Main Yoga para nervosos

Yoga para nervosos

O professor Hermógenes é o precursor do yoga no Brasil e foi pioneiro ao apresentá-lo como uma possível terapia para distúrbios e disfunções mentais. Isso na década de 1960, quando a psicanálise era algo totalmente desconhecido no país e qualquer desvio de comportamento, muito malvisto. Foi assim que surgiu Yoga para nervosos, quando Hermógenes percebeu que essa prática com mais de 7 mil anos de existência poderia mudar a forma com que as pessoas pensavam e sentiam a sua existência na Terra. Agora, com a sua eficácia mais que comprovada, o livro chega a sua 48ª edição, como parte da coleção Essenciais BestSeller, pronto para mudar a vida de quem ainda não conhece essa obra.
Categories:
Year:
2013
Edition:
48ª
Publisher:
Best Seller
Language:
portuguese
Pages:
679
ISBN 13:
9788576847519
File:
EPUB, 2.83 MB
Download (epub, 2.83 MB)

You may be interested in Powered by Rec2Me

 

Most frequently terms

 
 
You can write a book review and share your experiences. Other readers will always be interested in your opinion of the books you've read. Whether you've loved the book or not, if you give your honest and detailed thoughts then people will find new books that are right for them.
1

Fundamentals of Game Design, Third Edition

Year:
2014
Language:
english
File:
EPUB, 18.02 MB
2

Chancing It

Year:
2017
Language:
english
File:
MOBI , 2.43 MB
Coleção Essenciais BestSeller

O poder do subconsciente, de Joseph Murphy

O sermão da montanha, de Emmet Fox

A erva do diabo, de Carlos Castañeda

Seus pontos fracos, de Wayne Dyer

Codependência nunca mais, de Melody Beattie

Yoga para nervosos, de Hermógenes

A cura quântica, de Deepak Chopra

A quinta disciplina, de Peter Senge

Vivendo, amando e aprendendo, de Leo Buscaglia

Quem ama, não adoece, de Dr. Marcos Aurélio Dias da Silva

A fonte da juventude – vol. 1, de Peter Kelder

A fonte da juventude – vol. 2, de Peter Kelder





Hermógenes



Revisão técnica e apresentação

LUÍS MÁRIO DUARTE

Neuropsiquiatra

48ª edição

Edição revista e atualizada



Rio de Janeiro | 2013





CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

Hermógenes, 1921 -

H475y

Yoga para nervosos [recurso eletrônico] / José Hermógenes; revisão técnica e apresentação Luís Mário Duarte. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

recurso digital




Formato: ePub

Requisitos no sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 978-85-7684-751-9 (recurso eletrônico)




1. Hatha ioga - Uso terapêutico 2. Livros eletrônicos. I. Título.




13-00185




CDD: 613.7046

CDU: 613.72





Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.





Título:

YOGA PARA NERVOSOS

Copyright © José Hermógenes de Andrade Filho





Capa: Bruna Mello

Editoração eletrônica da versão impressa: Valéria Ashkar Ferreira





Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, sem autorização prévia por escrito da editora, sejam quais forem os meios empregados.





Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil

adquiridos pela

EDITORA BEST SELLER LTDA.

Rua Argentina, 171, parte, São Cristóvão

Rio de Janeiro, RJ - 20921-380

que se reserva a propriedade literária desta tradução

Produzido no Brasil





ISBN 978-85-7684-682-6





Seja um leitor preferencial Record.

Cadastre-se e receba informações sobre nossos lançamentos e no; ssas promoções.





Atendimento e venda direta ao leitor:

mdireto@record.com.br ou (21) 2585-2002.





JOSÉ HERMÓGENES DE ANDRADE FILHO, conhecido como Professor Hermógenes, foi o pioneiro em Medicina Holística no Brasil. Nascido em 1921, dedica-se ao crescimento espiritual dos seres humanos, dividindo seu tempo no trabalho na Academia Hermógenes, na publicação de livros terapêuticos e de poesia, na produção de artigos para a imprensa, na ministração de cursos, seminários e teses para congressos científicos. Foi criador do Treinamento Antidistresse, do método Yoga para Nervosos, colaborador (com yogaterapia) da 32ª Enfermaria da Santa Casa (RJ), professor de filosofia, além de ainda exercer as atividades de conferencista, poeta e ensaísta.

Entre as premiações e os títulos a ele concedidos pelo belo trabalho em prol da evolução da humanidade, destacamos alguns:

• Medalha de Integração Nacional de Ciências da Saúde.

• Doutor em Yogaterapia, concedido pelo World Development Parliament (Índia).

• Diploma D’Onore no IX Congresso Internacional de Parapsicologia, Psicotrônica e Psiquiatria (Milão, 1977).

• Medalha Pedro Ernesto (Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro).

• Cidadão da Paz, do Rio de Janeiro (1988).

• Medalha Tiradentes (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, 2000), pela contribuição na área de saúde.

• Título Doutor Honoris Causa concedido pela Open International University for Complementary Medicine, do Sri Lanka (Colégio Brasileiro de Cirurgiões, RJ, 2000), pela vida dedicada à saúde de seus semelhantes e pelo conjunto de sua obra literária.



Para contatos com o autor:

Academia Hermógenes

Rio de Janeiro, RJ

Tel.: (21) 2224-9189

e-mail: achyoga@unisys.com.br

Home page: www.profhermogenes.com.br





Ao médico, cuja missão

é salvar do inferno psicossomático

multidões que sofrem,

minha homenagem.





Sumário

Apresentação da edição revista

Parte 1

A MEDICINA RECEITA YOGA PARA NERVOSOS

• Uma tese vitoriosa

• Introdução

Parte 2

PARA INÍCIO DE CONVERSA

• Esperança para os nervosos

• A “coisa”

• Estratégia

• Será você uma pessoa tensa?

• Os milagres do relaxamento

• Relaxe e viva melhor

Parte 3

A CURA: UM ANSEIO AO SEU ALCANCE

• O que é curar-se

• Cuidado com as melhoras iniciais!

• O andamento da libertação

• Os tipos de nervosos

Parte 4

AS VÁRIAS FRENTES

• Yogaterapia: treinamento holístico

• Frente filosófica

• Frente psíquica

• Frente fisioterapêutica

• Frente moral

• Frente dietética

Parte 5

SÁDHANA

• Sádhana

• Svadhyaya

• Viveka

• Vichara

• Sakshi

• Identificação

• Somos deuses

• Ateus e materialistas

• Shraddha (fé)

• Resguarde sua mente

• Samkalpayama

• Seva

• Karma yoga

• Ocupe sua vida

• Não se ocupe tanto

• Saiba ocupar-se

• Asanga

• Se você sofre, meus parabéns

• O mendigo e o abastado

• Contentamento (santosha)

• Sama bhava

• Ahimsa

• Não capitule

• Aparigraha

• Bhakti

• Satsanga

• Vitória pela inteligência

• Sexo e vida

• Ishvarapranidhana

• Descondicione-se

• Ksham

Parte 6

HIGIENE ESTÉTICA

• Sensualidade

• Arte dramática

• Esportes

• A dança

• A música

• Cromoterapia

• Risoterapia

Parte 7

ALIMENTAÇÃO SADIA

• Nutrição sadia, saúde para os nervos

• O que devemos comer

• O que não devemos comer

• O remédio nas plantas

• Outros aspectos importantes da alimentação

Parte 8

TÉCNICAS

• Instruções gerais

• Relaxamento

• Relaxamento em pé

• Relaxamento com irrigação cerebral

• Dança do elefantinho

• Sukhásana (postura fácil)

• Yoga-Mudrá (símbolo do yoga)

• Ardha-Matsyásana (meia pose do peixe)

• Chandrásana (pose da lua)

• Pashimotanásana (pose da pinça)

• Bhujangásana (pose da cobra)

• Supta-Ardha-Gorakshásana (abertura da pélvis e alongamento da coluna)

• “Torção da chama”

• Purnásana

• Thalásana (pose da palmeira)

• Prarthanásana

• Ardha-Vrikhásana

• Viparitâ-Karani (pose da foice)

• Aswini-Mudrá

• Balanço

• Folha dobrada

• Dolásana

• Arohanásana

• Nitambhásana

• Massagens no pescoço

• Sopro ha

• Pranayama sedante 1:1

• Respiração para carregar os nervos de energia

• Respiração polarizada

• Ujjayi

• Bhastrika (o fole)

• Respiração sedante diafragmática

• Conscientização respiratória

• Carregamento enérgico do plexo solar

• Nispanda bhava

• Fechar os olhos

• Tratak

• Purgação mental

• Japa

• Banho diário como remédio

• Banho tônico

• Hidroterapia sedante

Parte 9

VAMOS À PRÁTICA!

• Sugestões sobre as séries

• Série A – Psicoterapêutica

• Série B – Fisioterapêutica vitalizante (para deprimidos)

• Série C – Fisioterapêutica sedante (para excitados)

• Série D – Fisioterapêutica relaxante (para tensos)

Glossário

Bibliografia





Apresentação da edição revista

APRESENTAR REVISÃO DESTE LIVRO é uma honra e um privilégio e uma oportunidade de homenagear seu autor. Professor Hermógenes não é apenas o pioneiro do Yoga em nosso país, que nos tornou palatável o entendimento filosófico e prático da sabedoria multimilenar do povo do Vale do Hindus. Professor Hermógenes atingiu as metas propostas pelo Yoga. Quem priva de sua intimidade sabe de sua sabedoria e simplicidade, de seu bom humor imutável, de sua serenidade e bondade, conhece-lhe a espiritualidade. Basta observar sua saúde e resistência física, suas emoções sempre em equilíbrio, sua mente rápida e os sentidos treinados para nos certificarmos de suas conquistas. Não é um homem mítico, é um homem que atingiu a plenitude daquilo que denominamos humanidade. Sua vitória pessoal anuncia-nos a possibilidade de também, seguindo-lhe os passos, alcançar o mesmo estado de felicidade, já que o autor é a prova viva do poder desta disciplina extraordinária que chamamos Yoga.

Yoga para nervosos foi escrito em meados da década de 1960. Até aquele tempo pouco auxílio legítimo a Psiquiatria oferecia aos que padeciam dos males mentais. Muitas teorias sobre a psicodinâmica mental e pouca ajuda ao sofrimento mental. Quase nenhuma pesquisa ou compreensão biológica sobre o comportamento psíquico. Os tratamentos eram pouco eficazes, poucos os recursos. As doenças eram mal compreendidas e os doentes estigmatizados e considerados “culpados” ou responsáveis por seus males.

Neste cenário de sofrimento uma luz surge. O autor percebe que o Yoga possuía uma compreensão profunda sobre a mente humana, uma psicologia perfeita e testada com sucesso ao longo de setenta séculos, isso mesmo, sete mil anos de validação dentro dos cânones severos de testagem e comprovação das teorias mais modernas. Não houvera jamais um yogue infeliz.

Um lance genial essa percepção, pois salvou muitas vidas dos horrores das depressões em seus múltiplos aspectos, das inquietações infinitas dos vários tipos de ansiedades, dos transtornos da personalidade, dos temperamentos explosivos, dos impulsos incontroláveis nas áreas do sexo e da alimentação, das renitentes doenças somatoformes hoje conhecidas como somatização, distúrbios conversivos, dores crônicas, hipocondria, os transtornos dismórficos corporais. Resgatou inúmeras pessoas das massacrantes insônias, das tentativas de suicídio nascidas dos abusos e dependências de substâncias e, enfim, das tragédias do autoextermínio de muitos seres humanos ao longo desses quarenta anos que nos separam da publicação original. Temos todos uma grande dívida para com o autor. Muitos psiquiatras que conhecem a obra a tem prescrito em seus receituários. Professor Hermógenes mostrará a verdade desses fatos ao longo das primeiras partes, revelando ao leitor interessado sua extensa casuística. As partes 5, 6, 7 e 8 versarão sobre os fundamentos da prática. A nona parte do livro tratará da prática.

Poderemos todos nos perguntar como o Yoga pode oferecer tamanho recurso terapêutico? As pesquisas atuais em Neurociência como a Neurobiologia Molecular, a Neurofarmacologia, a Neuroimagem, as Bases Genéticas do Comportamento, a Psicologia Evolucionista e a Psiconeuroendocrinologia indicam possibilidades explicativas atraentes.

Nos anos 60 não tínhamos ideia de como o Yoga funcionava ou poderia funcionar. Constatávamos apenas seus resultados consistentes. Nos anos 90 caiu por terra em definitivo a visão dualista e cartesiana em que mente e corpo são entidades separadas e autônomas. As pesquisas de ponta em Neurociência mostram que nosso corpo e mente são um só. Essa verdade é antiga entre os yogues e sobre ela construíram sua prática transformadora. Quando o praticante de yoga assume uma posição corporal ou ásana ou pratica os pranayamas, bandhas, mudrás ou kriyás, todas as estruturas de sua consciência imediatamente respondem. A comunicação entre os neurônios e o jogo dos neurotransmissores são modificados, as redes neurais enfermas recebem informações para que se desfaçam. Novas redes se constroem de forma saudável. O cérebro encontra novos caminhos para pensar, agir e sentir. Poderíamos postular que os neurotransmissores são entidades representativas no tempo e no espaço dos eventos psíquicos e vice-versa, ou seja, não é o pensamento que gera um neurotransmissor nem um neurotransmissor que gera o pensamento, mas um e outro são a mesma coisa em planos de realidades diferentes e acontecem concomitantemente. Mente e corpo são um só. Por isso o Yoga é eficiente e se traduz em resultados terapêuticos para os enfermos e em manutenção da saúde para os hígidos. O Yoga utiliza o corpo-mente como instrumento de autoconhecimento. Com o Yoga nos desvelamos, descondicionamo-nos, descobrimos que somos e sempre fomos e sempre seremos Verdade, Consciência e Felicidade, isto é, Sat, Chit, Ananda. Se o Yoga é uma ferramenta para este trabalho, a saúde e o bem-estar físico e mental serão uma consequência natural de sua aplicação.

A Psiquiatria avançou, e os modelos biológicos de explicação do funcionamento da mente e do comportamento das doenças atestam a validade do Yoga. Confirmam a tese do Professor Hermógenes e a robustez e atualidade de seu texto no soberbo Yoga para nervosos e nos autoriza a recomendar sua leitura e sobretudo sua prática com o fim de vivermos uma vida mais tranquila e feliz, que no caleidoscópio de nossa civilização hedonista e consumista atual parece uma tarefa cada vez mais distante e impossível.

Aproveitem a companhia do Professor Hermógenes, sua alma e seu amor estão neste texto. Ele o escreveu para que vocês sejam felizes e livres.

Paz e Luz!

Rio de Janeiro, 27 de janeiro de 2003

Luís Mário Duarte

Médico Psiquiatra e Neurologista





Parte 1

A MEDICINA RECEITA YOGA PARA NERVOSOS





Uma tese vitoriosa

Já deixou de ser hipótese

Ao lançar a primeira edição deste livro houve quem me alertasse sobre uma possível rejeição pela classe médica, que se oporia a um leigo propondo soluções, sugerindo terapias. Eu sabia que não. Sabia que os médicos, com espírito humanitário e desassombro científico, não deixariam de usar um treinamento eficaz pelo simples fato de ser sugerido por alguém não médico.

Não me enganei.

Eis o livro vitorioso. Eis vitoriosos o método e os princípios que divulga. Quando o lancei sabia que já não era apenas uma hipótese, mas sim uma tese. Embora sem uma infraestrutura que me possibilitasse quantificar minhas observações, mas diante de tantos depoimentos veementes, ao longo de tantos anos de trabalho, na “Academia”, após respigar vasta bibliografia (citada), estimulado por amigos médicos (alguns deles psiquiatras alunos meus, portanto autoexperientes), não tinha eu qualquer dúvida sobre a tese.

Lançado o livro, portanto lido pelos médicos, confirmou-se a hipótese de sua aceitação e, indo mais longe, de sua ampla utilização. Passou a figurar nos receituários.

Um mês depois de lançado, numa reunião no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, fui submetido a uma sabatina feita por médicos e especialmente por psiquiatras. Apresentando-me, disse o Dr. Fernando Feitosa Luz: “Ele pôde ter essa experiência in anima nobile, que não temos (médicos) podido fazer... Hermógenes pôde observar milhares de pacientes (dentro de nossa nomenclatura)... Deus proporcionou a ele condições que permitiram o estudo das técnicas psicossomáticas... Eu penso que o grande mérito de seu livro é a experiência, a documentação para a classe médica.” Depois de respondidas muitas e interessantes perguntas, durante quase duas horas, a sessão foi encerrada com a palavra do Dr. Queiroz Muniz, catedrático na Faculdade de Medicina, da Universidade Federal da Bahia, que a presidiu: “... isto é ciência, ciência na boa expressão da palavra...”

Livro é remédio

Não fui exagerado ao dizer que este livro começou a aparecer nos receituários médicos, substituindo os psicofármacos. Um dos mais conhecidos psiquiatras brasileiros, disse-me, numa entrevista que me permitiu gravar e publicar: “Fui levado a indicar yoga a meus clientes depois que alguns deles, que vinham apresentando problemas diversos, tendo comprado seu livro e praticado yoga de acordo com ele, conseguiram resultados que até então não haviam alcançado. A partir desses primeiros casos, fui podendo verificar que o yoga, praticado segundo indicações de seu livro, era suficiente, em verdade, para resolver problemas psicossomáticos.”

Quem, no mundo da psiquiatria, não conhece a admirada figura do Dr. Galdino Loreto, de Recife? Foi ele quem disse isso.

Vejamos, através de um diálogo gravado, um dos casos que foram encaminhados a mim pelo ilustre psiquiatra.

Y. Eu o procurei atendendo exclusivamente ao apelo de meu médico, de Recife, não que eu tivesse nenhuma confiança nos efeitos do yoga...

H. Por quanto tempo andou doente? Quais seus sintomas? Quais seus sofrimentos?

Y. Desde os seis anos de idade, quando comecei a estudar, comecei a me sentir nervosa. Tinha muita enxaqueca, mas o pessoal lá de casa pensava que era preguiça de ir para o colégio. Aos treze anos foi se acentuando mais. Eu me sentia tonta e vomitava muito, tendo diarreia e dores no estômago. Então fui operada de apendicite. Mas as crises continuaram. Aos dezessete anos e depois que me casei piorei muito dos nervos. Procurei então o Dr. Machado, que me tratou muitos anos. Melhorei. Mas depois da morte dele me senti completamente desorientada. Procurei então o Dr. P. C., que me aconselhou o Dr. Galdino Loreto (de Recife) – um médico ótimo, muito simples, muito humano. E com esse médico me tratei três anos e consegui aumentar 22 quilos, mas não consegui me livrar das drogas. Nessa última consulta que fiz em janeiro, ele me aconselhou yoga, dizendo que eu procurasse os livros do senhor... Quanto à pele manchada, procurei o Dr. Arnaldo Nolasco e ele explicou que era fator emocional, mas que ia passar uma fórmula para ver se eu melhorava. E disse que se eu não melhorasse, procurasse o yoga. Foi por isso que procurei o senhor e hoje me sinto muito bem. Já me livrei das drogas, graças a Deus e a seus ensinamentos...

H. Como era a crise?

Y. Tinha hipertensão. Pensava que ia morrer...

H. Quantas aulas a senhora teve? A partir de que aula sentiu os efeitos?

Y. Senti os efeitos desde a primeira aula. Dormi muito bem. Eu só dormia com tranquilizantes. Tomava seis por dia. Para dormir, tomava dois.

H. Há quantos anos a senhora não conseguia sair de casa?

Y. Há oito anos ou mais. Eu não conseguia sair só. Além de sair com uma pessoa, precisava me preparar com comprimidos, com drogas. Agora, já tenho conseguido sair sozinha. Tenho ido às compras sem tomar nenhum comprimido.

H. A senhora disse que não falava ao telefone. Por quê?

Y. Eu gaguejava muito... Me sentia encabulada. Não tinha facilidade para me dirigir a ninguém. E ontem já consegui ir me matricular num curso de inglês e não senti nenhum embaraço nisso...

Essa senhora procurou-me num estado de evidente ansiedade e vítima de fobias múltiplas. Foi depois da nona aula que gravou esse depoimento. Seus sintomas e manias, em três semanas, desapareceram... E não precisou mais de comprimidos. Suas angústias tinham um apelido – “a coisa”. Na parte 2 deste livro veremos do que se trata.

Yoga e Psicofármacos

O caso seguinte mostra como o Dr. Severino Lopes, catedrático da cadeira de psicologia médica da Faculdade de Medicina, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, autor de respeitáveis contribuições científicas publicadas, conduziu o tratamento de O.Q.M., substituindo as drogas lesivas pelos recursos naturais do yoga. Eis o dramático depoimento de O.Q.M.

O. Eu estava no estabelecimento onde trabalho (indústria), do qual sou gerente e, em dado momento, me senti mal. Pensei que era coração. Um empregado me levou com urgência para o pronto-socorro. Ao chegar, fiquei num balão de oxigênio, das três horas até as sete horas da noite. Depois o médico me examinou e disse que eu não tinha nada no coração, e sim que estava com distúrbio neurovegetativo e que procurasse um psiquiatra. Então fui a um médico, aqui em Natal, muito famoso, muito falado. Esse doutor me passou um psicotrópico. Comprei o medicamento e comecei a tomar. Quando passava o efeito da droga, eu estava pior do que antes. Ficava quase louco. Então resolvi trocar de médico. Fui ao Dr. Severino Lopes. Ele ouviu minha conversa e perguntou que medicamento eu estava tomando. Eu dei pra ele o nome, e ele mandou suspender o medicamento, e passou dois livros: Yoga para nervosos e Ajuda-te pela psiquiatria. Levei para casa, li e comecei a praticar os exercícios. Então abandonei completamente as drogas e hoje me sinto um homem sadio. Voltei à minha atividade, da qual estava praticamente um mês afastado. E já estou saindo só, que só saía acompanhado, com medo de morrer no meio da rua... Também é a “coisa”.

H. Você fez o tratamento pelos dois livros juntos?

O. Não. Eu fiz pelo Yoga para nervosos.

Por prudência e óbvias razões de ética deixo de transcrever as dramáticas crises e sequelas dos efeitos colaterais dos medicamentos, bem como as recriminações amargas feitas pelo entrevistado.

Yoga a serviço da psiquiatria

Com este título, o jornal O Globo em sua edição de 24/6/1971, publicou a seguinte notícia internacional:

Paris – Os exercícios de yoga podem dar bons resultados no tratamento psiquiátrico. O Dr. Bernard Auriol, psiquiatra de Montauban, que é adepto dessa modalidade de exercícios físicos com reflexos psíquicos, teve a ideia de aplicar o yoga a seus doentes. Depois de um ano de experiências, o médico francês declarou ter obtido resultados bastante satisfatórios com um novo método de tratamento a que chamou de “yogaterapia”. De fato, o yoga revelou-se extremamente eficaz no tratamento de distúrbios do caráter e da personalidade, de epilepsia, ansiedade, obsessões e dúvidas obsessivas com enfraquecimento da personalidade (psicastenias). Já se anuncia um método de yoga “adaptado”, para tratamento de esquizofrenias, que são distúrbios psíquicos em que o doente se alheia completamente do mundo real, para viver num mundo que é só dele. Nesses casos, o yoga ajudaria a restabelecer a comunicação entre o doente e as pessoas que o rodeiam.

Como se vê, embora supondo ser um “achado” seu, o Dr. Bernard Auriol, na França, vem corroborar a yogaterapia para nervosos divulgada por este livro desde janeiro de 1969, comprovada e oficializada em congresso médico. Procurando defender o pioneirismo do método no Brasil, o psiquiatra Dr. Alberto Lohmann escreveu ao jornal uma carta onde diz:

A yogaterapia aplicada aos distúrbios nervosos tem resultados positivos e já comprovados. Devemos citar o ótimo livro Yoga para nervosos, do Professor Hermógenes, no qual aquele amigo e mestre apontou técnicas suscetíveis de corrigir várias situações doentias, destacando-se a sua valiosa introdução de séries de exercícios com efeitos comprovados e úteis nos casos típicos de enfermos deprimidos, excitados e tensos (O Globo, 3/7/1971).

A tese da yogaterapia para nervosos foi por mim apresentada no IX Congresso Nacional de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental (Rio de Janeiro, de 6 a 11 de julho de 1969). Eis seu resumo:

Trazemos à consideração deste Congresso inferências de nossa experiência com yoga, coadjuvando os senhores médicos no tratamento de neuróticos. O método é multifrontal. As frentes psicotrópica, filosófica, psicoterápica, ética, estética e cinesioterápica agem unificada e sinergicamente. O efeito psicotrópico é obtido através de técnicas psicossomáticas, portanto atóxicas, e sem criar dependência. A autossuficiência, autoconfiança e mais a desintoxicação são objetivos a alcançar. Sem riscos iatrogênicos, podem ser adequadas a idosos e enfermos. Estão ainda mal esclarecidos os mecanismos de ação. A título de hipótese, ousamos inventariar alguns fatores explicativos: vascularização cerebral abundante, oxigenação intensificada, harmonização do ritmo respiratório e amplificação da função, ação mecânica sobre órgãos de regulação neuro-hormonal, afetando beneficamente a homoestase psicofísica, relaxamento neuromuscular, quietação e concentração mentais (sem tensão). Ousamos também uma classificação das técnicas, se bem que imprecisa ainda, segundo os efeitos: psicolépticas, psicoanalépticas e vitalizantes (euforizantes). Técnicas da Raja Yoga interferem com a percepção, ganhando, portanto, a qualidade de psicodislépticos. Não com as características perturbadoras dos alucinógenos comuns, mas mediante a conquista de um estado de máxima quietude mental, portanto fora do alcance de neuróticos e mesmo de pessoas comuns. O terreno é novo e fértil. Há muito a pesquisar (publicado em “Resumo dos trabalhos, temas oficiais e temas livres”).

Meu trabalho, sem ter recebido qualquer contestação, mereceu uma expressão de aplauso em plenário pelo Dr. Galdino Loreto (como relator). Para ele, a yogaterapia pode ser o instrumento de defesa de que dispomos contra o que chamou “pandemia de dependência”, isto é, a universal escravidão às drogas.

Pronunciamentos de autoridades médicas

Transcrevo a seguir opiniões muito honrosas que eminentes médicos espontaneamente fizeram acerca do método deste livro e de quem o divulga. A estas personalidades que dignificam a ciência e o ser humano, meu agradecimento.

Dr. Severino Lopes – que conduziu o caso citado anteriormente, a quem fui visitar em sua casa de campo, levado por seu cliente O.Q.M., àquela altura, livre das fobias, dirigindo seu carro. Além de ratificar tudo, acrescentou:

Yoga já é uma coisa antiga; bem conhecida. Tem bases fisiológicas e psicológicas bem profundas. Acho que é de bom alvitre e de interesse que a universidade não esqueça isso...

Dr. Pacheco e Silva – professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, autor de admiráveis obras de sua especialidade, entre as quais ressalta Medicina psicossomática, muito citada por mim – sobre Yoga para nervosos escreveu-me:

Felicito-o por mais essa publicação de indiscutível merecimento e de grande oportunidade, tantos são os que, na época atual, necessitam de conselhos e orientação para a cura dos males do sistema nervoso.

Dr. Jorge Andréa – psiquiatra de reconhecida proficiência e autor de várias obras sobre psiquiatria e parapsicologia:

No mundo hodierno, onde a veste da angústia e ansiedade é tão comum, o Professor Hermógenes, que há várias décadas se dedica à prática do yoga, nos traz as conclusões de suas experiências e verificações, entregando e mostrando como os mais argutos podem, com eficiência, aplicar o método da psicoterapia e praxiterapia... O livro constitui, também, uma necessária mensagem para o homem aflito de nosso século.

Dr. Darcy de Mendonça Uchôa – conhecido mestre, catedrático de medicina psiquiátrica da Universidade de São Paulo, sobre o livro diz:

Apreciei-o muitíssimo e dele colhi ótimos ensinamentos de ordem prática e espiritual.

Dr. Arazi Cohen – psiquiatra do Hospital Pinel, INSS, Casa de Saúde Dr. Eiras, secretário-geral da Sociedade Analítica Brasileira e presidente da Sociedade Brasileira de Psicodrama:

Tenho a convicção de que meu depoimento representa mais uma contribuição à moderna psiquiatria do que propriamente impressão sobre o autor de Yoga para nervosos.

Criador, no Brasil – nossa querida pátria –, da verdadeira, original e autêntica Escola de Yoga, o Professor Hermógenes... despertou-me o desejo de estudar e praticar yoga, com o que lucrei consideravelmente em todos os setores de minhas atividades. Sou um dos primeiros a empregar os maravilhosos ensinamentos do Professor Hermógenes, espalhados em suas publicações, principalmente Yoga para nervosos, na minha clínica de psiquiatria dinâmica, quer como auxiliares nos tratamentos, quer como arma moderna na psico-higiene e até na psicoterapia.

Recomendo aos meus distintos colegas o emprego desse método para uso individual e na clínica, após a leitura do tratado do diretor da modelar Academia Hermógenes.

Considero, sem favor, a obra do Professor Hermógenes útil e mesmo indispensável aos médicos em geral e aos psiquiatras, psicoterapeutas e psicólogos em particular.

Dr. Alberto Lohmann – psiquiatra de longa experiência e autor de muitas obras sobre sua especialidade e higiene mental:

Dos diversos assuntos (do livro), torna-se necessário salientar as séries de exercícios com efeitos terapêuticos manifestos, donde a substituição vantajosa dos sedativos, dos excitantes, dos psicotrópicos, pelas posturas adequadas, pelo relaxamento, procurando-se diminuir, e com certeza, abolir, no futuro, o consumo de tantos remédios, livrando-se os pacientes da terrível e conhecida dependência, além do aspecto profilático. A prática do yoga significa, sem dúvida, uma valiosa medida de higiene mental, uma correta e auspiciosa maneira de viver: com mais saúde, harmonia, serenidade, com mais altruísmo, simplicidade, com mais amor e fraternidade...

O Professor Hermógenes merece ser considerado pioneiro nesta campanha de ensinar aos nervosos novos métodos de cura ou de melhoras, sobretudo dispensando os medicamentos...

Dr. Humberto Leite de Araújo – clínico devotado à pesquisa, em sua carta assim diz:

Continue, Hermógenes, a ajudar a medicina moderna apontando mais uma clareira na sua eterna busca de aliviar a dor.

Dr. Paulo Hugo Craveiro – que experimentou em si, quando enfermo, a eficiência do método.

É lamentável que os ensinamentos contidos no seu maravilhoso livro não tenham uma divulgação larga. A própria medicina, no seu movimento progressista, muito lucraria se esses ensinamentos, compilados, regulamentados e disciplinados, fizessem parte de um apêndice da terapêutica médica, como valiosíssimo subsídio para a cura e melhoria das doenças de caráter nervoso, poupando-se aos pacientes o uso imoderado de psicotrópicos...

Dr. David Sussmann – médico argentino, em carta me disse:

Creio que no solo sera um éxito de librería, sino um éxito terapéutico lo que ya es mucho decir.

Pulso (30 de abril de 1970) – revista de circulação exclusiva no meio médico – publicou:

Exercícios de yoga, de respiração, relaxamento, alimentação, esportes e higiene mental são muito úteis quando tomamos por seu prisma exato... Livro como este é para ser lido e meditado, pois tem aspectos interessantes. Aplicados, trarão surpresas agradáveis... Aliás, como auxiliar de medicina, a yoga vem sendo recomendada por médicos em todo o país. Sobre essas vantagens Pulso entrevistou o Professor Hermógenes e fez reportagem com fotos na edição 213.

Dr. Orlando F. da Costa – professor adjunto da Faculdade Nacional de Medicina e chefe de clínica da 17ª enfermaria da Santa Casa de Misericórdia, afirma que:

Yoga para nervosos engloba ensinamentos indispensáveis e de leitura obrigatória a todos que vivem e sofrem as consequências estressantes dos tempos modernos. Como médico, apresso-me em afirmar que o yoga, reunindo a sabedoria milenar da meditação e das atitudes físicas, fisiológicas e psíquicas, traz à medicina atual recurso valioso para a cura de numerosas enfermidades psíquicas e arma terapêutica preciosa para o encaminhamento de solução de vários outros problemas clínicos.

Yogaterapia é, pois, uma realidade a estar presente ao raciocínio de todo médico no momento em que a prescrição estiver sendo adotada.

Aqui está o vasto capítulo das neuroses, a grande legião dos sofredores crônicos, de melhorados efêmeros, de consumidores de pílulas, enfim o chamado homem moderno... Nessa parte é que o êxito dos esforços médicos só é conseguido com a valiosa colaboração do yoga...

Conclusão

Agradeço à classe médica brasileira, representada por todos estes nomes respeitáveis que autorizaram a publicação dos depoimentos aqui transcritos.





Introdução

Dia virá em que o fisiólogo, o filósofo e o poeta falarão a mesma língua e se entenderão entre si; nesse dia uma medicina dinâmica surgirá.

Claude Bernard

EM AGOSTO DE 1968, a revista brasileira Realidade publica:

Nos consultórios médicos das grandes cidades do mundo, dezenas de vezes por dia, milhares de pessoas vão pedir socorro. Elas sofrem de angústia, a doença de nosso século, que se espalha cada vez mais. Os próprios médicos, quando ouvem as aflitas confissões de seus pacientes, sentem-se também um pouco angustiados. Sabem que, depois do tratamento, muitos voltarão ao consultório, mais confusos e abatidos que antes, atingidos pelo outro lado da doença: ficaram viciados nos remédios. Depois da angústia, os psicotrópicos. São as armas mais poderosas que a medicina encontrou para resolver os conflitos psicológicos, morais e sociais do mundo moderno. Mas também podem destruir o homem.

Dramático dilema! A angústia, um inferno; ou as drogas, escravidão arrasadora! O sofrimento ou o vício!

“Nos Estados Unidos”, declarou J. D. Griffith, psiquiatra da Vanderbilt University, “de duas receitas uma contém prescrição de psicotrópicos. Em 1965, as receitas de anfetaminas chegaram a 24 milhões, e a 123 milhões as de sedativos e tranquilizantes. Nos Estados Unidos, fabricam-se anualmente 13 milhões de comprimidos de anfetaminas e barbitúricos, o que corresponde a seis dúzias por habitante, incluídas as crianças” (da revista médica Rassegna Médica e Cultural 3, nº 5, 1967). Que pode fazer a ciência médica em auxílio às legiões de viciados, que precisando de tais drogas para um alívio dos males dos nervos, caíram presas de um mal igualmente aniquilador?

Os médicos no mundo inteiro estão alarmados com:

a) o aumento do número de nervosos, candidatos, portanto, ao vício;

b) os funestos resultados do tratamento com drogas;

c) a falta de uma solução verdadeira que substitua a perigosa trapaça que é o tratamento químico, até agora reconhecido como o mais à mão.

Haverá mesmo tal tratamento? Como seria ele?

Condenando aquilo que chamou de “camisas de força” químicas, o famoso neurocientista, Dr. Paul Chauchard, numa discussão entre eminentes cientistas e humanistas, promovida pela Nouvel Observateur, de Paris e publicada pela revista brasileira Manchete, assim se exprime: “Estou de acordo com Jean Rostand, quando diz que, querendo melhorar o comportamento humano com substâncias químicas, corre-se o risco de desencadear catástrofes.” E adiante: “... sou partidário da educação do cérebro... as drogas, úteis em estados de crise, só deveriam ser empregadas para tornar o indivíduo acessível a terapêuticas verdadeiramente humanas...” Em seu livro O domínio de si, o cientista, referindo-se ao yoga, declara: “... teríamos muito para aproveitar destes modos de dominar-nos psicofisicamente...” E se refere ao “... admirável conteúdo de formação da vontade pelo relaxamento, pela calma, pelo repouso (de que tanto precisa nossa época sumernée), a regulação das posições e das atitudes em relação com um estado mental procurado, a regulação da respiração” (O domínio de si, p. 157).

Psiquiatra brasileiro, aluno meu, experimentou o yoga e, portanto, fala mais objetivamente e com a autoridade de cientista associada à de praticante:

Estamos convictos de que a Hatha Yoga, em si, significa uma valiosa prática de higiene mental, útil sobretudo na vida cotidiana... concorre, sem dúvida, para incentivar, fortalecer ou desenvolver muitas qualidades psíquicas, como sejam: a atenção, a concentração, a introspecção (convém que o aluno se veja por dentro, em cada exercício), o equilíbrio, além de aperfeiçoar os sentimentos e cultivar apenas pensamentos bons, alegres, positivos... aprendemos ainda a dominar o sofrimento e a acreditar na capacidade de autorrecuperação do organismo... (Dr. Alberto Lohmann, psiquiatra e escritor).

Depois de seis anos de experimentação, depois de não sei quantos casos de resultados indiscutivelmente ótimos, depois de muito estudo – e com prudência para não anunciar uma fantasia, mas sim proclamar uma verdade e oferecer um escudo –, consegui escrever este livro, visando a divulgar um método de libertação, que nada tem de químico, não cria servidão, nenhum mal faz a ninguém e é “verdadeiramente humano”, como deseja Chauchard.

Durante vinte anos, aproximadamente, sofri de insônia, vendo muitas vezes o dia amanhecer, sem conseguir conciliar o sono. Só conseguia dormir com o uso de psicotrópicos. Falavam-me de yoga, mas eu não acreditava que pudesse dormir, sem tomar tais drogas. E ia ficando cada dia mais deprimida. Um dia porém, levada por mão amiga, resolvi ir à Academia. Deste dia em diante, bendito dia!, nunca mais tomei remédios para dormir. Passei a encarar a vida com mais otimismo e estou certa de que até melhor cristã me tornei (Marina R. Coutinho – RJ).

Muitos outros casos temos registrados, de pessoas que deixaram de sofrer dos nervos, não somente sem recorrer a drogas, mas, ao contrário, se libertando do condicionamento, do vício hoje tão generalizado.

... Era um verdadeiro tormento em que me debatia, noite após noite, meses e meses. Entre os vários tipos de remédio de que fiz uso, além de grande número de comprimidos, que me deixavam bastante deprimida, lembro-me de... Não me limitava a tomar uma ou duas colheres de sopa; um vidro durava no máximo quatro ou cinco dias... Esta mesma aluna, terminando sua carta diz:

Se todas as pessoas soubessem que a felicidade nos está tão próxima, ao alcance da mão, apenas com yoga, venceriam, ou melhor, procurariam vencer as barreiras que surgissem, praticando essa miraculosa disciplina, que apelidei a “fazedora de felicidade” (Cynira Ramos – RJ).

Chamo o que aqui ensino um “método de vida”. Pode também ser chamado reeducação integral ou “caminho de libertação”.

Integram-no: exercícios psicossomáticos e psicotrópicos; uma filosofia redentora e forte; uma ética superior; uma higiene mental ou psicoterapia madura e eficaz; um conjunto de técnicas de naturezas várias, desde cuidados dietéticos, fitoterápicos, hidroterápicos, cromo e musicoterapêuticos.

Meu desejo, revelando pela primeira vez em classificação psicotrópica as técnicas de yoga, é pôr a serviço de quem sofre, bem como dos senhores psiquiatras, um instrumento capaz de atender ao que tanto se procura: libertação do neurótico e um alívio pronto para seus padecimentos, sem recorrer a remédios, os quais, constituindo ao mesmo tempo um perigo real, são tratamento incompleto e insuficiente.

Os exercícios somatopsíquicos e psicossomáticos deste livro são muito mais específicos dos que os descritos em Autoperfeição com Hatha Yoga, de minha autoria. No entanto, apenas seguindo as instruções daquela obra, um senhor de Vitória de Santo Antão (interior de Pernambuco) me comunicou:

Foi a maior fonte de energia e bem-estar físico e mental que consegui. Foi através dos exercícios – e até sem muita assiduidade – que dissipei o maléfico sentimento de inferioridade, um pessimismo doentio que me dominava, transformando-me num idealizador e realizador. Já não tenho mais aquele terrível medo de morrer do coração...*

Enquanto não ocorrer uma transformação profunda na filosofia de vida, é ilusória ou superficial a chamada cura. Ter-se-á somente a remissão efêmera dos sintomas alarmantes. É preciso mudar ideias, sentimentos, motivos, anseios e filosofia de vida.

...antes de sê-lo (aluno), vivia uma vida negativa, pensando e agindo negativamente. Descrente de tudo e de todos, e das virtudes me afastava na vã tentativa de preencher um vazio que não sabia de onde vinha. Entregava-me aos prazeres e aos vícios. Doenças, dúvidas, descrenças, ilusões, insegurança, manias, medos, desequilíbrios foram os resultados... Os benefícios que tenho obtido são tantos... posso afirmar que uma radical transformação em mim se tem operado... Há um Deus Supremo, que é todo amor, amparo, perdão... E foi para Ele que apelei, quando todas as esperanças se desmoronavam... Hoje... no plano psíquico, o indispensável equilíbrio emocional... e o sistema nervoso rebelde está domado, dando lugar à calma e à paz interior.

Quem escreveu este depoimento, um funcionário do Ministério das Comunicações, era um viciado em erotismo. Gastava, sem poder, grandes somas para importar material erótico estrangeiro. Liberto, transformado, satisfeito em si mesmo, desfez-se de seu funesto acervo. Tocou fogo. Não vendeu nem deu, por não querer contaminar ninguém com o vírus de que se via curado.

As citações que seguem são de duas senhoras que também se transformaram:

...libertei-me da fadiga, da insônia e do mau humor. Suspendi os tranquilizantes, que tomava três por dia. Seguindo seu conselho de ajudar o próximo, tenho ensinado o que já aprendi... a necessitados e os resultados têm sido ótimos.

Minha situação financeira continua a mesma, mas não há mais angústia em minha alma. Sou outra. Já não me preocupo. Minha vida deixou de ser tempestade...

O nervoso encontra no yoga não um escamoteador de sintomas, mas uma forma de viver, onde se sente invulnerável aos tropeços da existência e aos assaltos da dor. É o que atesta uma senhora amiga, que, se referindo ao yoga, diz: “Me fez suportar a viuvez e superar as injustiças cometidas comigo, e me ajudou a vencer os problemas...”

Um aluno meu, israelita, passou seus anos de adolescência vendo morrer e morrendo cada dia, dentro de um campo de concentração nazista. Caiu doente dos nervos, naturalmente. Uma jovem, em janeiro de 1966, perdeu todos os entes amados e também tudo que possuía, inclusive a saúde emocional quando um edifício desabou, soterrando-a. Retirada de sob o prédio, caiu debaixo de outros escombros – a neurose. Ambos estão bons, normais. Quem os livrou dos padecimentos? O mesmo método, agora mais desenvolvido e específico, que você vai aprender neste livro.

O livro aqui está. Desejo que você encontre nele o que mais tem buscado. Desejo vir a saber que você superou não somente suas crises, mas também suas limitações, imperfeições e sofrimentos. Desejo que, atendendo a ele, possa autorizado pela experiência redentora, ajudar outros a também se libertar.

Leia, medite e pratique. Faça-o sem receio, na plena e inabalável convicção de que vencerá a distância que o separa da paz, da luz, da verdade, da justiça, do amor, da beleza e da boa saúde. Você tem no livro um amigo completo e sempre solícito, pronto a orientar sua caminhada. Desculpe se usei muitas citações e depoimentos. Eu quis fazer você acreditar pela evidência dos fatos. Desculpe se, no texto, alongo-me um pouco na explicação das bases científicas do método. Pretendi demonstrar a solidez das mesmas bases. Assim, tanto aquele que só acredita nos fatos bem como o que só aceita linguagem e dados científicos não terão como duvidar.

Este não é um dos muitos livros que são lidos e deixados em abandono na estante. É para ser consultado diariamente, pois se propõe a ajudar você a transformar-se. Foi escrito sob uma convicção essencial de que só esta transformação é que merece ser chamada de cura.

Curar-se não é deixar de sentir sintomas, mas trocar repressão por compreensão; ignorância por sabedoria; ansiedade por contentamento; psicodelismo por alegria tranquila; alienação por autoconhecimento; desespero por coragem; regressão por evolução; erotismo por amor; fadiga por energia; ódio por benevolência; guerra por paz; medo por serenidade; tédio por alegria de viver; prazeres medíocres por felicidade duradoura; astenia por vibração; vício por liberdade; vazio por plenitude; mentira por verdade; desejos por vontade; agitação por quietude; desvarios por sobriedade; dependência por autossuficiência; brutalidade por refinamento; angústia por segurança; fragmentação por unidade; doença por higidez; ociosidade por ação fecunda; embotamento por criatividade; distância de Deus por eucaristia; apego por renúncia; hipocrisia por autenticidade; ressentimento por perdão; fragilidade por invencibilidade; passividade por cooperação; mendicidade por doação; cobiça por desapego; distância e conflito, carência e sofrimento por yoga. Você não acha que uma transformação assim não é possível mediante uma única leitura que se esquece com o passar do tempo? Você precisa reler muitas vezes, principalmente a Parte 5 (Sádhana), a fim de pôr em prática suas indicações. Sempre que estiver dentro de uma situação adversa, volte a ler aqueles capítulos, bem como o livro Mergulho na paz, também de minha autoria. Você encontrará ali, certamente, uma eficiente ajuda.

Sozinho, ninguém produz. Ninguém pode orgulhar-se de ser autor único de qualquer coisa. Este livro não seria escrito se eu não contasse com a sabedoria dos antigos e modernos sábios do Oriente e do Ocidente. A eles meu agradecimento. Tenho de agradecer à minha esposa – Maria Bicalho –, emanação de ternura, companheira constante em minha jornada, de cujos carinhos e conselhos recebi alento e vontade de produzir. Reconhecido sou a meus assistentes, Professores Dr. Selenócrates Marback d’Oliveira; João Baptista Costa e Arthur Santos – solícitos colegas de trabalho. Agradecido também estou ao Dr. Oswaldo Paulino; ao Dr. Luís Mário Duarte, autor da Apresentação à edição revista; e ao Dr. Cláudio Cécil Polland, pela colaboração no capítulo de fitoterapia. Agradecido principalmente ao Onipresente, a cuja Graça credito tudo que em mim vale para dar.

Hermógenes





Nota

* Somente os que me autorizaram têm seus nomes publicados por extenso. Os depoimentos de meu arquivo acham-se ao alcance das autoridades médicas que os queiram ver. (N. do A.)





Parte 2

PARA INÍCIO DE CONVERSA





Esperança para os nervosos

SE ESTE LIVRO FOSSE DESTINADO a médicos, não usaria o termo nervoso, por ser cientificamente impreciso e, quiçá, desgastado. Mas, como estamos interessados numa conversa onde a simplicidade produza o maior proveito, vamos chamar nervoso aquele campeão de desventura, para quem a existência é cruz pesada, sem lenitivo, paz ou repouso que, tendo inutilmente buscado mil e uma saídas para seu drama, desespera-se achando impossível encontrar uma sequer.

Tanto pode ser rico como muito pobre; ignorante como letrado; patrão como o mais humilde empregado; religioso como agnóstico; jovem ou velho; professor ou estudante; político no governo ou na oposição... Embora possa, por ser rico, ter segurança econômica e acesso a todas as coisas que amenizam, embelezam e dão gostosura à existência, se sente miserável. É um sedento incurável, pois embora estando à beira da fonte, não consegue vê-la. Sua tristeza parece onipotente. Pode ter conquistado as maiores láureas na arte ou na ciência, e no entanto, no semblante de abatimento, revela, e todo mundo pode ver, somente desgraçada insatisfação. Não importa seja jovem, bonitão, cheio de prazeres, vigor e mulheres, porque se sente incapaz para a felicidade. Embora farto de prestígio social e bem colocado na vida, é indigente de alegria. Que importa que seus sermões bonitos e inteligentes tenham a admiração dos auditórios, se ele se sente um vencido e agitado clérigo?! Moças lindas, rainhas de passarela, cobiçadas pelos homens e invejadas pelas mulheres, se nervosas, são presas de solidão imensa e vivem carentes de paz...

Todo nervoso sente falta de algo, que julga essencial e que, por não ter, embora possa ter tudo o mais, faz de seus dias uma fieira de torturas subjetivas, íntimas, inenarráveis... A todo nervoso falta ser algo. A todo nervoso falta fazer algo.

Vive em guarda, a defender-se de presumível assalto não sabe de que, nem de quem, nem de onde. Tem medo, como se vivesse perenemente ameaçado por um predador incógnito. É como sentinela em posição, em noite escura no campo de batalha. Por isso mesmo, seu desgaste é contínuo. Disso resultam fadiga e necessidade de repousar. Repousar, porém, ele não consegue, exatamente por viver tenso, em atitude pré-bélica. A fadiga é acompanhada de excitação mental, isto é, incontido e assustador fluxo da atividade mental. E isso o cansa mais ainda.

Quase todos os dias são “dias negros” na vida da pessoa nervosa.

Acha tudo ruim, insatisfatório e mesmo ameaçador. Não porque as coisas e as situações objetivamente o sejam, mas por causa de si mesma, pela avaliação anômala que faz de si. Ela própria é o seu maior problema.

Não há sintoma que o nervoso não possa sofrer. Não vou descrevê-los com minúcias, como a princípio pensei fazê-lo, para evitar que um leitor nervoso não venha a sentir-se incompleto por lhe faltar este ou aquele sofrimento descrito. Não há enfermidade que o nervosismo não possa gerar. Chama-se psicógeno o sintoma, a síndrome ou a doença engendradas pela mente perturbada e pela tensão neuromuscular, numa palavra, pelo estresse. Não obstante, o coração, por exemplo, se encontre estruturalmente perfeito, o estado da mente, a tensão e os nervos em desordem perturbam-lhe a função, e a pessoa sente taquicardia ou bradicardia assustadoras.

Houve épocas em que a ciência defendia um ponto de vista chamado dualista, considerando o ser humano dividido em corpo e alma. Na Idade Média dizia-se até ser a alma coisa de Deus, e o corpo, do diabo.

Por muitos séculos admitiu-se um hiato irreconciliável entre estes dois opostos. Hoje, a ciência evoluiu o suficiente para voltar a afirmar que não existem alma (mente) e corpo ou espírito e matéria, como duas realidades essencialmente diversas. São as faces da mesma moeda. Esta doutrina advaita,* modernamente defendida por T. Chardim e P. Chauchard, dá uma compreensão mais fecunda aos fenômenos psicossomáticos. Nada se passa na mente que o corpo não manifeste. Nada se passa no corpo sem que a mente acuse. Isso porque não há um corpo e uma alma, mas uma unidade, modernamente chamado mente-corpo.

Você quer ver como isso é uma ideia velhíssima?

Quinhentos anos antes de Cristo, Sócrates doutrinava: “Todo o bem e mal, quer no corpo ou na natureza humana, originam-se na alma e daí extravasa... Portanto, para curar o corpo, deve-se começar curando a alma.” Milhares de anos antes, isto é, muito mais remotamente, o grande poema épico da Índia – Mahabharata – considerava que “existem duas espécies de doenças: física e mental. Uma se origina da outra. A existência de uma não é percebida sem a outra. As perturbações mentais originam-se das físicas e, de igual maneira, as perturbações físicas originam-se das mentais” (Mahabharata, Shanti Parva. XVI, 8-9, cit. por Geoffrey Hodson em O homem, na saúde e na doença.

Você estranharia um homem engravidar, não é? – Pois isso já se deu como fato psicógeno, isto é, engendrado pela mente.

O British Medical Journal noticiou que um soldado de 27 anos impressionou-se tanto com sua esposa grávida ao ponto de ele mesmo sofrer ataques de pseudogravidez... (Time, 1/11/1953).

Depois disso, você também vai concluir não haver sintoma estranho que o estressado não possa apresentar, para tormento principalmente seu, mas também de seus parentes e de seu clínico.

Se uma corrente admite ser a mente desarmônica que prejudica o corpo, uma outra, igualmente importante, dá explicação diametralmente oposta, isto é, procura demonstrar serem as perturbações orgânicas que geram os sofrimentos mentais. A primeira vê o nervoso como um doente do psiquismo, ou seja, da mente ou da alma. A segunda considera-o um enfermo no corpo, principalmente, dos nervos e das glândulas. Nervos e glândulas em desarranjo provocariam todas as anomalias nos órgãos por eles regulados, com repercussão automática sobre a vida mental.

A primeira escola trata o enfermo com psicoterapia, procurando, em primeiro lugar, a harmonização e a regularização dos processos e estados da mente, visando com isso a, indiretamente, curar o corpo. A outra, pelo contrário, administra desde as drogas psicotrópicas, hormônios, tônicos e até ETC (eletroconvulsoterapia), ou mesmo neurocirurgia, procurando, corrigindo as disfunções neuro-hormonais ou bioquímicas reinantes no organismo, livrar o enfermo de seus padecimentos psíquicos.

Qual das duas escolas está certa? A da psicologia médica ou a dos fisiologistas? Deve-se atender primeiro à correção da mente ou à cura do corpo?

O yoga, cujo fundamento é o Vedanta Advaita, a escola de pensamento hindu que afirma o não dualismo, sabendo que a mente e o corpo não deixam de ser a mesma Realidade Una, não se atém a um exclusivismo terapêutico, isto é, não trata exclusivamente da matéria ou do espírito. Socorre o nervoso como um todo, e o faz por várias frentes de ação terapêutica.

O homem é constituído não só por “um corpo físico e uma alma imaterial”, como se dizia antigamente. É um ente complexo. Participa de vários níveis vibratórios ou planos da existência universal. As práticas e a filosofia yogues agem beneficamente sobre os nervos, sobre todos os órgãos, glândulas, finalmente sobre o todo orgânico, mas, indo além, harmoniza um outro nível imediato e mais sutil de nosso ser, conhecido como “corpo vital”. Não se detém aí: alcança o “corpo astral”. Chega ao “plano mental” e passa adiante, em níveis de ser ainda mais quintessenciados e cada vez mais próximos do Espírito. Yoga é o aperfeiçoamento de cada plano bem como da integração ou harmonização de todos eles, realizando a Unidade no homem.

Na pessoa nervosa, os “corpos” ou “planos de ser” se encontram em desarmonia. Seus nervos e glândulas estão em desarranjo. O estresse pode ter origem na perturbação da economia energético-vital. Pode ser gerado por emoções em conflito, bem como resultar de estarmos afastados dos níveis divinos do Espírito. Pode ser que tudo isso junto, interagindo, é que mantém o sofrimento. Yoga é a redenção desse sofrimento, mercê de seu poder harmonizador e reequilibrante. Onde reina o caos, o yoga leva o cosmo. Razão por que se constitui salvação contra o nervosismo. Se você não é nervoso, salva-o, preventivamente. Se já o é, salva-o, curativamente. Nervosismo é desarmonia. Yoga é harmonia.

Yoga e estresse não coexistem.

O método yogue tem sido a salvação de grande número de nervosos. Você também ponha à prova sua eficiência.

O êxito de um empreendimento, todos o sabemos, é tão mais provável quanto maior seja o número de frentes pelas quais seja atacado. O método yogaterapêutico, seja para aliviar um neurótico, seja para aproximar ainda mais de Deus um homem sadio e de espírito religioso, é, pode-se dizer, o mais completo. Ataca o objetivo por todas as frentes.

Você – se está estressado – deve estar ansiando por uma solução para seu problema. Deseja uma saída para seu martírio. Desde o primeiro instante em que começou a ler este livro, já está encaminhando sua libertação. Tudo quanto ele disser, cada palavra sua só tem um objetivo: ajudá-lo a vencer.

Não importa qual seja o seu caso particular – as causas e peculiaridades de seus incômodos – o yoga contribuirá para maior êxito dos esforços de seu médico ou psicólogo.

No fim desta estrada, você se deslumbrará com o horizonte que há tanto andava buscando. Ela termina lá em cima, de onde você pode sorrir vitorioso por ter saído do vale escuro da angústia. Lá existem luz, felicidade e paz ao seu dispor. Você verá o nascer do sol e o sol será seu. Nunca mais a penumbra. Nunca mais os grilhões da intranquilidade e do desânimo. Nunca mais o medo lançará suas macabras redes sobre sua cabeça. Você poderá dormir um sono profundo depois de tantas lutas, até agora frustradas. Poderá sentar-se tranquilo, sem pressa, e sorrir liberto. Poderá jogar fora as drogas psicotrópicas a que tem infrutífera e obsessivamente recorrido.

Durante anos experimentei este método em muitas pessoas, que ficaram boas. Há anos que sonhava escrever este livro, mas prudentemente não o fazia, esperando a confirmação do êxito das experiências. Enquanto isto, fui pesquisando sempre. Hoje quando o escrevo, estou certo de que já tenho o remédio eficaz para lhe dar. Igual aos outros, seu caso também terminará em vitória, dependendo naturalmente de sua colaboração.





Nota

* Sobre advaita e outros termos em sânscrito, antiga língua clássica da Índia, consultar o Glossário, ao final deste livro. (N. do E.)





A “coisa”

SEJA O CORAÇÃO QUE DISPARA ou “dói” muito (dor precordial), respiração escassa e disritmada, seja crise asmática, náusea, hipertensão, insônia, crise hepática, tosse nervosa, membros paralisados, caos orgânico insuportável e inquietante, seja dor de cabeça, indisposição gastrointestinal, desânimo arrasador com vontade de sumir ou dormir até morrer, seja ataque de pranto ou ansiedade irracional, a verdade é que a pobre vítima cai presa de pânico infernal ao pressentir que mais uma vez vai ser assaltada pela coisa. E o terror se acentua à medida que constata encontrar-se novamente indefesa nas garras de algo de poder muito estranho, a dominá-la, a vencê-la, a desmoralizar-lhe os esforços.

A coisa está desgraçando a vida de muita gente, destruindo um número sempre crescente de seres humanos. É raro aquele que não é seu escravo e vítima sua. A clientela dos psiquiatras, psicólogos e psicanalistas aumenta assustadoramente. A crescente procura dos psicotrópicos está alarmando as autoridades. Nem os próprios psiquiatras nem as autoridades sanitárias de todo o mundo se sentem seguras, elas mesmas, contra a devastação que a coisa anda fazendo. A corrida aos barbitúricos, ataráxicos, tranquilizantes, antidepressivos é um sinal de que a coisa está se tornando a maior ameaça à humanidade. Segundo relatório do senador Thomas Dodd, de Connecticut, “em abril de 1965 existiam nos Estados Unidos mais de cem mil viciados em psicotrópicos” (Jornal do Brasil, 4/1/1968). Na França, 10% das despesas farmacêuticas, em 1967, foram com psicotrópicos, isto é, drogas para engabelar a coisa.

As trágicas fileiras de escravos das drogas se espicham a perder de vista pelos vales desta humanidade cada vez menos humana e sempre mais psicodélica, vazia, enfastiada, inconsequente e mesmificada no sofrimento neurótico e psíquico.

Mas... que é a coisa?

Não fui eu quem a batizou assim. São alunos meus, em suas queixas, que lhe dão este nome genérico.

— Quando a coisa me derruba, não sou mais ninguém...

— Eu estou bem, professor, mas de repente me dá uma coisa, que...

— Ah, se eu pudesse vencer essa coisa que está me destruindo!...

— Se eu me livrasse dessa coisa, seria outro homem...

— ...é uma coisa horrível que eu sinto, que nem sei dizer...

Coisa é o apelido dado aos sofrimentos e desconfortos psicossomáticos que envolvem corpo e mente, com perturbações fisiológicas localizadas ou generalizadas, todo-poderosas e obcedantes, e o paciente não sabe como começaram nem como vão terminar. Sabe somente – e com que intensidade – tratar-se de uma experiência apavorante a vencê-lo inexoravelmente. A vítima não sabe defini-la, e por isso a apelida de a “coisa”.

São componentes do quadro a impotência diante do assalto e o consequente pânico. Aos primeiros e tênues prenúncios de um assalto, sobrevém o pavor, e a vítima, tentando defender-se instintivamente enrijece os músculos, faz-se tensa, põe-se em guarda. À medida que vê se agravarem os sintomas e, portanto, a falência de suas defesas, naturalmente vai ficando cada vez mais apavorada. O pavor determina automaticamente maior tensão pseudodefensiva. Por sua vez, a contração do corpo facilita o êxito do ataque da coisa. Eis o sinistro círculo vicioso a avassalar a vítima: os sintomas geram o medo; o medo, a tensão; a tensão facilita e acentua os sintomas que, por sua vez, agravam o medo e este degenera em pânico.

Em cada pessoa, a coisa se desenvolve segundo um esquema particular, envolvendo, desde os níveis corticais do cérebro até os vegetativos do sistema nervoso. Em cada paciente, se desencadeia um circuito particular. À medida que este se repete, se afirma, se consolida, se torna mais facilitado e mais ganha ser, isto é, mais se torna uma coisa. Tal circuito se desenvolve segundo a linha de minoris resistentiae, como dizem os psiquiatras e especialistas em psicossomática.

Quando eu disse que a coisa vai ganhando ser, fui preciso. Ela ganha existência e cada vez mais afirma essa existência. E isso à custa das derrotas da vítima, como também em obediência a uma lei universal, segundo a qual, tudo que existe afirma e defende sua existência. A potência da coisa é alimentada cada vez que derruba sua vítima.

A vítima conhece seu circuito particular. E antes do assalto sabe como vai acontecer e sabe que vai ser infalivelmente vencida. O circuito é predito pelo doente. Ao sentir as ainda suaves, longínquas e discretas ameaças com a mais funda e eficaz convicção, diz para si mesmo: “Já sei. Lá vem a coisa! Agora estou frito. Já sei. Meu coração vai querer sair pela boca... Estou liquidado!...”

Esta autossugestão e mais a tensão gerada pelo medo são eficientíssimas ajudas dadas à coisa pelo próprio doente. São elementos indispensáveis ao êxito do ataque. Que ironia!, é a própria vítima que assim possibilita e agrava seus sofrimentos.

Se os sofrimentos têm origem em conflitos, como explicam os psicólogos, ou se são choques entre respostas orgânicas opostas, como querem os fisiologistas, se a coisa é criada pela mente ou pelo corpo, tem importância relativa, pelo menos para quem sofre seus ataques. O importante é aprender como vencer o dramático círculo vicioso.

Este livro, resultado de uma experiência bem-sucedida com centenas de casos, pretende dar a você os meios para, inteligentemente, evitar a condição de vítima ou para libertá-lo do sofrimento. De início, é indispensável que você tenha compreendido o que é, como se forma e como se afirma o círculo vicioso.

Lembre-se, diante das ameaças de uma crise, das coisas que ocorrem contra você e a favor do adversário: a) autossugestão negativa, a predição dos sintomas e da vitória do ataque; b) o medo; e c) a consequente tensão, com que você procura defender-se.

Aprenda a evitá-las.

Tais coisas são concomitantes. E são sinérgicas, reforçam-se mutuamente.

Comece por evitar a atitude de combate. Em outras palavras: evite a tensão, que se alastra pelo corpo. É ela que liga todos os elementos do circuito. Relaxando, você conseguirá evitar o tal circuito, pois não oferece passagem. A habilidade de relaxar é uma aquisição preciosa a ser feita. Adiante vamos tratar disso.

Você precisará aprender a manejar alguns meios, algumas técnicas. Terá de realizar algumas transformações em seu viver. Precisa aprender a vencer, mas sem lutar. Isso não lhe parece estranho?! Claro. Falar de vencer sem reagir contra, sem armar-se, sem lutar é muito esquisito principalmente num mundo onde o esforço pela vitória é geralmente tido como indispensável.

Se a coisa tem dominado você é porque lhe tem oposto resistência e a enfrentado cheio de tensão. Você tem oferecido luta. Disso ela se aproveita para derrubá-lo, e assim firmar e defender sua existência. Qualquer luta engendra reação. Se você agride e enfrenta a coisa, ela saiu ganhando. Se você a teme, como vimos, ela também vence. Com ahimsa (não reação), poderá vencê-la. Terá de fazer o que fez o Mahatma Gandhi com a Grã-Bretanha: não violência. Você terá de aprender a estratégia onipotente do ahimsa. Vamos tentar explicá-la.





Estratégia

UMA DAS DEFINIÇÕES CLÁSSICAS DE YOGA é “a excelência na ação”. A ação eficaz, bem-sucedida, completa, sem resíduos, sem defeitos e também sem desgastes desnecessários, pode ser chamada de ação perfeita ou ação yóguica. Uma que seja incorreta, desvirtuada, exaustiva, egoística, estreita, precária, mesquinha e ineficaz é pecado, é ação imperfeita. As ações a realizar em nossa existência devem ser perfeitas, sem o que ficamos endividados e, portanto, presos a elas, obrigados a repeti-las. A ação yóguica é libertadora, portanto.

Se nos demais aspectos da vida temos de agir com perfeição, para libertar-nos, que dizer de nosso comportamento em relação à coisa?! Chamemo-la de angústia, neurose, servidão, conflito, imperfeição, dependência, sofrimento, ansiedade, condicionamento, inferioridade, fobia, doença, obsessão, síndrome do pânico... dela é fundamental que nos libertemos. É, podemos dizer, o mais importante nesta vida.

Qual será o modo mais yóguico, o mais libertador, de enfrentar a coisa?

Além das muitas técnicas e comportamentos especiais, neste livro sugeridos, creio ser indispensável que você mantenha incessantemente, como fundamento e fonte de inspiração, como orientadora da ação, uma determinada atitude mental, definida por você mesmo. Poderia eu mesmo ensiná-la. Poderia ser mais direto e objetivo dizendo-lhe qual seja. Isso seria cômodo. Mas seria o mais eficaz? Você poderia não aceitar ou não entender o que eu dissesse. Prefiro que você mesmo a formule. Vamos recorrer a parábolas. Espero que as considere e conclua sobre o que fazer diante da coisa. Aprendamos as lições das parábolas. Escutemos seus sábios conselhos semiocultos. Comecemos:

1) Dois nadadores queriam chegar a uma casa no outro lado do rio, bem em frente a eles. O primeiro, vaidoso com sua força de vontade e com suas habilidades de campeão, atirou-se à água, nadando obstinadamente em direção à casa, isto é, perpendicularmente à corrente. Travou luta inglória e estúpida. Quase morto, foi socorrido, quando já exausto e vencido ia sendo arrastado para as pedras.

O segundo meteu-se n’água, e concedendo, e mesmo aproveitando a direção da corredeira, nadou em diagonal. Chegou ao outro lado num ponto abaixo à certa distância da casa aonde queria chegar. Já em terra firme, andou pela margem na direção do rio acima e chegou tranquilo ao seu destino.

Que acha disso? Quem foi mais sábio? O primeiro ou o segundo nadador? Qual deles foi eficaz? Por que ou com o que o segundo realizou a tarefa? Qual foi a estratégia vitoriosa?

2) Um banhista saiu nadando e se afastou um pouco da praia. Em certo ponto, se apercebeu de que estava sendo levado por uma corrente marítima. O instinto de conservação mandou-o retornar à praia. Começou a bracejar, tentando salvar-se. Cada vez mais, no entanto, se sentia impotente de fazê-lo. Naturalmente, sob a evidente ameaça à vida, nele foram aumentando simultânea e reciprocamente o pavor e os esforços inúteis e, consequentemente, a fadiga, com a horrível sensação de que estava perdido. Ia morrer. Não por não saber nadar, mas porque se sentia incapaz de vencer a força do mar. A praia ia se afastando, e com ela, suas esperanças e suas forças...

Dessa forma, o banhista inexperiente e teimoso é vencido.

Nadador sabido, experiente e por isso mesmo calmo, quando se vê na mesma situação, não se esforça e não cai em pânico. O que faz é inteiramente diverso. Renuncia à tentativa imprudente de chegar direto à praia. Sabe ser isso impossível. Simplesmente, conservando-se dono de si, deixa-se levar pela corrente. Sem pavor, vê a praia ficar longe, mas não a esperança, não sua tranquilidade. Lá adiante, a corrente, mudando de direção, reaproxima-o da terra, e ele inteligentemente aproveita e salva-se.

3) Neroide era um cavalo puro-sangue inglês, inteiro, fogoso e enorme. Dava gosto vê-lo, elegante e ágil. Temiam montá-lo. Eu, jovem cadete, “mascarado” de bom cavaleiro e querendo impressionar, não tive dúvida em aceitar o risco. Nos primeiros instantes, foi uma vitória. Tão confiante me senti, que me incorporei a um grupo de veranistas que ia percorrer a cavalo os campos e as serras dos arredores. Nunca um cadete se sentiu tão vaidoso como eu naquela situação. Sabia que minha montada era a mais vistosa e mesmo contrastante com os pangarés cavalgados pelos outros. Sabia-me admirado e caprichava em manter a postura ereta e elegante, aprendida nas lições de equitação. Tudo ia bem, quando Neroide começou a demonstrar excessiva excitação. Encurtei as rédeas, apertei as pernas e afastei-me prudentemente dos outros, e por todas as formas tratei de fazê-lo sentir que quem mandava ali era eu. Ele, sentindo-se desafiado, resolveu provar que quem mandava era ele e passou a demonstrar que, para ele, rédeas e cavaleiro vaidoso nada valiam. Feito um doido, danou-se a correr, com vontade de aliviar a carga que trazia nas costas: eu. Os companheiros de passeio olhavam apreensivos para o espetáculo. Neroide não escolhia por onde galopar: barrancos, espinheiros, capões de mato... E eu em cima dele. Onde e como terminaria aquilo? O que estariam pensando os companheiros já não importava. A situação era de ameaça à vida ou à integridade física. As pernas, feito torquês, apertavam as ilhargas do desvairado gigante de quatro patas, em disparada. O pânico, alimentado pela incerteza e pela sensação de impotência, começou a assaltar-me. Qual seria o fim daquilo? Qual seria meu fim? Se tivesse me abandonado ao medo, não sei o que teria havido. Defendi-me primeiro do medo e, graças a isso, conservei-me lúcido. Em quase serenidade, intuí a solução. Em vez de puxar as rédeas no sentido de o estancar, deixei de lutar contra. O animal sentiu-se então liberto para correr ainda mais. Eu, até então, reconhecera-me vencido e dominado. Agora, ao contrário, era dono de mim, embora não dele. Estava fazendo o que decidira. O pânico fora maior porque eu me sentira vencido por algo incontrolável. Agora, Neroide corria, mas com meu consentimento. Decidi fazer uma coisa que não o contrariava frontalmente: puxei a rédea esquerda, mudando a direção da carreira. De cabeça virada para subir a colina, talvez se sentindo triunfante e solto, valentemente empreendeu a subida. Minha esperança foi confirmada: o bruto acabou vencido por sua própria estupidez. Parou cansado, e eu, que aprendera a ganhar com o não lutar e o não temer, continuava em cima dele, dando-lhe umas palmadinhas sonoras no pescoço coberto de suor espumoso.

4) No inverno dos países frios, em cada árvore coberta de neve, há uma lição de sabedoria, para quem tenha “olhos de ver”. Quando desce a nevada, os galhos mais lenhosos, mais fortes, chegam a quebrar sob a carga branca de neve que neles se acumula. Os mais frágeis e flexíveis se defendem, vergando sabiamente, quando há um mínimo excesso de peso. Depois que a neve os deixa, se reerguem e, assim, nunca arrebentam.

5) Em Presença da realidade, escrevi:

“Depois do temporal, era quase completa a devastação na serra.

As árvores mais fortes, mais velhas, mais imponentes, mais altas tinham sido as mais atingidas. Muitas destruídas, com o tronco lenhoso dilacerado, com o cerne à mostra...

Os mais humildes arbustos, anônimos, flexíveis e sem porte, se espreguiçavam, indenes, se erguiam festivos, respondendo aos beijos mornos dos primeiros raios do sol ressuscitado.”

O combate do toureiro hábil em vencer e o parto sem dor são também ações yóguicas.

Poderia continuar fazendo desfilar diante de você os muitos outros símbolos de uma atitude sábia comum em todos que sabem enfrentar lutas, ameaças, agressões, adversidades, sofrimentos, e mesmo aquelas desgraças tidas por invencíveis e inevitáveis. Os mansos se abrandam, e abrandados, vencem.

O segundo nadador, o que atravessou o rio; o outro que soube sair da corrente marítima; o cavaleiro de Neroide; o raminho tenro vergado pela neve; as humildes plantas da floresta devastada pelo temporal; todos eles sobreviveram ao desastre graças a uma estratégia, que é a mesma em todos os casos. Você é capaz de descobrir qual é? Em que consiste a sabedoria dos vitoriosos?

Se você já chegou a descobrir essa forma inteligente de conduzir-se, ou ação yóguica, meus parabéns! Nunca mais a coisa o vencerá. Desde já você tem sua libertação garantida. A vitória sobre o estresse se chama brandura.

O primeiro nadador, que quis atravessar o rio perpendicularmente à corrente, foi vencido porque: a) lutou frontalmente com um adversário muito mais forte; b) foi teimoso; c) não soube evitar o pânico. Por que razão o outro foi morrer afogado na corrente marítima? Se você não repetir a resposta do caso anterior, desculpe, mas tenho todo o direito de desconfiar de sua inteligência. Qual teria sido meu fim, se estupidamente continuasse a querer vencer um cavalo disparado e enlouquecido, à custa de contrariá-lo com as rédeas? Já imaginou o que teria acontecido se eu me deixasse dominar pelo pânico?

Depois de termos concluído sobre o que de errado andaram fazendo os lutadores vencidos, vamos aprender com aqueles que triunfaram.

O segredo da sua ação eficaz parece estar em: a) serenidade, indispensável ao controle de si mesmo; b) concessão voluntária, inteligente e estratégica à “vontade do adversário” (correnteza do rio ou do mar e a carreira do cavalo disparado); c) utilização inteligente, objetiva e na hora exata dos esforços e dos meios certos.

A forma de agir diante de uma crise qualquer é inteiramente diferente daquela do caipira bravo e lutador que se mete no mar disposto a vencer, de frente, a pancada das ondas e que, provavelmente, sairá do combate de costelas fraturadas. O esperto frequentador de praia jamais comete tal imprudência. Faz o corpo mole e, serenamente, apenas se abaixa ou fura a onda, e sai ileso.

Experimente o mesmo da próxima vez, quando se vir numa situação adversa, numa crise de qualquer espécie. Nunca se meta a enfrentar as ondas do sofrimento com peito aberto e pé atrás. Relaxe. Negaceie. Abrande-se. Deixe passar a onda e, se tiver habilidade suficiente, aproveite inclusive a força que o destruiria e faça como alguns banhistas – conserve-se na crista e vá soberanamente até a praia, pegando jacaré.

Ousamos concluir que, em face de uma crise de neurose de angústia, sejam quais forem suas manifestações, o que devemos fazer é: a) não lutar frontalmente contra os sintomas; b) não insistir no esforço ineficaz; c) não cair presa do medo decorrente da sensação de impotência. Em resumo: Não lutar!, e não ter medo!

Não lute. Não reaja. Não resista heroicamente contra a coisa ou contra qualquer assalto de desdita, quando sejam inevitáveis, invencíveis, incontroláveis e além de suas forças. Não resista. Faça como os raminhos tenros que se vergam com o peso da neve, deixando-a cair. Faça como os frágeis arbustos que o vendaval não consegue arrebentar.

Reação frustrada e resistência destruída só servem para evidenciar nossa própria derrota e é isso que dá medo. Este, por sua vez, destrói a eficácia dos esforços, pois cria tensões desastrosas... E assim a vitória será sempre da coisa, da adversidade, da inferioridade, do vício, de tudo quanto nos quer vencer, reter, escravizar e destruir.

Vamos ser mais objetivos e práticos. Vamos a exemplos.

Que é a crise asmática? Como superar uma?

A angústia de quem se vê arrastado para a destruição, seja por um cavalo enlouquecido ou por uma corrente marítima, é idêntica à de um asmático em crise. Aos primeiros sinais prenunciadores, o doente diz a si mesmo: “Pronto. Hoje estou frito. Daqui a pouco estarei chiando e me afogando em secreção...” A partir daí, trata de fazer esforços heroicos para respirar; começa a lutar contra a crise, embora convencido de que tais esforços serão impotentes... É como o que quer sair da correnteza e nadar para a praia. Quanto mais se esforça, mais se apavora por ver-se frustrado e sem esperança, e quanto mais se apavora, mais se enrijece todo, criando assim não só maiores necessidades respiratórias, pelos esforços, como também maiores obstáculos à respiração, pela maior produção de secreção e constrangimento nas passagens de ar... Sem o mínimo êxito, vê, horrorizado, desencadear-se o dramático círculo vicioso: afogamento, esforço, pânico, tensão, agravamento da crise...

Autorizado por comprovações experimentais, posso dizer que a estratégia do ahimsa, que tenho ensinado, consegue não somente evitar o ataque a desencadear-se, como também suspendê-lo, se já iniciado. Ahimsa pode ser traduzido por não reação.

Olhos esbugalhados de pavor, ofegante e sentindo-se miseravelmente sem esperanças, a moça, sem poder falar, por gestos angustiados e sintomas evidentes, pedia-me ajuda. Mandei-a deitar-se na esteira e comecei a dizer-lhe:

— Não lute contra a crise! Não resista! Não tema! Largue-se! Fique imóvel! Reduza a zero seus movimentos. Pare. Diminua assim a necessidade de respirar. Não se esforce por mais ar! Quieta! Serena! Deixe a crise tomar conta! Acalme-se! Nada de medo! Seu pavor é que lhe prejudica! Quieta! Você já não precisa quase respirar. Está vendo?! Comece a comandar o relaxamento de todo o corpo! Entregue-se ao Deus Onipresente, que vai agir, desde que você se confie a Ele. Enquanto você estiver lutando, não dá a Ele a oportunidade de tomar conta de você. Deixe-O agir. Largue-se. Assim. De olhos fechados, afrouxe todo o corpo. Com corpo frouxo, sem tensões, vai-se reduzindo ainda mais a necessidade de respirar. Vê como a calma vai se restaurando? Vê como está respirando cada vez menos... e já desimpedidamente? Vê como Deus sabe salvar-nos de qualquer sofrimento, desde que, na hora exata em que nos sentimos impotentes, confiamos tudo, totalmente, à sua Onipotência, Onisciência e Onipresença? Vê como Deus sabe dirigir as reações de nosso organismo? Vamos: relaxe mais, cada vez mais... Que tal esta sensação de segurança e serenidade, que está substituindo o medo? Vê como é Divina a vitória sem luta, sem ansiedade, sem reação, sem violência?... Esta paz gostosa está ao seu alcance todas as vezes que quiser!... Sempre que nova crise quiser tomar conta de você, lembre-se disto: não lute; não tema; entregue-se a Deus; relaxe; deixe que a coisa, por si mesma, descubra que já não tem domínio sobre você!...

Esse caso não é hipotético. Igual a ele, tenho tido muitos outros.

Um dos mais interessantes, porque logrou certa notoriedade, foi com uma irmã vicentina na Santa Casa de Misericórdia do Rio. Baixou à enfermaria 32, em plena crise de asma, agravando seu enfisema pulmonar, depois de ter recebido extrema-unção, sendo, portanto, esperada sua morte. O Divino Médico inspirou-me a abordar o caso, apelando, antes de mais nada, para os sentimentos e convicções religiosas da paciente.

— Irmã, todos os dias, a senhora diz “seja feita a vossa vontade”, não é?...

Semissufocada, com dificuldade, acenando com a cabeça, confirmou.

— A senhora diz, mas não cumpre – acusei-a, com um sorriso amigo, como a pedir desculpas pela impertinência. — A senhora precisa realmente deixar Deus tomar conta de seu corpo. Vamos aprender a fazer isso? Quer apostar como nunca sentiu maior felicidade do que vai sentir agora, confiando seu organismo e todos os seus problemas ao Supremo? Vou ensinar-lhe a realizar, no organismo, o “seja feita a vossa vontade”, e a senhora vai ver como, agora mesmo, a crise vai cessar, pois Deus não falha, quando toma conta. A senhora só está assim, asmática, sofrendo tanto, porque ainda não sabe como deixar Deus tomar conta. Ao contrário, a senhora só tem tido fé em sua própria luta contra essa coisa. Até agora, só tem usado seus próprios recursos. E isso só lhe tem trazido ansiedade e frustração... Agora mesmo vai mudar de atitude. Pare de fazer esforço, consinta que Deus entre em ação. Feche os olhos...

E comecei a ensinar-lhe a relaxar.

O resultado foi impressionante. O nervosismo cedeu. O pavor foi substituído pela calma. A respiração foi se minimizando até que, com semblante muito sereno, parecia adormecida. Havia então silêncio em sua alma, envolvida até então em luta inglória, estafante e mortal. Tendo aprendido a relaxar, à medida que os dias se passavam, mais profundamente foi conseguindo entregar-se ao seu “Príncipe”,* e dentro de um mês, ela, que já não é jovem e parecia condenada à morte, voltou ao seu caridoso serviço. Pode considerar-se curada, pois já tendo sido assaltada por recidivas, comportou-se inteligentemente, seguindo a estratégia que aprendera.

O que foi dito para a crise asmática é valido para qualquer dos múltiplos quadros com que a coisa martiriza a vida de inúmeras pessoas. Quaisquer que sejam os sofrimentos psicossomáticos, quaisquer que sejam os sintomas neurovegetativos, utilize a estratégia. Vai dar certo. Garanto-lhe.

Se o que você sente é taquicardia, no próximo assalto, sem alarmas, deixe o coração livremente dançar sua rumba. Sentado ou deitado, apenas relaxe. É assim que procede um grande advogado carioca que, antes de ser meu aluno, tentara, inutilmente, os mais modernos tratamentos.

Sem receio, largue o coração a si mesmo e diga-lhe: “Pode bater à vontade. Você não me assusta mais. Vamos. Bata como quiser. Não vou lutar contra você...” Dessa maneira, faça uma surpresa ao coração. E ele, meio frustrado, dirá: “Ué! Que está acontecendo?! Já não consigo apavorá-lo!”

A coisa, sem ser combatida, sem ser temida, acaba por sentir-se desmoralizada, deixando você em paz. Não é isso o que você quer?!

Se em vez de ser uma neurose de angústia é um vício, um comportamento compulsivo, mau hábito ou qualquer fraqueza contra a qual você tem lutado em vão, experimente a mesma estratégia, que em resumo é composta de:

Não resistência. Não luta. Não tensão. Em linguagem yóguica: ahimsa. Ao contrário: mansidão e relaxamento. Não medo. Não pavor. Ao contrário, fé (shraddha). Não desespero. Ao contrário (ishavarapranidhana), entregar-se todo e tudo a Deus. Não tenha pressa. Nada de ansiedade. Ao contrário, paciência (tapas) e persistência.





Nota

* Assim ela se refere a Jesus. (N. do A.)





Será você uma pessoa tensa?

COMECEI A ESCREVER um capítulo sobre o inimigo número um da humanidade, denunciando-lhe o modo de atuar contra a paz, contra a saúde, contra a segurança de cada ser humano e de toda humanidade junta; denunciando-lhe os múltiplos e tenebrosos crimes, em toda sua virulência; apontando-o pelo que tem feito, faz e ainda fará de mal à humanidade. Seria um capítulo seguindo principalmente o livro Estresse: O homem sob tensão* mas enriquecido por outras obras sobre o assunto. Seria, no entanto, um capítulo que, por seu conteúdo dramático, criaria tensão maior em meu leitor. Resolvi deixá-lo de lado. Não vai fazer falta ao livro. Não vai ajudar você que, se é um homem tenso, já conhece no íntimo e dolorosamente o que é esse inimigo número um de todos nós – o estresse.

O que lhe convém, o que você quer, o que lhe posso dar de melhor, para que seja mais eficaz, mais útil e mesmo indispensável são o remédio e a defesa contra tal adversário.

Se o estresse ou a tensão perturbam de forma tão intensa e desastrosa a regulação neuro-hormonal, se acarreta tantos males, é porque, quando estamos ligados, permanecemos engatilhados para a ação, apesar de exaustos, nos desgastamos mais ainda, mesmo que não tenhamos razões objetivas e presentes para agir. O indivíduo tenso está perenemente predisposto a desencadear a ação ou mesmo está agindo sem motivo. Se descrever os sintomas e as ameaças da crescente tensão no mundo é inconveniente, fazer a descrição dos sinais ou expressões do estado tensional é, entretanto, de toda conveniência. É indispensável tentar um modo de reconhecer quando estamos tensos. Aprendamos isso em primeiro lugar. Depois, vamos aprender as técnicas de abrandar as tensões. Em outras palavras, primeiro, o diagnóstico, depois, a terapia. Uma diagnose precisa já é início de cura. Desejo que você nunca mais seja uma presa de tensão sem o saber e, em sua ignorância, se torne cada vez mais tomado de estresse e, portanto, vulnerável a todos os males que ele provoca no organismo e na vida mental.

Aprenda primeiro a observar os outros. Repare nos olhos. Você pode distinguir quando há um estado tensional nos olhos de seu interlocutor. Repare nas rugas da testa. Observe os estados dos músculos faciais e suas contrações, seus movimentos automáticos (tiques). Fique parado numa calçada qualquer de uma rua bastante movimentada e repare nas fisionomias dos que passam. Veja essa procissão triste de pessoas avassaladas pela tensão. Note como andam apressadas. Na maioria, a pressa é sem necessidade, motivada quase sempre pela tensão muscular e nervosa generalizada. Repare nos gestos dos transeuntes. São gestos maquinais, inconscientes, não determinados por uma exata finalidade. Observe como fumam. Fumam sem parar, sem reparar que estão fumando demais, ou melhor, que estão sendo fumados. Veja como os fumantes – raríssimos não são tensos –, em realidade, são manejados e se comportam como se fossem máquinas. Veja como a delicadeza, a bondade, a suavidade desertaram das calçadas. Repare como trocam palavras, gestos e olhares de ódio dois motoristas que mutuamente se atrapalham no tráfego. Note como aquele senhor faz mil e tantos gestos absolutamente injustificáveis: sentado, uma perna sobre a outra, a repetir chutes no ar; enquanto tamborila os dedos na mesa de trabalho; espicha o queixo como a desafogar-se de um colarinho inexistente, pois veste camisa esporte, sem gola... Já reparou, num restaurante, como as pessoas comem? Olhe só aquele gorducho cortando o bife. De olhos esbugalhados, age como a impedir o bife de fugir do prato. Seu companheiro da mesa não mastiga, engole os pedaços e, para ajudar automaticamente, vai derramando cerveja pela goela abaixo... Observe o tom e a rapidez com que as pessoas falam. Voz aveludada, sem pressa, expressiva, compassada, delicada, comunicativa é coisa que você raramente ouve. Ao contrário, note seu próximo interlocutor. É provável que evidencie seu estado de tensão pela voz metálica e fina, pela má articulação das palavras, pela exuberância de gesticulação, pela participação exagerada dos olhos, da face, das veias do pescoço, da disritmia da respiração, quando não da gagueira aflita... Tudo isso é o que mais se vê em todos, e serve para evidenciar o caráter epidêmico da tensão, bem como a necessidade de um aprendizado do pobre homem moderno para defender-se dessa coisa ruim.

Depois de ter observado os outros, nada melhor do que uma autognose, isto é, conscientização de si mesmo, nesse aspecto fundamental da vida. Agora será mais fácil.

Será que você também está com o hábito de andar apressado, de falar apressado, de comer apressado? Será que, você agora mesmo, está lendo este livro enquanto sua mão inquieta bate no braço da cadeira ou então o agarra com esforço desnecessário? Será que você já perdeu a capacidade de sentar-se e ficar com o corpo quieto, as mãos soltas e paradas, os olhos límpidos expressando paz, o rosto descontraído?!... Você é também um dos que olham para o relógio de forma tão maquinal, que se lhe perguntarem a hora, terá de voltar a ver o mostrador? Será que você tomou consciência dos seus últimos movimentos físicos? Será que, sendo fumante, toma consciência de quando vai acender um novo canudinho de veneno? Procure sentir seu semblante. Ele está agora todo desenrugado? Tome consciência de si mesmo quando come, quando dialoga com alguém, quando anda, quando trabalha, quando repousa (ou melhor, tenta repousar). Você encontra prarthanásana, onde ensino a arte de autodiagnosticar-se quanto à tensão e à arte de autorrelaxar-se, mesmo em pé.

Faça com que seja permanente a auto-observação, procurando diagnosticar se está agindo feito máquina ou como um ser livre; se está agindo mais do que o necessário; se está agindo na direção e na medida certas. Não se descuide de perscrutar-se sempre, para saber se está sendo dominado pela tensão, e se está sendo envolvido no manto negro do bandido – o estresse. Procure ver se está tenso. Não para lastimar-se e contrair-se mais, o que seria infantil e ruim, mas para descobrir o que fazer a fim de safar-se, isto é, descobrir a área do corpo ou de sua vida ou de sua ação, onde é preciso comandar: relaxe! Com a identificação da presença da tensão, você está se defendendo e se libertando também. Sua capacidade de, em certas situações da vida, ver que está ficando tenso é profilática, isto é, pode aumentar sua imunidade contra uma imensidade de incômodos – como enxaqueca, insônia, hipertensão, disritmia, mal-estar indefinido, úlcera gástrica, gastrite, prisão de ventre, rinite alérgica e todos os diferentes modos da tensão que martirizam os seres humanos.

Aprenda a descobrir quais os músculos seus que estão enrijecidos, contraídos, se desgastando à toa e em seu prejuízo. Assim, verá crescer sua imunidade contra o medo, a ansiedade, a angústia, o ódio e a insegurança. Se você se torna capaz de ver que está para estourar, ou melhor ainda, verificar que está acumulando cargas emocionais explosivas, estará automaticamente se defendendo da hiperemotividade, que pode causar desastres, romper amizades, quebrar objetos por incontida fúria, lançar o carro contra outro – por estúpida exasperação –, bater injustamente num filho, ou ofender a pessoa que mais ama, por causa da agressividade mal liberada...

Será que preciso ainda insistir para que você procure, serena e terapeuticamente, diagnosticar suas tensões, seus estados de perigoso e nocivo engatilhamento? Você verá que, aprendendo a fazer isso, dormirá melhor, sua assimilação será maior, seus piores sintomas serão minimizados. Conhecerá então uma vida nova. É como se, até aqui, estivesse na caminhada da vida carregando um fardo pesado, estúpido e inútil, e agora o largasse onde deve ficar, isto é, na beira da estrada. Que desembaraço! Que alívio! Que beleza! Que paz você vai gozar sem essa carapaça frustradora que é a tensão!

Mas ainda melhor do que a auto-observação é a preciosa capacidade de relaxar-se. Vou entregar-lhe um tesouro dos céus. Você está sendo convidado a ingressar no “clube dos felizes”, onde se reúnem pessoas que nunca se desgastam, nunca arrastam cruzes desnecessárias, e sabem, com inteligência e oportunidade, manter um agradável e permanente estado de relaxamento, e assim conseguem atravessar incólumes a procissão dos engatilhados e esgotados pelo estresse.





Nota

* Trata-se de uma publicação da Cultrix (São Paulo) enfeixando onze conferências pronunciadas por famosos psiquiatras, neurologistas, fisiologistas, cardiologistas, sanitaristas e ecologistas norte-americanos, num simpósio da Universidade da Califórnia, em novembro de 1963, sobre estresse na vida contemporânea. (N. do A.)





Os milagres do relaxamento

NUMA CONFERÊNCIA, em Natal, uma senhora, esposa de um almirante, perante um auditório de centenas de pessoas, contou uma história que provocou o maior interesse. Estivera durante os últimos anos sob cuidados psiquiátricos (inclusive na Europa). E, naqueles dias, atravessava uma fase crítica. Havia dois meses não conseguia conciliar o sono. Nem mesmo os psicotrópicos mais fortes, administrados pelo especialista, tinham conseguido fazê-la dormir. Havia seis dias porém que, sem qualquer medicamento, vinha dormindo normalmente. Havia seis dias que eu lhe ensinara a relaxar. O semblante de felicidade com que contava sua libertação convenceu a todos de que, de fato, o “milagre” ocorrera.

Uma das pessoas a quem ajudei é médico ilustre e respeitado professor de medicina. Seu caso vinha sendo assustador para ele, bem como para todos os colegas, especialmente os cardiologistas que dele vinham cuidando. Caso rebelde a todos os tratamentos. Caso inusitado pela variabilidade dos sintomas, pela violência das crises, pelos aspectos surpreendentes de seus sofrimentos. Tratamento na Europa e consultas a luminares americanos, tudo fora inútil. Somente frustrações. O fato de, aconselhado por colegas, procurar ajuda num leigo (eu) bem demonstra seu estado desesperador. Dizer que está totalmente curado é prematuro, mas que já tem novo ânimo e principalmente que aprendeu a controlar, sem qualquer droga, as tremendas crises que o levavam ao pronto-socorro, isso sim posso dizer que é verdade.

Aprendeu a relaxar, e de suas experiências com o relaxamento vou citar algumas por seu valor ilustrativo. Vamos à primeira.

Contou-me certa manhã, na Santa Casa, que, na véspera, tivera a maior demonstração do maravilhoso poder terapêutico do relaxamento. Há anos, numa tarde, fora acometido por uma crise onde se conjugavam dor precordial, taquicardia, suores frios, náuseas, tonteira e uma subida violenta e súbita de pressão. “A minha impressão, professor, é que estava morrendo.” A seu pedido, a enfermeira despachou os clientes que esperavam na antessala, e telefonou alarmada para outro médico (renomada autoridade da medicina brasileira). Não obstante toda a assistência e os melhores esforços de seu antigo professor, passou o resto da tarde “pra morrer”. Só melhorou às nove da noite, tendo alarmado a todos. “Ontem, continuou falando, senti os prenúncios de uma crise que seria bem maior do que aquela. Mas em vez de chamar alguém, tranquei-me no consultório e comecei a comandar um relaxamento. Adormeci e, meia hora depois, despertei sem qualquer sintoma. Perfeitamente normal.”

Desde a primeira entrevista, vi nele um homem deprimido e principalmente fatigado, confessando que tinha medo de tudo e não tinha ânimo para nada. O que queria mesmo era sucumbir e deixar-se esmagar pelo peso imenso de sua existência sem cor, sem luz, sem paz, sem horizontes... “Se o senhor me perguntar, professor, quantas vezes já tive esta coisa horrível que é a dor precordial, poderia dizer-lhe umas cinco mil...” Assim se expressava, exagerando na autopiedade. “Sou um homem vencido e sem força. O senhor não sabe o que é viver assim. De uma esquina para outra eu me fatigo, mas me fatigo mesmo...”

Um dia precisou deixar a cidade e ir a um simpósio de professores de medicina. Tratava-se de compromisso antigo. Ao mesmo tempo, por muitas razões, não podia sair do Rio de Janeiro. Ficou em conflito. Deveres, interesses, compromissos, riscos, proveito, tudo fervilhando em sua torturada alma. Ir ou não ir. Finalmente, foi. “Se eu não fosse, então ficaria desmoralizado definitivamente perante mim mesmo.” E o pior! “Fui tomado de uma gripe. E minhas gripes me arrasam. Todos meus sintomas se agravam quando estou gripado. Vou mesmo para a cama.” Não obstante, todos os riscos de prejuízos profissionais e outros, e ainda mais, atacado de gripe, meteu-se no ônibus para uma aventura que há muitos anos não tinha ânimo de enfrentar: sete horas de viagem. “Embarquei arrasado. Resolvi então relaxar. Relaxei. Adormeci. Descansei a viagem toda e – o inexplicável pelo menos pela medicina – cheguei ao destino totalmente bom da gripe. Trabalhei no seminário e, nesse mesmo dia, viajei de volta. Foram 23 horas ininterruptas de viagens e trabalho e – coisa absolutamente estranha! – não senti o menor cansaço.”

Doutra feita, esse mesmo senhor atravessou uma situação perigosa, realmente alarmante, mesmo para os que têm bons nervos. Enfrentou o perigo, sem ligar para seus famigerados sintomas.

Sua última experiência maravilhosa com o relaxamento foi numa crise cardíaca, em que chegou a despedir-se da família, e fora atendido pelo socorro urgente aos cardíacos. Os medicamentos táticos que os colegas lhe deram de nada serviram, inclusive um tido por infalível. Pois bem, resolveu apelar para seu autotratamento pelo relaxamento. Isolou-se em seu quarto, e, sentado numa poltrona, comandou o relaxamento. Adormeceu, para acordar uma hora depois, inteiramente bom.

Poderia continuar a contar casos e mais casos de cura de enxaqueca, asma, depressão, angústia, insônias, hipertensões... Mas não será melhor logo mostrar o “mapa da mina”?





Relaxe e viva melhor

CHAMA-SE RELAXAMENTO o estado oposto à tensão, isto é, a ausência de contrações e esforços. Estando relaxados os músculos, os nervos que os comandam não transmitem mensagem alguma. Inativos, feito fios elétricos desligados, por eles não transitam impulsos, possibilitando, assim, repouso aos centros nervosos. Nesta condição, os reflexos se acalmam. O corpo fica igual a um aparelho elétrico desligado da corrente.

Hoje é comum que, em vez de comprimidos e injeções, o médico recomende: relaxe. Tem sido receitado para os fatigados, neuróticos, aflitos, insones, cardíacos, dispépticos e convalescentes. Nos casos de doença psicogênica (engendrada pela mente) é frequente o médico receitar: “Vá para casa. Nada de aborrecimentos. Descanse. Relaxe!”

Relaxar é remédio eficaz. Mas como é difícil! É muito mais fácil tomar certas poções abomináveis, ser picado de agulha e engolir bolinhas.

Sem um treinamento pertinaz não é possível relaxar. Digo-o para que o neófito, necessitado e de boa-fé, não venha a se desanimar perante as dificuldades iniciais que vai encontrar. A prática conjugada de técnicas predisponentes ao relaxamento é a maneira que descobri de ajudar meus alunos a vencer tais dificuldades. Quem praticar toda a série não chegará mesmo a sentir qualquer obstáculo. Por outro lado, a contribuição das outras frentes yogaterápicas (filosófica, psicológica, fisiológica, afetiva e moral) ainda mais facilitará a redução do eretismo generalizado do homem tenso e necessitado de repouso.

Relaxar é afrouxar-se. É desligar-se. É abandonar-se. É derramar-se passivamente. Ausentar-se por uns instantes da ansiedade e da luta. Relaxar é economizar esforços. É despojar-se da normal e eficiente estressante autoafirmação. Relaxar é gozar repouso. É amolecer-se. É desfrutar os inefáveis prazeres de fazer absolutamente nada.

Para um neurótico inquieto e ansioso, relaxar é difícil. Compreende-se. Representa um ato de coragem, de crença, de segurança, que exatamente ele não tem. É um entregar-se todo, sem restrições, sem preocupação com um sistema de segurança. E isso é impossível. O neurótico, vivendo exausto, em guarda, a defender-se de misterioso e supostamente presumível assalto, não consegue, com facilidade, mandar dormir todas as sentinelas que tem colocado ao redor para sua defesa. Por outro lado, se o neurótico, insistindo e tirando proveito de outras técnicas, conseguir aprimorar a arte de relaxar, consequente e simultaneamente, estará se libertando da neurose. Estará vencendo o medo, acalmando a ansiedade, ganhando coragem e estímulos de vida.

Na mesma medida que o neurótico sente dificuldades em relaxar, o homem verdadeiramente religioso sente grande possibilidade e enorme prazer. Veja o caso narrado, o da irmã vicentina que se libertou da asma brônquica persistente. Com o religioso, tudo é fácil, pois ele tem fé. Entrega-se todo, facilmente, graças à crença que tem na onipresença, onisciência e onipotência do Ser Supremo. Sabe convictamente que melhores serão os resultados desde que mais intensa e incondicionalmente se abandone nas mãos da Consciência Suprema, remédio para todos os males, solução para todos os problemas, paz para todos os conflitos, alívio para todas as angústias, ajuda em todas as aflições. Ele sabe que Deus é energia para suprir seu esvaziamento, a chave misteriosa com que há de abrir as cadeias de suas servidões, o lenitivo para todos seus ais, a alegria, até então ausente, a coragem para levantar-se e avançar... O verdadeiro religioso faz do relaxamento um ato essencialmente místico, porquanto consiste em doar-se, em oferenda, no altar do Onipresente. Para ele o relaxamento é um modo prático, concreto e vivencial de rezar o “seja feita a Vossa Vontade”. No relaxamento, confia-se em Deus, sabendo que Ele cuidará de tudo melhor do que nosso egozinho, meio esfacelado na luta cotidiana.

Também para o entendido em fisiologia, o relaxamento se torna mais fácil porque ele vê as razões científicas do processo. Não podemos nesta obra deter-nos a explicá-las. Quem tiver curiosidade de saber procure ler em Autoperfeição com Hatha Yoga, na qual apresento um estudo mais ou menos detalhado da fisiologia do sistema nervoso e suas relações com o endócrino. Aqui, posso dizer resumidamente que os centros da base do cérebro, principalmente o hipotálamo, têm a seu cargo a regulação das funções vegetativas, isto é, aquelas como a digestão, tensão sanguínea, ritmo cardíaco, assimilação e muitas outras que nos fogem ao controle voluntário. Tais centros, por muitas causas e razões, inclusive a fadiga, a toxidez, traumas psíquicos e mesmo físicos, se perturbam em seus deveres e passam a emitir comandos neurais bem disparatados e impróprios, mercê de verdadeiros curtos-circuitos ou ligações anômalas, provocando assim mil e um transtornos funcionais, não obstante os órgãos estejam normais. Essas ligações errôneas podem ser corrigidas. Mas a vida de tensão, ao contrário, lhes dá mais condições de ser. Reativam-se. Reafirmam-se. Revigoram-se... O relaxamento pode apagar tais sulcos, desfazer tais ligações, corrigir os defeitos instalados nesses centros nervosos. A dose diária de alguns minutos de inatividade por relaxamento, pouco a pouco, reduzirá não só os efeitos, mas suas próprias causas. De maneira semelhante, o relaxamento atua sobre a glândula hipófise, a maestrina de todo sistema endócrino, e assim consegue fazer as demais glândulas retomarem o ritmo de saúde. Consequentemente, corrigem-se os padecimentos causados pelos excessos ou carências de hormônios no corpo.

Não é apenas sobre os centros de comando neuro-hormonal que o relaxamento atua, corrigindo-os. Age também – com que abençoado alívio – sobre os músculos, glândulas, vísceras e órgãos, sobre os quais tais centros exercem comando. Quando em relaxamento, um órgão se comporta como um soldado dormindo que não cumpre a ordem estapafúrdia de um superior hierárquico meio perturbado. Em outras palavras, os tecidos em estado de yoganidra (letargia) não reagem aos comandos anormais e perturbadores. Ficam quase inertes e amolecidos. E dessa maneira os sintomas não conseguem se manifestar.

Os estudiosos de fisiologia têm razões para acreditar na relaxoterapia. Veem o relaxamento corrigir, por quase inação, os centros de comando. Veem o relaxamento sustar a execução das ordens insanas, partidas dos centros fatigados. Veem o relaxamento agir corretivamente, ao mesmo tempo, sobre toda a escala hierárquica da fisiologia: sobre os que regulam e sobre os regulados. Veem o relaxamento restaurar a homeostase perdida.

Bom, agora você já sabe o quanto é importante relaxar. No capítulo de descrição das várias técnicas, aprenda como relaxar e jamais deixe de praticar um dia sequer.





Parte 3

A CURA: UM ANSEIO AO SEU ALCANCE





O que é curar-se

DESEJO TIRAR DE VOCÊ a ansiedade por curar-se depressa, mostrando o andamento da libertação. A cura demasiado rápida, em muitos casos, é ilusória. Não pretendo para você uma frustradora pseudocura. O que realmente lhe convém é cada vez uma dose maior de sattvidade*, de paz, de integração de si mesmo e maior penetração nos planos mais divinos de seu ser. Barbitúricos e estimulantes químicos também produzem alívios imediatos, por isso mesmo, enganadores, não se falando dos males que acarretam.

A ansiedade pela cura é tão perniciosa como acreditar-se curado, quando se está apenas melhor.

Faça tudo o que aqui for sugerido. Faça-o dentro de suas possibilidades, sem se sentir infeliz pelo que não vier a conseguir, sem se deprimir pelo que não puder fazer. Faça tudo com fé. Evite preocupações, principalmente com o tempo. Lembre-se de que seu distúrbio nervoso levou anos para instalar-se. Não será com dois dias que vai ser superado. Não que seja impossível, pois para Deus nada o é. O que não quero, porém, é que se sinta desanimado com não ficar logo bom, nem surpreendido com as possíveis recaídas e com as naturais dificuldades do caminho. Não desejo ser acusado pelo piedoso embuste de prometer-lhe milagrosa cura radical em pouco tempo. Não desejo uma terapia somente à base de sugestão, não que não acredite nela ou a ela me oponha. Ao contrário, reconheço na sugestão um grande fator a ser aproveitado. Recuso-me, no entanto, a fazer promessas, que, não confirmadas, levariam você a desconfiar de mim e do que ensino. Tenciono evitar-lhe decepção. Não quero repetir o erro de certos autores que, escrevendo para nervosos, fazem promessas tão mirabolantes, fazem as coisas tão fáceis, a ponto de o leitor, depois de algum tempo, tornar-se ainda mais nervoso, porque mesmo seguindo todos os conselhos percebe que não alcançou nem sentiu as melhoras prometidas; não viu, em si, a realização de cura milagrosa anunciada. Uma vez atendi a um jovem funcionário do Banco do Brasil e aluno meu que andara le