, quer jeito melhor de passar a infância do que na Pizzaria Freddy Fazbear, o dia inteiro, todos os dias?

— Não sei — disse Carlton. — Acho que a musiquinha começou a me irritar depois de todos aqueles anos.

Cantarolou parte daquela melodia familiar.

Charlie baixou a cabeça, relembrando a canção.

— Eu amava tanto aqueles animais — comentou Jessica. — Qual é o nome certo? Animais, robôs, mascotes?

— Acho que todos estão certos. — Charlie se recostou no carro.

— Bom, enfim, eu ia sempre conversar com o coelho, qual era o nome dele mesmo?

— Bonnie — respondeu Charlie.

— Isso. Eu ficava reclamando dos meus pais para ele. Sempre achei que tinha uma expressão compreensiva — disse Jessica.

Carlton riu.

— Terapia robótica! Recomendada por seis entre sete psicopatas.

— Cala a boca — retrucou a menina. — Eu sabia que não era de verdade. Só gostava de falar com ele.

— Eu lembro — disse Charlie, e deu um sorrisinho.

Jessica em seus vestidinhos impecáveis, os cabelos castanhos presos em duas tranças perfeitas, como se fosse uma criança tirada de um livro antigo, subia no palco depois de encerrado o espetáculo e sussurrava toda comprometida para o coelho animatrônico do tamanho de um adulto. Se alguém se aproximasse dela, a menina ficava calada e imóvel, aguardando que o intruso fosse embora para que pudesse retomar sua conversa particular. Charlie nunca conversara com os animais do restaurante do pai, tampouco sentira tanta afinidade com eles quanto as outras crianças; embora gostasse deles, pertenciam ao público. Ela tinha seus próprios brinquedos, amigos mecânicos só dela à sua espera em casa.

— Eu curtia o Freddy — comentou John. — Tinha a impressão de que ele era o mais humano de todos.

— Sabe, tem um monte de coisa da minha infância que não lembro — admitiu Carlton —, mas juro que, se fechar os olhos, consigo ver cada detalhezinho daquele lugar. Até o chiclete que eu sempre grudava debaixo das mesas.

— Chiclete? Aham, sei. Aquilo lá era meleca.

Jessica deu um passinho mínimo para mais perto de Carlton.

Ele abriu um sorriso maquiavélico.

— Eu tinha sete anos. O que você esperava? E todo mundo aqui vivia implicando comigo naquela época. Lembra quando a Marla escreveu “Carlton tem cheiro de chulé” na parede de fora?

— Mas você tinha mesmo cheiro de chulé — afirmou Jessica, e explodiu em risadas.

Carlton deu de ombros, sem se deixar perturbar.

— Eu sempre tentava me esconder quando chegava a hora de ir para casa. Queria ficar preso lá dentro para ter a pizzaria inteira só para mim.

— É, você sempre deixava todo mundo esperando — concordou John — e sempre se escondia debaixo da mesma mesa.

Charlie falou devagar, e todos se voltaram para ela, como se estivessem aguardando aquele momento:

— Às vezes acho que consigo me lembrar de cada centímetro da pizzaria, que nem o Carlton. Mas tem vezes que parece que não me lembro de nada. É tudo fragmentado. Tipo, me lembro do carrossel e da vez que ele parou. Me lembro de desenhar no jogo americano de papel. Me lembro de detalhes: comer a pizza gordurosa, abraçar o Freddy no verão e sair com pelo amarelo grudado na roupa inteira. Mas várias dessas lembranças são que nem foto, como se tivessem acontecido com outra pessoa.

Todos olhavam para Charlie com expressões esquisitas.

— O Freddy não era marrom?

Jessica olhou para os outros, buscando confirmação.

— Acho que você não se lembra de nada mesmo — provocou Carlton, e Charlie deu uma risadinha.

— Verdade. Quis dizer pelo marrom — concordou.

Marrom, Freddy tinha pelagem marrom. Claro que tinha; ela pôde vê-lo em sua mente naquele exato segundo. Mas, em algum lugar, nos recantos profundos de suas lembranças, houve um lampejo de algo diferente.

Carlton seguiu para outra história, e Charlie tentou voltar sua atenção para ele, mas havia algo de inquietante, preocupante, a respeito daquele lapso de memória. Já faz dez anos; não é como se você estivesse sofrendo de demência aos dezessete, disse a si mesma, mas tinha sido um detalhe tão básico para confundir. De canto de olho, surpreendeu John olhando para ela, com uma expressão contemplativa, como se ela tivesse dito algo importante.

— Você não sabe mesmo o que aconteceu com a pizzaria? — perguntou ela a Carlton, com mais urgência do que pretendia. Ele parou de falar, surpreso. — Desculpa — emendou Charlie. — Desculpa, não quis interromper você.

— Tudo bem — respondeu ele. — Mas é... Ou melhor, não, quer dizer, não sei mesmo o que aconteceu.

— Como não? Você mora aqui.

— Charlie, para com isso... — disse John.

— Não é como se eu ficasse passeando por aquela parte da cidade. As coisas estão diferentes agora. Hurricane cresceu — argumentou Carlton, com paciência, indiferente à explosão da garota. — E, para ser sincero, não fico procurando motivo para ir para aqueles lados, sabe? Por que eu faria isso? Não tem motivo, não mais.

— A gente podia ir lá — sugeriu John, e Charlie sentiu seu coração acelerar.

Carlton olhou para ela, nervoso.

— O quê? Sério, aquilo lá é um verdadeiro caos. Não sei nem se dá para chegar no prédio.

Charlie se pegou assentindo. Era como se tivesse passado aquele dia inteiro oprimida pelas lembranças, enxergando tudo através do filtro do tempo, e de repente se sentia alerta, a mente aguçada. Ela queria ir.

— Vamos. Mesmo que não tenha mais nada lá. Quero ver.

Todos ficaram em silêncio. Depois, John sorriu com uma confiança relaxada.

— É. Vamos, sim.





Sentindo os pneus deslizarem por uma camada de terra macia, Charlie estacionou e desligou o motor. Saiu do carro e examinou os arredores. O céu tinha um tom azul-escuro intenso, com vestígios do pôr do sol. O estacionamento não era pavimentado, e um edifício monstruoso se estendia diante dela, uma imensidão de vidro e concreto ainda em construção. Havia postes de luz que nunca tinham sido usados, e nenhuma lâmpada iluminava o estacionamento. A construção em si lembrava um santuário abandonado, sepultado entre árvores escuras, que abafavam o burburinho da civilização. Ela olhou para Jessica no banco do carona com a cabeça para fora da janela.

— É aqui mesmo? — indagou a amiga.

Charlie balançou a cabeça, sem entender bem o que via.

— Não sei — sussurrou.

Então Charlie saiu do carro e ficou de pé ali, em silêncio, enquanto John e Carlton estacionavam logo ao lado.

— O que é isso? — John saiu do carro, hesitante, e fitou a construção, inexpressivo. Em seguida olhou para cada um dos amigos enquanto perguntava: — Alguém tem lanterna?

Carlton ergueu o chaveiro e os iluminou com o fraco facho de luz de uma pequena lanterna.

— Maravilha — resmungou John, se afastando, resignado.

— Espera aí — pediu Charlie, indo até o porta-malas do próprio carro. — Minha tia me obriga a carregar um monte de tralha aqui dentro, em caso de emergência.

Tia Jen, uma mulher amorosa mas muito rígida, ensinara à sobrinha que o mais importante era saber se virar sozinha. Antes que desse a Charlie seu velho Honda azul, insistira que a garota aprendesse a trocar pneus e conferir o óleo e que conhecesse as partes básicas de um motor. No porta-malas, em uma caixa preta guardada ao lado do macaco, do pneu reserva e do pé de cabra, havia cobertor, uma lanterna decente, uma garrafa d’água, barrinhas de cereal, fósforos e sinalizadores. Charlie pegou a lanterna, e Carlton surrupiou uma barrinha de granola.

Sem ninguém falar nada, começaram a dar a volta no prédio, como se tivessem combinado antes. Charlie usava a lanterna para iluminar o caminho. A obra em si parecia quase concluída, mas o chão era de terra e pedra, irregular e fofo. Charlie apontou o facho de luz para baixo, onde trechos de grama alta cresciam sem supervisão em meio à sujeira.

— Faz um tempo que ninguém remexe o chão para tocar essa obra — comentou.

O lugar era bem grande, e eles levaram bastante tempo para circular o prédio. Não demorou muito para que o azul suntuoso do céu de fim de tarde fosse coberto por uma cortina de nuvens prateadas esparsas em meio ao pontilhado de estrelas. As paredes do lugar eram todas do mesmo concreto bege, e as janelas ficavam muito acima do chão, impedindo que os quatro jovens vissem o que havia lá dentro.

— Sério que tiveram o trabalho de construir isso tudo para simplesmente abandonar o projeto? — comentou Jessica.

— Carlton, você não sabe mesmo o que aconteceu? — perguntou John.

O garoto deu de ombros enfaticamente.

— Eu já disse, sabia que estavam construindo alguma coisa aqui, mas não sei de mais nada.

— Por que fariam isso? — John parecia quase paranoico, examinando as árvores como se algo pudesse estar escondido entre elas. — Não acaba nunca, é enorme. — Ele estreitou os olhos e examinou a parede externa do prédio, que parecia se estender infinitamente. Olhou de volta para as árvores, como se quisesse se certificar de que não havia nenhum outro prédio que não tivessem visto. — Não, era aqui mesmo. — Ele apoiou a mão na fachada austera de concreto. — O lugar não existe mais.

Depois de um tempo, gesticulou para os outros e começou a voltar pelo caminho por onde tinham vindo. Relutante, Charlie deu meia-volta, seguindo o grupo. Continuaram até avistarem os carros na escuridão adiante.

— Foi mal, gente. Achei que restasse pelo menos algum pedacinho reconhecível — desculpou-se Carlton.

— É — concordou Charlie.

Ela já sabia que aquilo poderia acontecer, mas ainda assim tinha sido um choque confirmar que a pizzaria fora demolida. Às vezes parecia que a Freddy’s era uma presença tão insistente em sua memória que só queria se livrar dela, varrer as lembranças, tanto as boas quanto as ruins, como se nada daquilo tivesse acontecido. Mas alguém varrera a pizzaria da face da Terra, o que parecia uma violação. Ela é quem deveria ter decidido o futuro daquele lugar. Certo, pensou, como se você tivesse dinheiro para comprar a propriedade e preservá-la, como tia Jen fez com a casa.

— Charlie — chamou John, e parecia que já estava chamando por ela havia algum tempo.

— Desculpa. O que é que vocês estavam dizendo?

— Quer entrar lá? — perguntou Jessica.

Charlie ficou surpresa por terem demorado tanto a pensar naquilo, mas lembrou que nenhum deles tinha tendências criminosas. A sugestão a deixou aliviada. Ela deu um suspiro profundo e então falou, quase rindo:

— Por que não? — Ergueu a lanterna. Os braços estavam ficando cansados. — Alguém quer trocar comigo? — Balançou o objeto como um pêndulo.

Carlton a pegou, parando um instante para avaliar o peso.

— Por que é tão pesada? — perguntou, repassando-a para John. — Aqui, pode ficar.

— É uma lanterna igual àquelas que a polícia usa — explicou Charlie, distraída. — Dá até para dar uma pancada em alguém com ela.

— Sua tia não brinca em serviço, hein? E você já acertou alguém com ela? — perguntou Jessica.

— Nunca tive o privilégio.

Charlie deu uma piscadela e, de brincadeira, lançou um olhar ameaçador para John, que respondeu com um meio sorriso hesitante, sem saber bem como reagir.

A ampla entrada estava vedada com portas de metal, sem dúvida uma escolha temporária até a construção ser concluída. Mas não foi difícil encontrar uma entrada alternativa, com os diversos montes de cascalho e areia contra a parede, de onde poderiam escalar até as grandes janelas abertas.

— Não se esforçaram muito para impedir a entrada — comentou John.

— E o que teria para roubar aí dentro? — retrucou Charlie, fitando as enormes paredes sem atrativos.

Escalaram as colinas artificias sem pressa, os pés deslizando no cascalho. Carlton foi o primeiro a chegar à janela e dar uma olhada lá dentro. Jessica espiou por cima do ombro dele.

— Dá para pular? — indagou John.

— Dá — respondeu Carlton.

— Não — disse Jessica, ao mesmo tempo.

— Eu vou primeiro — falou Charlie.

Sentia-se um pouco rebelde. Sem olhar para baixo para avaliar a altura da queda, passou os pés para o outro lado da janela e pulou. Aterrissou flexionando os joelhos. O impacto tinha sido forte, mas não chegara a machucar. Olhou para cima, para os amigos que a fitavam.

— Ah. Esperem! — gritou, então puxou uma escadinha baixa encostada a uma parede próxima e a botou sob a janela. — Ok! Podem vir!

Eles desceram um de cada vez e olharam ao redor. Havia um pátio interno que talvez fosse virar uma praça de alimentação, onde haveria mesas e cadeiras. O pé-direito era alto, e do teto de vidro dava para ver as estrelas de olho neles lá de cima.

— Que cenário pós-apocalíptico — brincou Charlie, a voz ecoando no espaço vazio.

Sem aviso, Jessica entoou as notas de uma escala musical, assustando o restante do grupo, fazendo com que todos ficassem quietos. A voz reverberou, pura e cristalina — algo de belo naquele vazio.

— Que maravilha, mas vamos tentar não chamar muita atenção — sugeriu John.

— Beleza — concordou Jessica, ainda muito satisfeita consigo mesma.

Pouco mais adiante, Carlton se aproximou e a segurou pelo braço.

— Que voz maravilhosa.

— É a acústica daqui que é boa — retrucou Jessica, em uma humildade forçada, sem a menor sinceridade.

Caminharam pelos corredores desertos, espiando dentro de todas as salas gigantescas que alguma loja de departamentos poderia ter ocupado. Havia partes do shopping quase concluídas, ao passo que outras continuavam em ruínas. Alguns corredores estavam tomados de pilhas de tijolos de concreto empoeirados e de tábuas de madeira, em outros havia uma procissão de vitrines inacabadas, com fileiras muito simétricas de lâmpadas pendendo do teto.

— Parece uma cidade abandonada — comentou John.

— Que nem Pompeia — acrescentou Jessica —, só que sem o vulcão.

— Não — discordou Charlie —, não tem nada aqui.

Tudo ali tinha um aspecto estéril. Não era um lugar abandonado: aquilo nunca nem vira sombra de vida.

Charlie olhou para a vitrine diante dela, uma das poucas em que o vidro já havia sido instalado, e se perguntou o que teria sido exposto lá. Imaginou manequins, todos com roupas modernas, mas só conseguia visualizá-los com rostos inexpressivos, como se escondessem alguma coisa. De repente se sentiu meio errada por estar ali, uma presença indesejada pela própria construção. Começou a ficar inquieta, e a aventura foi perdendo um pouco a graça. Já tinham chegado até ali. A pizzaria não existia mais, e Charlie perdera o santuário que resguardara na memória, com a imagem de Michael brincando pela última vez.

John parou de repente e desligou a lanterna com o máximo de cuidado. Levou um dos dedos aos lábios, pedindo silêncio. Apontou para o caminho que tinham feito até ali. Ao longe, viram um facho fraco de luz se movendo no escuro, para cima e para baixo, como um navio em meio à neblina.

— Tem alguém aqui — disse ele.

— Algum segurança, talvez? — sussurrou Carlton.

— Para que iam contratar alguém para vigiar um prédio abandonado? — questionou Charlie.

— Deve ter um monte de gente querendo fazer festas aqui — sugeriu Carlton, e abriu um enorme sorriso. — Eu também faria, se soubesse que este lugar existe. E se gostasse de festas.

— Ok. Bem, vamos voltar devagar — disse John. — Jessica... — chamou, então moveu os dedos diante da boca, como se a fechasse com um zíper.

Eles continuaram avançando pelo corredor, agora apenas com a luz fraca da lanterna do chaveiro de Carlton.

— Espera. — Jessica parou com um sussurro, examinando melhor as paredes ao redor. — Tem alguma coisa errada.

— É mesmo, cadê os pretzels gigantes? Eu também fiquei intrigado. — A resposta de Carlton soava sincera.

Jessica balançou a mão, impaciente.

— Não, estou falando que tem alguma coisa estranha na arquitetura. — Ela recuou vários passos, buscando uma visão mais ampla da área. — Com certeza tem alguma coisa errada — insistiu. — É muito maior por fora.

— Maior por fora? — repetiu Charlie, confusa.

— Tem uma distância enorme entre a parede de fora e a parede aqui de dentro. É como se estivessem em lugares diferentes. Olha só. — Ela atravessou correndo o espaço onde deveriam ficar duas lojas.

— Era para ter uma loja aqui e outra ali. — John comentou o óbvio, sem entender qual era o problema.

— Mas tem alguma coisa no meio! — exclamou a garota, batendo em uma seção da parede onde não havia nada. — Do estacionamento, a gente vê uma divisão dessa parte entre as duas outras lojas, mas aqui não tem entrada nenhuma.

— Verdade, você está certa. — Charlie foi andando até ela, examinando as paredes. — Devia ter outra entrada aqui.

— E... — Jessica diminuiu o tom de voz, de modo que apenas Charlie ouviu — é mais ou menos do tamanho da Freddy’s, não é?

Charlie arregalou os olhos e deu um passo para trás, assustada, se afastando de Jessica.

— O que vocês estão cochichando aí? — Carlton se aproximou.

— A gente estava falando mal de você — respondeu Jessica, ríspida, então todos entraram em uma das lojas desertas ao redor do suposto espaço. — Anda, vamos dar uma olhada.

Eles avançaram em grupo, examinando a área, aglomerados ao redor do facho de luz.

Charlie não sabia bem o que esperar. Tia Jen avisara que seria melhor não voltar à cidade. Não que ela tenha aconselhado Charlie a faltar à homenagem, não exatamente, mas tampouco parecera feliz em ver a sobrinha voltando a Hurricane.

“Tome cuidado”, alertara a tia. “Tem certas coisas, certas memórias, que é melhor não desenterrar.”

Foi por isso que você conservou a casa do meu pai exatamente como era?, pensou Charlie, se lembrando das palavras da tia. Por isso continuou pagando as contas, deixou a casa intocada, como uma espécie de templo, mas sem nunca visitá-la?

— Ei! — John gesticulava loucamente, correndo para alcançar o grupo. — Se escondam!

Aquele facho de luz bamboleante reaparecera no corredor e já estava se aproximando. Charlie olhou em volta. Tinham avançado tanto pela monstruosa loja vazia que já não dava mais para sair a tempo, e não parecia haver onde se esconder.

— Aqui, gente! — sussurrou Jessica.

Havia uma reentrância na parede, ao lado de um andaime, e eles entraram depressa, se espremendo para passar pelas pilhas de caixas abertas e longas tiras de plástico penduradas no teto.

Avançaram por uma espécie de corredor, do outro lado da parede da loja de departamentos. Na verdade, parecia mais um beco, além de ser um contraste em relação ao restante do shopping: não era novo e reluzente, mas escuro e úmido. Uma das paredes era feita do mesmo concreto que a fachada externa do prédio, embora mais áspera e sem acabamento, enquanto a outra era de tijolos, com algumas partes já desgastadas pela ação do tempo, outras com o reboco esfarelando, com rachaduras e buracos. Encostadas a essa parede havia grandes estantes de madeira, já um pouco envergadas para o lado, as prateleiras afundando sob o peso de latas de tinta velhas, produtos de limpeza e baldes misteriosos. Um líquido pingava de canos expostos no teto e empoçava o chão, e o grupo evitava pisar. Um camundongo passou correndo, quase subindo no pé de Carlton. O menino deixou escapar um gritinho abafado, cobrindo a boca com a mão.

Agacharam-se atrás de uma das estantes de madeira, se espremendo contra a parede. Charlie apagou a lanterna e esperou.

Sua respiração saía curta e acelerada, e ela se manteve perfeitamente imóvel, atenta, desejando não ter parado em uma posição tão ruim. Depois de algum tempo, começou a sentir dormência nas pernas. Carlton estava tão perto que dava para sentir o cheiro leve e agradável de seu xampu.

— Que cheiro bom — sussurrou.

— Valeu — respondeu ele. E, já sabendo ao que a amiga se referia, completou: — Tem dois tipos, o Brisa Oceânica e o Paraíso Tropical. Prefiro o cheiro do Brisa, mas resseca muito o couro cabeludo...

— Shhh! — ralhou John.

Charlie não sabia por que estava tão preocupada. Era só um segurança; na pior das hipóteses eles seriam convidados a se retirar, talvez depois que o sujeito gritasse com eles. O problema é que ela realmente odiava se meter em encrencas.

A luz bamboleante foi se aproximando. Charlie estava muito consciente do próprio corpo, todos os músculos tensos e imóveis. Não mais que um instante depois, avistou uma silhueta magra vindo daquela loja enorme e espiando dentro do corredor. A pessoa direcionou o facho de luz para lá, iluminando as paredes de cima a baixo. Fomos encontrados, pensou Charlie, mas, inexplicavelmente, o homem deu meia-volta e saiu, parecendo satisfeito.

Aguardaram mais alguns minutos, e nada aconteceu. O estranho tinha desaparecido. Àquela altura todos estavam com braços e pernas dormentes e saíram do esconderijo, se alongando. Carlton sacudiu a perna até conseguir firmar outra vez o pé. Charlie olhou para Jessica, ainda paralisada de cócoras no chão, parecendo congelada no tempo.

— Jessica, tudo bem? — sussurrou.

A garota olhou para cima, sorrindo.

— Você não vai acreditar.

Ela apontou para a parede, e Charlie se inclinou para ver o que era. Lá, gravado no tijolo desgastado, em uma caligrafia infantil e desleixada, quase ininteligível, estava escrito:

Carlton tem cheiro de chulé.

— Tá de brincadeira, né? — murmurou John, embasbacado, se virando para tocar a parede. — Eu reconheço estes tijolos. — Então deu uma risada. — São os mesmos! — O sorriso se desfez. — Nossa, não demoliram a pizzaria! Simplesmente construíram o shopping em volta.

— A Freddy’s continua aqui! — exclamou Jessica, tentando, sem sucesso, manter a voz baixa. — Deve ter um jeito de entrar — acrescentou, arregalando os olhos, que brilhavam com uma empolgação quase infantil.

Charlie iluminou o corredor, deixando o facho de luz dançar pelas duas paredes, mas não viu nenhuma porta ou abertura.

— A Freddy’s tinha uma porta nos fundos — lembrou John. — A Marla não tinha escrito isso bem do lado dela?

— Por que será que não demoliram? — indagou Charlie.

— Sério que este corredor realmente não leva a lugar nenhum? — perguntou Jessica, intrigada.

— Igualzinho à minha vida — comentou Carlton, com bom humor.

— Esperem... — Charlie passou os dedos pela borda da prateleira, tentando ver por entre as muitas quinquilharias espremidas ali. A parede atrás parecia diferente: era de metal, não de tijolo. — É aqui. — Ela se afastou e encarou os amigos. — Me ajudem a tirar isso da frente.

John e Jessica empurraram de um lado da estante, unindo esforços, enquanto Charlie e Carlton puxavam do outro. O móvel era incrivelmente pesado, ainda mais cheio de produtos e equipamentos de limpeza, baldes enormes repletos de pregos e ferramentas, mas ainda assim não foi muito difícil fazê-lo deslizar pela passagem sem maiores incidentes.

Charlie deu um passo para trás, ofegante.

— John, passa a lanterna. — Ele obedeceu, e a garota acendeu a luz, mirando o local onde a estante estivera. — É aqui.

A porta era de metal, que já estava enferrujado e coberto de respingos de tinta, um forte contraste com as paredes ao redor. Onde antes ficava a maçaneta, restava apenas um buraco; devia ter sido removida para que a estante ficasse encostada sem impedimentos.

Sem fazer barulho, Charlie devolveu a lanterna para John, que a segurou no alto, para que ela pudesse ver o que estava fazendo. Enfiando os dedos no buraquinho da maçaneta, Charlie tentou abrir a porta, mas não conseguiu.

— Não vai abrir — declarou.

John espiava atrás dela.

— Espera aí. — Ele se espremeu ao lado da amiga e se ajoelhou, prestando atenção em onde apoiava o corpo. — Acho que não está trancada, nem nada. Só enferrujada mesmo. Olha.

Não havia vão entre o chão e a porta, e a parte de baixo parecia muito irregular. As dobradiças ficavam por dentro, mas dava para ver que as beiradas estavam incrustadas de ferrugem. Parecia que não era aberta havia anos. John e Charlie a empurraram juntos, e a porta se moveu cerca de um mísero centímetro.

— Aeee! — comemorou Jessica, quase gritando, então tampou a boca. — Foi mal — sussurrou. — Vou conter minha empolgação.

Os quatro se alternaram tentando empurrar a porta, se debruçando um por cima do outro, o metal arranhando as mãos. A porta se manteve firme por um tempo, mas acabou cedendo sob o peso deles, se abrindo bem lentamente e com um rangido sinistro. Charlie olhou para trás, nervosa, mas não havia nem sinal do segurança. Só tinham conseguido abrir pouco mais de um palmo, então tiveram que se espremer para passar um de cada vez.

O ar parecia diferente lá dentro, e eles pararam para entender a situação. À frente havia um pequeno corredor escuro que todos conheciam bem.

— Aqui é a...? — cochichou Jessica, sem tirar os olhos da área escura.

Sim, é aqui, pensou Charlie. Estendeu a mão, pedindo a lanterna, e John a entregou sem dizer nada. Ela direcionou o facho de luz para a frente, iluminando as paredes. Estavam cobertas por desenhos das crianças feitos com giz de cera em papéis amarelados e as beiradas curvadas pelo tempo. Ela avançou, e os outros a seguiram, arrastando os pés pelo ladrilho velho.

Pareceram levar uma eternidade para atravessar o pequeno corredor, mas talvez só estivessem se movendo mais devagar, com passos metódicos e calculados. Enfim chegaram a um espaço aberto, onde ficava a área de alimentação. O lugar estava totalmente preservado, bem como eles lembravam. O facho de luz reluzia em mil superfícies reflexivas ou purpurinadas e nos laços de fitas metálicas.

As mesas continuavam no mesmo lugar, cobertas com toalhas quadriculadas em prata e branco, mas as cadeiras estavam desordenadas; algumas mesas tinham cadeiras de mais, outras, de menos. Era como se o lugar tivesse sido abandonado bem no meio de uma refeição: as pessoas saíram no horário de almoço, esperando voltar logo, só que nunca voltaram. Os quatro avançaram, hesitantes, respirando o ar frio e parado, preso ali havia uma década. O restaurante todo tinha uma aura de abandono — ninguém voltaria a frequentar o lugar. Um pequeno carrossel, quase invisível, ficava no canto mais afastado, onde quatro pequeninos pôneis perfeitos ainda descansavam de sua última música. De repente, Charlie congelou — e os outros também.

Ali estavam eles. Olhos grandes e sem vida a encaravam no escuro. Uma onda de pânico irracional se espalhou por seu corpo, e ela sentiu o tempo parar. Ninguém falava, ninguém respirava — era como se um predador estivesse à espreita. Mas, à medida que os segundos se passavam, o medo foi minguando. Até que ela se viu de volta àquele lugar, ainda criança, junto com os amigos que não encontrava havia tempo demais. Charlie foi na direção dos olhos. Mas foi sozinha; atrás dela, o restante do grupo permanecia imóvel. Enquanto avançava, empurrou o encosto acolchoado de uma cadeira sem nem olhar para ela, tirando-a do caminho. Deu um último passo, e os olhos que a encaravam no escuro ficaram visíveis. Eram mesmo eles. Charlie sorriu.

— Oi — murmurou, baixo demais para que os outros a escutassem.

Diante dela estavam três animatrônicos: um urso, um coelho e uma galinha. Eram tão altos quanto um adulto, talvez até mais, e tinham corpos segmentados como os daqueles bonequinhos articulados usados pelos desenhistas, cada membro feito de um bloco separado, todos conectados por articulações. Pertenciam à Freddy’s — ou talvez fosse a pizzaria que pertencesse a eles. Houve um tempo em que todos sabiam seus nomes.

Lá estava Bonnie, o coelho, com o pelo azul intenso, o focinho quadrado ostentando um sorriso permanente, as pálpebras meio caídas nos grandes olhos cor-de-rosa, já lascados, lhe conferindo uma expressão de eterno cansaço. As orelhas estavam erguidas, dobradas apenas nas pontinhas, e os grandes pés, abertos em V para manter seu corpo equilibrado. Ele segurava um baixo vermelho, as patas azuis prontas para tocar, e usava uma gravata-borboleta que combinava com a cor escura do instrumento.

Chica, a galinha, era mais corpulenta. Exibia um olhar apreensivo, as grossas sobrancelhas escuras arqueadas acima dos olhos roxos, o bico entreaberto, revelando dentes, estendendo uma bandeja com um cupcake. O bolinho em si era um detalhe um tanto inquietante, com olhos na cobertura de glacê cor-de-rosa e pequenos dentinhos na massa, além de uma única vela no topo.

— Eu sempre achava que esse cupcake ia saltar da bandeja. — Carlton riu baixinho, se aproximou de Charlie e acrescentou, em um sussurro: — Eles parecem mais altos do que eu me lembrava.

— É porque você nunca tinha chegado tão perto. — Charlie abriu um sorriso tranquilo e deu um passo à frente.

— Você ficava ocupado demais se escondendo embaixo das mesas — provocou Jessica, de trás dos dois, ainda mantendo distância.

Chica usava um babador com estampas de confetes e as palavras HORA DO LANCHE! em roxo e amarelo, e tinha um tufo de penas no meio da cabeça.

Entre Bonnie e Chica estava o famoso Freddy Fazbear, que levava o nome do restaurante. Dos três, era o mais simpático e adorável e parecia bem tranquilo. O urso marrom e robusto — mas com a fantasia flácida — sorria para a plateia segurando seu microfone e ostentando uma gravata-borboleta preta e uma cartola. O único detalhe incomum em suas feições era a cor dos olhos, um azul-claro jamais visto em outro urso. A boca estava aberta, os olhos, parcialmente fechados — parecia que Freddy tinha sido congelado no meio de uma canção.

Carlton se aproximou do palco, encostando os joelhos na beirada.

— E aí, Freddy? — sussurrou ele. — Quanto tempo.

Estendeu a mão e pegou o microfone, virando-o de um lado para outro, tentando soltá-lo.

— Não! — exclamou Charlie, fitando os olhos vidrados de Freddy como se quisesse se certificar de que o animatrônico não tinha percebido.

Carlton afastou a mão como se tivesse tocado em algo muito quente.

— Foi mal.

— Vamos lá — chamou John, abrindo um sorriso. — Não querem ver o resto?

Cada um foi para um canto do salão, examinando os mínimos detalhes e tentando abrir as portas com todo o cuidado, agindo como se tudo pudesse se quebrar com um simples toque. John foi até o pequeno carrossel, e Carlton se enfiou na sala dos fliperamas, logo depois do salão principal.

— Eu lembro que essa sala era muito mais clara e barulhenta. — Carlton sorriu como se finalmente se sentisse em casa outra vez, passando as mãos pelas alavancas velhas e pelos botões de plásticos achatados. — Será que meus recordes continuam gravados? — murmurou para si mesmo.

À esquerda do palco havia um pequeno corredor. Torcendo para que ninguém notasse aonde estava indo, Charlie avançou em silêncio enquanto os outros estavam ocupados tentando matar a própria curiosidade. No fim do corredor curto e sem atrativos ficava o escritório do pai. Era seu lugar favorito do restaurante. Ela gostava de brincar com os amigos na área aberta ao público, mas adorava ter o privilégio único de poder entrar na salinha enquanto o pai cuidava da papelada. Parou diante da porta fechada, perdida em lembranças, com a mão na maçaneta. A escrivaninha ocupava quase o cômodo inteiro, e havia gaveteiros e caixinhas cheios de objetos desinteressantes. Em um dos cantos havia um gaveteiro menor, pintado de salmão, mas que Charlie sempre insistira que era rosa. Aquele era dela. A gaveta de baixo continha brinquedos e giz de cera, e na de cima ficava o que ela gostava de chamar de “minha papelada”. A maioria era livros de colorir e desenhos, mas ela de vez em quando ia até a mesa do pai e, com seus rabiscos infantis de giz de cera, copiava o que ele estivesse escrevendo. Tentou abrir a porta, mas estava trancada. Melhor assim, pensou. O escritório era uma parte muito privada, não queria que fosse aberto naquela noite.

Voltou para o salão principal e encontrou John vidrado no carrossel, perdido em pensamentos. Ele a encarou com curiosidade, mas não perguntou onde estivera.

— Eu amava esse negócio — disse Charlie, abrindo um sorriso caloroso ao se aproximar.

Olhando depois de tantos anos, as pinturas lhe pareciam estranhas e sem vida.

John fez uma careta, como se soubesse o que ela estava pensando.

— Não é mais a mesma coisa — disse ele, passando a mão na cabeça de um dos pôneis brilhantes, como se fosse coçá-lo atrás da orelha. — Não mesmo — repetiu, afastando a mão e desviando os olhos.

Charlie fez o mesmo, querendo saber onde estavam os outros. Viu Jessica e Carlton vagando por entre as máquinas da sala dos fliperamas.

Os jogos continuavam no mesmo lugar. Vazios e desligados, com os monitores apagados, mais pareciam lápides imensas.

— Nunca gostei de jogar — confessou Jessica, sorrindo. — Tudo se mexia rápido demais, e quando eu finalmente começava a entender o que era para fazer, acabava morrendo e tinha que dar a vez a outra pessoa.

Ela sacudiu um joystick, que rangeu devido aos anos de negligência.

— Ah, as máquinas eram adulteradas mesmo — comentou Carlton, dando uma piscadela.

— Quando foi a última vez que você jogou nesses trecos? — perguntou Jessica, examinando uma das telas mais de perto, querendo identificar a imagem que os anos de uso tinham queimado na tela de tubo.

Carlton estava ocupado sacudindo uma máquina de pinball, tentando soltar a bolinha.

— Ah, às vezes vou numa pizzaria que tem uns desses. — Ele apoiou a máquina de volta nos quatro pés, com todo o cuidado, e deu uma olhada para a menina. — Mas não é como a Freddy’s.

John passeava pelo salão, andando por entre as mesas e cadeiras, dando petelecos nas estrelinhas e espirais penduradas no teto. Pegou um chapéu de festa vermelho em uma mesa, puxou o elástico frouxo da base e o colocou na cabeça, deixando as borlas vermelhas e brancas caídas por cima do rosto.

— Ah, vamos dar uma olhada na cozinha — sugeriu, e se dirigiu para lá.

Charlie foi atrás.

Seus amigos nunca tiveram permissão para entrar na cozinha, mas Charlie passara um tempo considerável lá dentro, tanto que os cozinheiros sempre gritavam seu nome para expulsá-la — ou pelo menos o nome pelo qual ouviam o pai chamá-la: Charlotte. Certo dia, quando os quatro ainda estavam no jardim de infância, John ouvira alguém chamando-a assim e passou a fazer o mesmo só de implicância — sempre conseguia arrancar dela uma reação explosiva. Não que ela não gostasse do nome, mas Charlie era como todo mundo a conhecia. Só o pai a chamava de Charlotte, e era como um segredo dos dois, algo que ninguém mais podia compartilhar. No dia em que a menina foi embora da cidade de vez, o dia em que se despediram, John hesitara e dissera apenas: “Tchau, Charlie.” Nos cartões-postais, nas cartas e nos telefonemas, ele usara apenas seu apelido. Ela nunca perguntou por quê, e ele nunca lhe contou.

A cozinha ainda tinha todas as panelas e os potes, mas inspirava pouco interesse em Charlie, com tantas lembranças. Ela voltou para o salão, e John a seguiu. Ao mesmo tempo, Jessica e Carlton saíam da sala dos fliperamas, se esbarrando ao passar de um cômodo escuro para outro.

— Acharam alguma coisa interessante? — indagou John.

— Hum, só uma embalagem de chiclete, trinta centavos e a Jessica, então... não, nada de interessante — brincou Carlton, e levou um soquinho de brincadeira no ombro.

— Ué, será que esquecemos? — Jessica abriu um sorriso malicioso e apontou para outro corredor, no lado oposto do salão.

Ela foi até lá bem depressa, antes que alguém pudesse responder, e o restante do grupo a seguiu. Era um corredor longo e estreito, e quanto mais andavam, menos a lanterna parecia capaz de iluminar. Finalmente a passagem se abriu para uma área reservada para as festas particulares, um pequeno salão com mesas e cadeiras. Ao entrarem, ficaram em silêncio. Diante deles estava um palco menor, com a cortina fechada. Uma placa estava pendurada em uma corda que cruzava o tablado de um lado a outro, com letras manuscritas bem desenhadas que diziam: FORA DE SERVIÇO. Eles permaneceram imóveis por um tempo, mas Jessica acabou avançando até o palco, onde cutucou a placa.

— A Baía do Pirata — comentou. — Já se passaram dez anos, mas continua quebrada.

Não toque, pensou Charlie.

— Fiz um aniversário aqui — comentou John. — E já não estava funcionando naquela época. — Ele segurou a borda da cortina e passou os dedos pelo tecido brilhoso, esfregando-o.

Não, Charlie queria dizer, mas se conteve. Você está agindo feito uma boba.

— Acham que ele ainda está aí dentro? — brincou Jessica, ameaçando puxar a cortina e revelar a resposta.

— Com certeza. — John deu um sorriso falso, pela primeira vez parecendo pouco à vontade.

Sim, ele ainda está aí, pensou Charlie. Recuou um passo, repentinamente consciente dos desenhos e pôsteres pendurados na parede, cercando-os feito teias de aranha. A lanterna dela iluminou as ilustrações, uma a uma, todas mostrando variações da mesma personagem: uma raposa pirata grande e energética, com tapa-olho e um gancho no lugar de uma das mãos. Ela fazia aparições para entregar pizzas a crianças famintas.

— Aqui era você quem sempre se escondia debaixo da mesa — comentou Jessica, provocando Charlie, tentando rir. — Mas já está bem crescidinha, não é?

A garota subiu no palco, um pouco cambaleante, e quase caiu. John estendeu a mão para ajudá-la a se equilibrar. Jessica deu uma risadinha nervosa, olhando para os outros como se buscasse orientação, então pegou a borda franjada da cortina, abanando a outra mão para dispersar a poeira que se soltou do pano.

— Talvez não tenha sido uma boa ideia.

Ela riu, mas havia um toque de verdade em sua voz, e Jessica olhou para baixo, parecendo pronta para descer de vez. No entanto, não se moveu, só segurou a cortina outra vez.

— Espera — pediu John. — Ouviram isso?

Eles fizeram silêncio. Charlie pôde ouvir a respiração de todos. A de John era calma e controlada, e a de Jessica, rápida e ansiosa. Quanto mais reparava, mais a própria respiração foi começando a lhe parecer estranha, como se ela tivesse esquecido como era o processo.

— Não estou ouvindo nada — respondeu.

— Nem eu — declarou Jessica. — O que era?

— Música. Vinha do... — John indicou o caminho por onde tinham vindo.

— Do palco? — Charlie inclinou a cabeça para o lado. — Não ouvi nada.

— Parecia uma caixinha de música — explicou o garoto. Charlie e Jessica tentaram ouvir, atentas, mas seus rostos permaneceram inexpressivos, sem nenhum sinal de reconhecimento. — Deve ter parado.

John voltou a olhar para a frente.

— Vai ver foi um caminhão de sorvete — sussurrou Jessica.

— Ei, até que um sorvetinho cairia bem — respondeu ele, agradecido pela leveza da resposta.

Jessica voltou a atenção para a cortina, mas John começara a cantarolar baixinho.

— Me lembra alguma coisa — resmungou.

— Ok, lá vai! — anunciou Jessica.

Mas ela não se moveu. Charlie sentiu os olhos atraídos para baixo, para a mão da garota na cortina: as unhas pintadas de cor-de-rosa e os dedos pálidos, que contrastavam com o tecido escuro e brilhoso. Estavam todos imóveis, na expectativa, mas não assistiam a um espetáculo, não era mais uma brincadeira. Toda a alegria tinha sumido do semblante de Jessica, e as maçãs do rosto dela se destacavam nas sombras, os olhos sombrios como se o que estava prestes a fazer — ainda que um ato tão simples — pudesse trazer consequências terríveis. Quando Jessica hesitou, Charlie reparou em como sua mão doía: cerrara o punho com tanta força que as unhas afundavam na carne. Mesmo assim, não conseguiu se obrigar a relaxar.

Ouviram um estrondo vindo do salão principal, um barulho alto e reverberante que ressoou pelo lugar, se espalhando por todo o cômodo em que estavam. John e Charlie congelaram, se entreolhando, tomados de um pânico repentino. Jessica largou a cortina e saltou do palco, esbarrando em Charlie e derrubando a lanterna de suas mãos.

— Onde fica a saída?! — perguntou, desesperada, e John se adiantou para ajudar.

Eles tatearam as paredes às pressas enquanto Charlie corria atrás do facho de luz que girava no chão. Assim que ficaram todos de pé outra vez, Carlton entrou correndo no pequeno salão.

— Derrubei um monte de panelas lá na cozinha! — explicou, como um pedido de desculpas em tom de pânico.

— Achei que você estivesse aqui com a gente — comentou Charlie.

— Queria ver se ainda tinha comida — explicou ele, sem deixar claro se encontrara ou não.

— Sério?

John deu uma risada.

— Aquele segurança pode ter ouvido — disse Jessica, nervosa. — Temos que dar o fora daqui.

Foram todos para a porta, Jessica correndo. O restante do grupo fez o mesmo, aumentando a velocidade aos poucos quando chegaram ao corredor, até que dispararam, como se estivessem sendo seguidos.

— Corre, corre! — gritava John, e todos riam.

O pânico era simulado, mas a urgência era real.

Espremeram-se pela porta, e Carlton e John usaram toda a força para puxá-la, fechando-a com o mesmo rangido alto. Todos empurraram a estante de volta para o lugar, mexendo nas coisas das prateleiras para que parecessem intactas.

— Está bom assim? — indagou Jessica, e John a puxou pelo braço.

Voltaram depressa, mas com muito cuidado, pelo mesmo caminho, usando apenas a luz da lanterna de Carlton para se guiarem, passando outra vez pelos corredores vazios, entrando no grande pátio e, enfim, saindo para o estacionamento. Não viram a luz da lanterna do segurança outra vez.

— Que sem graça — comentou Carlton, decepcionado, olhando para trás uma última vez, na esperança de estarem sendo seguidos.

— Você está de brincadeira, né? — perguntou Charlie, indo para o carro e já tirando as chaves do bolso.

Parecia que algo trancafiado no fundo de sua memória fora revirado, embora não soubesse se aquilo era bom ou ruim.

— Foi divertido! — exclamou John, e Jessica riu.

— Foi apavorante! — gemeu ela.

— Podem ser as duas coisas — comentou Carlton, com um sorriso enorme.

Charlie começou a rir, e John se juntou a ela.

— O quê? — perguntou Jessica.

Charlie balançou a cabeça, ainda rindo.

— É só que... Nós continuamos os mesmos. Tipo, todos estão muito diferentes e tudo o mais, mas também continuam iguais. Você e o Carlton ainda se comportam da mesma forma que se comportavam quando tinham seis anos.

— Sei — retrucou Jessica, revirando os olhos, mas John assentiu.

— Eu entendi. E a Jessica também, ela só não quer admitir. — John olhou de volta para o shopping. — Vocês têm certeza de que o segurança não viu a gente?

— Agora vai ser fácil fugir — retrucou Carlton, apoiando a mão no carro.

— É — concordou John, embora não soasse convencido.

— Sabe, você também não mudou nadinha — disse Jessica, com certa satisfação. — Fica procurando problema onde não tem.

— Mas a gente devia dar logo o fora daqui — retrucou John, olhando para trás mais uma vez. — Não quero abusar da sorte.

— Então a gente se vê amanhã? — perguntou Jessica, quando se dividiram entre os dois carros.

Carlton acenou sem se virar.

Charlie sentiu um leve aperto no coração quando Jessica se instalou no banco do carona, colocando o cinto de segurança. Não estava ansiosa por aquele momento. Não que não gostasse da garota, mas ficar sozinha com ela era meio esquisito. Jessica havia se tornado quase uma estranha. Mas a euforia da aventura ainda não havia se dissipado, e os resquícios de adrenalina a deixavam mais confiante. Charlie sorriu para Jessica. Depois daquela noite, tinham algo importante em comum.

— Você sabe para que lado fica o hotel? — indagou, e Jessica assentiu, se abaixando para pegar a pequena bolsa a seus pés, com uma longa alça transversal.

Na viagem de ida até o shopping, Charlie já a vira tirar da bolsa um gloss labial, um espelhinho, balas de menta, um kit de costura e uma escova de cabelo. Dessa vez, ela pegou um caderno pequeno e uma caneta.

— Desculpa perguntar, mas quantas coisas cabem aí dentro?

Jessica se virou para ela com um sorriso largo e respondeu, brincando:

— Não posso revelar os segredos d’A Bolsa.

As duas riram.

Jessica foi lendo as instruções para chegar ao hotel, e Charlie obedecia, fazendo o caminho sem prestar muita atenção nos arredores.

• • •

Jessica já tinha feito o check-in, então as duas seguiram direto para o quarto, um cubículo bege com duas camas de viúva cobertas por colchas marrons acetinadas. Charlie deixou suas coisas na cama mais próxima da porta, e Jessica foi até a janela.

— Como você pode ver, decidi esbanjar e escolhi o quarto com a melhor vista — declarou, abrindo as cortinas em um gesto dramático, revelando duas caçambas de entulho e uma sebe ressecada. — Estou pensando em fazer meu casamento bem aqui.

— Sei — disse Charlie, rindo.

Era fácil esquecer como Jessica era inteligente, com a atitude sofisticada e o corpo de modelo. Lembrava de se sentir um pouco intimidada sempre que iam brincar juntas quando crianças, mas a sensação não resistia aos primeiros minutos, até se lembrar de como gostava da menina. Charlie se perguntou se Jessica tinha dificuldade para fazer amigos, por ser tão bonita, mas não era o tipo de coisa que se podia perguntar.

Jessica se jogou na cama, se deitando na diagonal para encarar Charlie.

— Então, me conta da sua vida — pediu, em tom de confidência, em uma imitação de apresentador de talk-show ou da mãe intrometida de alguém.

Charlie deu de ombros, constrangida por ficar sob os holofotes.

— Como assim?

Jessica riu.

— Sei lá! Que coisa horrível de se perguntar, né? Quer dizer, que tipo de resposta alguém daria a uma pergunta dessas? Hum, como é na sua escola? Algum gatinho?

Charlie também se deitou, imitando a posição de Jessica.

— Gatinho? Quantos anos a gente tem, doze?

— Mas tem algum? — insistiu Jessica, impaciente.

— Não sei. Acho que não. — Sua turma era muito pequena. Conhecia a maior parte dos colegas desde que fora morar com tia Jen, e a ideia de namorar qualquer um deles, de gostar deles “naquele sentido”, lhe parecia forçada e desagradável. E explicou aquilo, completando: — A maioria das meninas acaba saindo com garotos mais velhos.

— E você não tem nenhum garoto mais velho no radar? — provocou a amiga.

— Sei lá... — respondeu Charlie. — Acho que vou esperar o pessoal da nossa idade crescer.

— Sei! — Jessica explodiu em risadas antes de pensar em algo que pudesse compartilhar. — Ano passado conheci um cara chamado Donnie. Eu era doida por ele, doida mesmo, pra valer. Ele era um amor. Só usava roupa preta, tinha cabelos pretos enrolados e tão cheios que eu só conseguia pensar em enfiar a cara naqueles cabelos quando me sentava atrás dele, na aula. Eu ficava tão distraída que acabei tirando nove em trigonometria. Ele era todo artístico, um poeta mesmo, andava com um daqueles cadernos de couro preto pra cima e pra baixo, sempre rabiscando alguma coisa, mas nunca deixava ninguém ler. — Ela soltou um suspiro, uma expressão sonhadora. — Acabei pensando que, se conseguisse fazer o Donnie me mostrar os poemas que escrevia, eu teria um vislumbre da alma dele, sabe?

— E ele mostrou? — indagou Charlie.

— Ô, se mostrou — respondeu Jessica, balançando a cabeça enfaticamente. — Finalmente criei coragem de chamá-lo para sair, sabe como é, ele era muito tímido e tal, nunca ia tomar a iniciativa. A gente foi ao cinema, deu uns beijos e depois ficamos no telhado do prédio dele. Eu contei que queria estudar as civilizações antigas e participar de escavações arqueológicas e tudo o mais. Aí ele me mostrou os tais poemas.

— E você teve um vislumbre da alma dele? — perguntou Charlie, feliz por estar participando daquela conversa de garotas, algo inédito para ela.

Balançava a cabeça, ansiosa para saber o resto. Mas não pareça tão ansiosa, ralhou consigo mesma, se obrigando a se acalmar enquanto Jessica vinha mais para a beirada da cama, para cochichar.

— Os poemas eram um horror. Eu não sabia que dava para ser tão melodramático e tão chato ao mesmo tempo. Tipo, senti vergonha alheia só de ler aquilo.

Ela escondeu o rosto com as mãos.

Charlie riu.

— E o que você fez?

— O que eu podia fazer? Disse que a gente não ia dar certo e fui para casa.

— Espera, isso foi logo depois de ler os poemas?

— Eu ainda estava com o caderno na mão.

— Ah, Jessica, que coisa horrível! Você deve ter deixado o garoto arrasado!

— Eu sei! Me senti muito mal, mas as palavras simplesmente saíram da minha boca. Não consegui me controlar.

— E ele voltou a falar com você?

— Ah, sim, ele é bem bacana. Mas agora faz economia e usa aqueles coletes de tricô.

— Você acabou com ele!

Charlie atirou um travesseiro na amiga, que se sentou e o agarrou antes de ser atingida.

— Eu sei! Ele vai acabar virando um desses milionários corretores da bolsa em vez de um artista sem-teto. E é tudo culpa minha. — Ela abriu um sorriso enorme. — Ah, vai. Um dia ele vai me agradecer.

Charlie balançou a cabeça.

— Você quer mesmo ser arqueóloga?

— Quero.

— Hum. Nossa, eu achava... — Ela balançou a cabeça outra vez. — Nada, não. Que maneiro.

— Você achou que eu quisesse fazer alguma coisa que tivesse a ver com moda — concluiu Jessica.

— Bem, sim.

— Não tem problema. Eu também achava isso. Quer dizer, até penso em fazer, adoro moda, mas há tantas outras coisas, né? Acho incrível pensar em como as pessoas viviam há mil anos, ou quem sabe dois, até dez mil anos. Eram gente como a gente, mas ao mesmo tempo eram tão diferentes. Gosto de me imaginar vivendo em outras épocas, outros lugares, e fico me perguntando que tipo de pessoa eu teria sido. Bem... enfim, e você?

Charlie rolou na cama e ficou olhando para o teto. Era feito de placas soltas de isopor manchado, e a placa logo acima de sua cabeça estava um pouco torta. Espero que não tenha nenhum ninho de insetos lá em cima, pensou.

— Não sei — admitiu, hesitante. — Acho muito maneiro você já saber o que quer ser, mas nunca planejei nada do tipo.

— Bom, também não é como se você já precisasse ter tudo definido na cabeça — retrucou Jessica.

— É, pode ser. Mas, sei lá, você já sabe o que quer fazer da vida, o John já sabia que queria ser escritor desde a primeira vez que pegou num lápis, ele já até publicou uma história. Até o Carlton... Bem, não sei quais são os planos dele, mas dá para ver que ele tem alguma ideia atrás de toda aquela zoação. Mas eu não tenho a menor ideia do que quero fazer da vida.

— Não importa nem um pouco, sério. Acho que a maioria do pessoal da nossa idade também não sabe o que quer. Além disso, pode ser que eu mude de ideia, que não consiga passar para a faculdade, um monte de coisas. A gente nunca sabe o que vai acontecer. Escuta, vou trocar de roupa. Quero tentar dormir um pouco.

Ela entrou no banheiro, mas Charlie continuou onde estava, fitando aquele teto deprimente. Talvez a resistência ferrenha a pensar no passado e no futuro estivesse se tornando um defeito. Viva o presente, dizia tia Jen, e Charlie levara o conselho ao pé da letra. Não fique presa ao passado, não se preocupe com coisas que talvez nunca aconteçam. No oitavo ano, Charlie fizera um curso técnico, na vaga esperança de que o trabalho mecânico pudesse acender dentro dela uma fagulha do talento do pai, liberar alguma paixão latente que ela herdara, mas não. Ela construíra uma casa de passarinho meio torta para pendurar no quintal. Nunca mais tentara nenhum curso, e a casinha só atraíra um esquilo, que a derrubou assim que entrou nela.

Jessica saiu do banheiro usando um pijama rosa listrado, e Charlie também entrou para se arrumar para dormir, trocando de roupa e escovando os dentes às pressas. Quando voltou para o quarto, encontrou a amiga já debaixo das cobertas, com o abajur no seu criado-mudo apagado. Charlie também apagou o seu, mas a luz do estacionamento entrava pela janela, passando por entre as caçambas de lixo.

Charlie voltou a encarar o teto, apoiando a cabeça nas mãos.

— Você sabe como vai ser amanhã? — perguntou ela.

— Não — respondeu Jessica. — Só sei que vai ter uma cerimônia na escola.

— É, também fiquei sabendo disso. A gente vai ter que fazer alguma coisa? Tipo, vão querer que a gente fale?

— Acho que não. Por quê? Você queria dizer alguma coisa?

— Não, só pensei na possibilidade.

— Você pensa nele? — indagou Jessica.

— Às vezes. Mas tento não pensar.

Embora aquela fosse uma meia verdade. Tinha reprimido o assunto “Michael”, trancafiado a memória atrás de uma parede mental em que nunca tocava. Nem precisava fazer esforço. Na verdade, tinha que se esforçar para pensar nele.

— E você?

— Não muito. Estranho, né? Uma tragédia acontece, e na hora a coisa fica marcada em você, como se nunca fosse se apagar. Aí os anos passam, e, de repente, é só mais um acontecimento na sua vida. Não é que não seja importante ou que tenha deixado de ser horrível, mas ficou no passado, igual a todo o resto. Entende?

— Acho que sim — respondeu Charlie. Mas certamente entendia. — Tento não pensar em nada do que aconteceu.

— Eu também. Sabia que fui a um enterro semana passada?

— Meus pêsames — disse Charlie, se sentando. — Você está bem?

— Sim. Eu mal conhecia a pessoa, era só um parente que estava velho e morava longe. Acho que até nos encontramos uma vez, mas nem lembro direito. Fomos principalmente por causa da minha mãe. Mas foi numa daquelas funerárias antigas, que nem de filme, e o caixão estava aberto. E todo mundo foi até o defunto, e, quando chegou a minha vez de olhar para ele... Ele podia estar dormindo, sabe? Parecia calmo e relaxado, como sempre dizem que os mortos parecem. Não tinha nada nele que me fizesse pensar que estava morto, sabe? Tudo no rosto estava no lugar, igualzinho a como estaria se ele estivesse vivo. Mas não estava, e eu sabia. Daria para saber mesmo se ele não estivesse dentro de um caixão.

— Sei. As pessoas têm alguma coisa diferente quando estão... — murmurou Charlie.

— Parece meio idiota, falando desse jeito. Mas, quando olhei, ele parecia tão vivo. Só que, ainda assim, eu sabia, sabia que não estava. Fiquei toda arrepiada.

— É a pior parte, não é? — comentou Charlie. — As coisas que agem como se estivessem vivas, mas não estão.

— O quê? — indagou Jessica.

— Quer dizer, coisas que parecem vivas, mas não estão — acrescentou Charlie, mais do que depressa. — A gente devia dormir. Já programou o despertador?

— Já. Boa noite.

— Boa noite.

Charlie sabia que o sono demoraria a vir. Sabia bem o que Jessica quisera dizer, talvez até melhor do que a própria Jessica. Aquele brilho artificial em olhos que seguiam a pessoa, conforme ela se movia, como fariam os olhos de uma pessoa de carne e osso. Os movimentos meio rígidos de animais muito realísticos, mas que não se moviam como um ser vivo deveria se mover. Os pequenos erros de programação que volta e meia faziam parecer que um robô tivesse feito algo novo, criativo. Sua infância tinha sido cheia daquilo, Charlie crescera naquele estranho intervalo entre vida e não vida. Aquilo tinha sido seu mundo. O mundo de seu pai. Ela fechou os olhos. O que aquele mundo fizera a ele?





Pou. Pou. Pou.

Charlie acordou assustada, desorientada. Alguém batia na porta, tentando arrombá-la.

— Ah, pelo amor de Deus — resmungou Jessica, mal-humorada, e Charlie piscou e se sentou na cama.

Certo. O hotel. Hurricane. Alguém estava batendo à porta. Enquanto Jessica ia atender, Charlie se levantou e conferiu o relógio. Eram dez da manhã. Olhou pela janela para o novo dia. Seu sono tinha sido pior do que de costume, não por causa de pesadelos, mas sonhos sombrios que ela não foi capaz de lembrar com clareza, imagens que ficaram gravadas lá no fundo de sua mente, que ela não conseguia capturar.

— Charlieeeeeeee! — deram um grito estridente.

Quando abriu a porta, foi capturada em um abraço, os braços roliços de Marla a espremendo como um torno. Charlie retribuiu o abraço, que acabou saindo mais forte do que planejara. Marla se afastou, abrindo um sorriso. Os ânimos dela sempre foram tão intensos que contagiavam quem quer que cruzasse seu caminho. Quando estava melancólica, era como se uma mortalha caísse sobre os amigos e o sol se escondesse atrás de uma nuvem. Quando estava feliz, como naquele momento, era impossível evitar a explosão de alegria. Ficava constantemente sem fôlego, um pouco dispersa, sempre parecia estar atrasada, embora na verdade nunca estivesse. Marla usava uma blusa larga vermelho-escura que lhe caía bem, realçando a pele clara e os cabelos castanho-escuros.

Foi com ela que Charlie mais manteve contato. Era o tipo de pessoa que facilitava a comunicação, ainda que a distância. Mesmo quando criança, sempre enviava cartas e cartões-postais, e não desistia ainda que Charlie não respondesse algumas vezes. Marla era uma garota otimista e presumia que todos gostavam dela, a menos que deixassem claro que não, com algum comentário impróprio. Charlie admirava isso na amiga — embora não fosse tímida, ela se perguntava o tempo todo: Será que fulano gosta de mim? Ou está apenas sendo educado? Como as pessoas sabem a diferença? Marla fora visitá-la uma vez, quando tinham doze anos. Encantou tia Jen e fez amizade com seus colegas da escola em tempo recorde, mas sempre deixando bem claro que era amiga de Charlie e que estava ali por causa dela.

Enquanto Marla observava Charlie, como se tentasse identificar as diferenças entre a garota do presente e a versão da última vez em que se viram, seu sorriso ficou sério.

— Você está branquela como sempre. — Pegou as mãos de Charlie. — E está toda fria. Nunca fica quentinha, não?

Ela as soltou e seguiu avaliando o quarto de hotel com desconfiança, como se não estivesse muito certa do que se tratava.

— É a suíte de luxo — disse Jessica, o rosto impassível, enquanto procurava algo na bolsa.

A amiga estava descabelada, e Charlie escondeu um sorriso. Era bom ver algo em Jessica fora do lugar pelo menos uma vez na vida. A garota encontrou a escova e a ergueu, triunfante.

— Ha! Toma essa, frizz matinal!

— Entra — convidou Charlie, se dando conta de que Marla e ela continuavam plantadas no corredor.

Marla assentiu.

— Um segundinho só. JASON! — gritou para trás. Ninguém apareceu. — Jason!

Um menininho entrou, marchando. Era baixo e magro, mais moreno do que a meia-irmã. A camiseta do Batman e o short preto eram muito largos para o seu tamanho. Os cabelos eram cortados rente à cabeça, e ele estava todo sujo de terra.

— Você estava brincando na rua? — perguntou Marla.

— Não?

— Estava, sim. Não faz isso. Vai acabar morrendo, e a mamãe vai colocar a culpa em mim. Entra.

Marla empurrou o irmão mais novo para dentro do quarto e balançou a cabeça.

— Com quantos anos você está agora? — indagou Charlie.

— Onze — respondeu Jason.

O menino foi até a televisão e começou a mexer nos botões.

— Jason, para com isso — ordenou Marla. — Vai brincar com seus bonequinhos.

— Não sou mais criança — retrucou ele. — Além do mais, ficaram todos no carro. — Mas o menino se afastou do aparelho e foi olhar pela janela.

Marla esfregou os olhos.

— Nós acabamos de chegar. Tivemos que sair às seis da manhã, e alguém — disse ela, em um tom acusatório, lançando um olhar para o irmão por cima do ombro — não parava de mexer no rádio. Estou tão exausta.

Não aparentava, mas é que Marla nunca parecia cansada mesmo. Sempre que dormiam na casa de alguém, Charlie lembrava de vê-la pulando feito doida enquanto todos os outros se preparavam para ir para a cama. E então do nada a menina caía no sono, que nem um personagem de desenho animado que tinha sido golpeado na cabeça com um rolo de macarrão.

— A gente devia começar a se arrumar — disse Jessica. — Combinamos de nos encontrar com os meninos na lanchonete daqui a uma hora.

— Vamos logo! — exclamou Marla. — A gente também tem que trocar de roupa. Não queria ficar toda suja dirigindo.

— Jason, você pode ficar assistindo à TV — sugeriu Charlie, e o menino olhou para a irmã.

Marla assentiu, e ele sorriu e ligou o aparelho, começando a zapear pelos canais.

— Por favor, escolhe logo um canal — pediu Marla.

Charlie foi se arrumar no banheiro enquanto Jessica brigava com os cabelos.

• • •

Pouco menos de uma hora mais tarde, entraram no estacionamento da lanchonete e encontraram uma vaga. Os outros já haviam chegado e ocupado a mesma mesa do dia anterior. Ao entrar, Marla fez outro escândalo, com direito a gritinhos e abraços, só que dessa vez, em público, foi um pouco mais discreta. Ofuscado pelo entusiasmo da menina, Lamar se levantou e acenou para Jessica e Charlie, esperando que Marla se sentasse.

— E aí, gente — cumprimentou ele, enfim.

Usava uma gravata escura e um terno cinza-escuro. Era alto e magro, negro, os cabelos bem curtos; as feições eram angulosas e atraentes, e parecia um pouco mais velho do que o restante do grupo. Talvez fosse por causa do terno, mas Charlie achou que tinha mais a ver com a postura: Lamar agia como se ficasse à vontade onde quer que estivesse.

Todos tinham se arrumado mais para a cerimônia. Marla se trocara no hotel, e tanto ela quanto Jessica estavam de vestido. O de Jessica batia nos joelhos e tinha estampa florida em tom pastel, era feito de um tecido leve que se movia com fluidez quando ela andava. O de Marla era simples, branco, com grandes girassóis espalhados. Charlie nem sequer pensara em levar um vestido para a viagem e torceu para não estar parecendo deslocada em sua calça de alfaiataria preta e camisa social branca. A camisa que John escolhera para a ocasião era de um tom claro de roxo, e o rapaz acrescentou uma gravata roxa um pouco mais escura para compor o visual. Carlton parecia estar usando peças idênticas às do dia anterior, ainda todo de preto. Sentaram-se.

— Estamos tão chiques — comentou Marla, alegre.

— Cadê o Jason? — perguntou Jessica, virando a cabeça de um lado para outro.

Marla resmungou.

— Já volto.

Ela deslizou para fora do banco e saiu depressa pela frente da lanchonete.

— Lamar, como anda a vida? — perguntou Charlie.

Ele abriu um sorriso largo.

— Lamar vai para uma das faculdades mais prestigiadas do país — respondeu Carlton pelo amigo, em tom de provocação.

Lamar olhou para a mesa, mas estava sorrindo.

— Eles me aceitaram antecipadamente. — Foi tudo o que disse.

— Qual faculdade? — indagou Jessica.

— Cornell.

— Espera, como assim, você já foi aceito? — questionou Charlie. — Faculdade é um assunto só para o ano que vem. Ainda nem sei para quais vou tentar.

— Ele pulou o sexto ano — explicou John. Um brevíssimo lampejo de emoção cruzou o rosto dele, e Charlie sabia o que tinha sido. John gostava de ser o inteligente, o precoce. Quando criança, Lamar fora o palhaço do grupo, e então tinha dado um salto à frente de todos eles. John forçou um sorriso, e o momento passou. — Parabéns — acrescentou, sem nenhum indício de que não estava sendo inteiramente sincero.

Marla irrompeu lanchonete adentro, dessa vez puxando Jason pelo antebraço. Ela o obrigara a vestir um blazer e uma calça cáqui, embora o menino ainda estivesse com seu tênis Nike.

— Já estou indo. Para com isso — gemeu ele.

— Esse aí é o Jason? — perguntou Carlton.

— Sou eu — respondeu o menino.

— Você se lembra de mim?

— Não lembro de nenhum de vocês — retrucou Jason, sem um pingo de remorso.

— Fica sentado ali — ordenou Marla, apontando para a mesa ao lado.

— Está bem — resmungou ele.

— Marla, ele pode sentar com a gente — disse Jessica. — Ei, Jason, vem pra cá.

— Obrigado. Quero ficar aqui mesmo. — E se sentou atrás do grupo.

Tirou um videogame portátil do bolso e esqueceu o mundo à sua volta.

A garçonete foi até a mesa, e todos fizeram seus pedidos; Marla pediu que colocasse o café da manhã de Jason na conta deles.

— A gente não tem muito tempo — disse Charlie quando a comida chegou.

— Vai dar pra chegar na hora — garantiu Carlton. — Não fica longe daqui.

Um pedacinho de comida caiu do canto da sua boca enquanto ele gesticulava para a rua.

— Você já foi visitar a escola? — perguntou Lamar, e Carlton deu de ombros.

— Passo ali em frente de vez em quando. Sei que esta é uma viagem nostálgica para vocês, mas eu moro aqui. Não é como se ficasse passeando pelos lugares e relembrando a época do jardim de infância o tempo todo.

Fizeram silêncio por um momento, os bipes do jogo de Jason preenchendo o vazio