Main 1984
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1984

Year:
2009
Language:
portuguese
ISBN 13:
9788580864458
File:
EPUB, 948 KB
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Crisi Della Tradizione Occidentale

Language:
italian
File:
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2

Techne Le Radici Della Violenza

Language:
italian
File:
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Sumário


1984



Posfácios

Erich Fromm (1961)

Ben Pimlott (1989)

Thomas Pynchon (2003)





Parte I





1.


Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam treze horas. Winston Smith, queixo enfiado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.

O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a velhos capachos de pano trançado. Numa das extremidades, um pôster colorido, grande demais para ambientes fechados, estava pregado na parede. Mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis. Winston avançou para a escada. Não adiantava tentar o elevador. Mesmo quando tudo ia bem, era raro que funcionasse, e agora a eletricidade permanecia cortada enquanto houvesse luz natural. Era parte do esforço de economia durante os preparativos para a Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, com seus trinta e nove anos e sua úlcera varicosa acima do tornozelo direito, subiu devagar, parando para descansar várias vezes durante o trajeto. Em todos os patamares, diante da porta do elevador, o pôster com o rosto enorme fitava-o da parede. Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo.

No interior do apartamento, uma voz agradável lia alto uma relação de cifras que de alguma forma dizia respeito à produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa oblonga de metal semelhante a um espelho fosco, integrada à superfície da parede da direita. Winston girou um interruptor e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras continuassem inteligíveis. O volume do instrumento (chamava-se teletela) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. Winston foi para junto da janela: o macacão azul usado como uniforme do Parti; do não fazia mais que enfatizar a magreza de seu corpo frágil, miúdo. Seu cabelo era muito claro, o rosto naturalmente sanguíneo, a pele áspera por causa do sabão ordinário, das navalhas cegas e do frio do inverno que pouco antes chegara ao fim.

Fora, mesmo visto através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Lá embaixo, na rua, pequenos rodamoinhos de vento formavam espirais de poeira e papel picado e, embora o sol brilhasse e o céu fosse de um azul áspero, a impressão que se tinha era de que não havia cor em coisa alguma a não ser nos pôsteres colados por toda parte. Não havia lugar de destaque que não ostentasse aquele rosto de bigode negro a olhar para baixo. Na fachada da casa logo do outro lado da rua, via-se um deles. o GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, enquanto os olhos escuros pareciam perfurar os de Winston. Embaixo, no nível da rua, outro pôster, esse com um dos cantos rasgado, adejava operosamente ao vento, ora encobrindo, ora expondo uma palavra solitária: Socing. Ao longe, um helicóptero, voando baixo sobre os telhados, pairou um instante como uma libélula e voltou a afastar-se a grande velocidade, fazendo uma curva. Era a patrulha policial, bisbilhotando pelas janelas das pessoas. As patrulhas, contudo, não eram um problema. O único problema era a Polícia das Ideias.

Por trás de Winston, a voz da teletela continuava sua lenga-lenga infinita sobre o ferro-gusa e o total cumprimento — com folga — das metas do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Todo som produzido por Winston que ultrapassasse o nível de um sussurro muito discreto seria captado por ela; mais: enquanto Winston permanecesse no campo de visão enquadrado pela placa de metal, além de ouvido também poderia ser visto. Claro, não havia como saber se você estava sendo observado num momento específico. Tentar adivinhar o sistema utilizado pela Polícia das Ideias para conectar-se a cada aparelho individual ou a frequência com que o fazia não passava de especulação. Era possível inclusive que ela controlasse todo mundo o tempo todo. Fosse como fosse, uma coisa era certa: tinha meios de conectar-se a seu aparelho sempre que quisesse. Você era obrigado a viver — e vivia, em decorrência do hábito transformado em instinto — acreditando que todo som que fizesse seria ouvido e, se a escuridão não fosse completa, todo movimento examinado meticulosamente.

Winston mantinha as costas voltadas para a teletela. Era mais seguro; contudo, como sabia muito bem, mesmo as costas de uma pessoa podem ser reveladoras. A um quilômetro de distância, o Ministério da Verdade, onde ele trabalhava, erguia-se vasto e branco por sobre a paisagem encardida. Aquela, pensou com uma espécie de contrariedade difusa, aquela era Londres, principal cidade da Faixa Aérea Um, terceira mais populosa das províncias da Oceânia. Tentou localizar alguma lembrança de infância que lhe dissesse se Londres sempre fora assim. Será que sempre houvera aquele cenário de casas do século XIX caindo aos pedaços, paredes laterais escoradas com vigas de madeira, janelas remendadas com papelão, telhados reforçados com chapas de ferro corrugado, decrépitos muros de jardins adernando em todas as direções? E os lugares bombardeados, onde o pó de gesso dançava no ar e a salgueirinha crescia e se espalhava sobre as pilhas de entulho? E os locais onde as bombas haviam aberto clareiras maiores e onde tinham brotado colônias sórdidas de cabanas de madeira que mais pareciam galinheiros? Não adiantava, ele não conseguia se lembrar. Tudo o que lhe ficara da infância era uma série de tableaux superiluminados, desprovidos de paisagem de fundo e quase sempre ininteligíveis.

O Ministério da Verdade — Miniver, em Novafala* — era extraordinariamente diferente de todos os outros objetos à vista. Era uma enorme estrutura piramidal de concreto branco cintilante, erguendo-se, terraço após terraço, trezentos metros espaço acima. Do lugar onde Winston estava mal dava para ler, escarvados na parede branca em letras elegantes, os três slogans do Partido:

GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORNCIA É FORÇA

Comentava-se que o Ministério da Verdade continha três mil salas acima do nível do solo e ramificações equivalentes abaixo. Em Londres havia somente três outros edifícios de aparência e dimensões equivalentes. Eles tinham o efeito de reduzir tão drasticamente a arquitetura circundante que do telhado das Mansões Victory era possível avistar os quatro ao mesmo tempo. Eram as sedes dos quatro ministérios entre os quais se dividia a totalidade do aparato governamental. O Ministério da Verdade, responsável por notícias, entretenimento, educação e belas-artes. O Ministério da Paz, responsável pela guerra. O Ministério do Amor, ao qual cabia manter a lei e a ordem. E o Ministério da Pujança, responsável pelas questões econômicas. Seus nomes, em Novafala: Miniver, Minipaz, Minamor e Minipuja.

Desses, o realmente apavorante era o Ministério do Amor. O edifício não tinha nenhuma janela. Winston nunca entrara no Ministério do Amor, nunca chegara nem a meio quilômetro de distância. Era impossível entrar no prédio sem uma justificativa oficial, e mesmo nesses casos só transpondo um labirinto de novelos de arame farpado, portas de aço e ninhos ocultos de metralhadora. Mesmo as ruas que levavam até as barreiras externas eram percorridas por guardas com cara de gorila vestindo fardas negras e armados de cassetetes articulados.

Winston virou-se abruptamente. Compusera a própria fisionomia de modo a ostentar a expressão de tranquilo otimismo que convinha ter no rosto sempre que se encarasse a teletela. Atravessou a sala e entrou na minúscula cozinha. Para poder sair do Ministério naquele horário, sacrificara o almoço na cantina; sabia que o único alimento existente na cozinha era um naco de pão escuro que só seria consumido no café da manhã do dia seguinte. Tirou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com uma simples etiqueta branca onde se lia GIM VICTORY. A bebida exalava um odor oleoso enjoativo semelhante ao da aguardente de arroz dos chineses. Winston serviu-se de pouco menos de uma xícara de chá, preparou-se para o impacto e engoliu o líquido como quem toma uma dose de remédio.

No mesmo instante seu rosto ficou rubro e lágrimas começaram a escorrer-lhe dos olhos. A substância parecia ácido nítrico e ao engoli-la a pessoa tinha a sensação de receber um golpe de cassetete na nuca. Logo em seguida, porém, a ardência no ventre esmoreceu e o mundo começou a parecer mais prazeroso. Tirou um cigarro de um maço amarrotado onde estava escrito CIGARROS VICTORY e imprudentemente segurou-o na vertical, o que fez com que o recheio de tabaco caísse ao chão. Na tentativa seguinte teve mais sorte. Voltou para a sala de estar e sentou-se junto a uma mesinha que ficava à esquerda da teletela. Abriu a gaveta da mesa e tirou um porta-penas, um vidro de tinta e um caderno grosso, formato in-quarto, sem nada escrito, de lombada vermelha e capa marmorizada.

Por alguma razão, a teletela da sala de estar ocupava uma posição atípica. Em vez de estar instalada, como de hábito, na parede do fundo, de onde podia controlar a sala inteira, ficava na parede mais longa, oposta à janela. Em um de seus lados havia uma reentrância pouco profunda na qual Winston estava agora instalado e que na época da construção dos apartamentos provavelmente se destinava a abrigar uma estante de livros. Sentando-se na reentrância e permanecendo bem ao fundo, Winston conseguia ficar fora do alcance da teletela, pelo menos no que dizia respeito à visão. Podia ser ouvido, claro, mas enquanto se mantivesse naquela posição não podia ser visto. Em parte fora a topografia pouco usual do aposento que lhe dera a ideia de fazer a coisa que estava prestes a fazer.

Mas essa coisa também lhe fora sugerida pelo caderno que acabara de tirar da gaveta. Era um caderno singularmente bonito. Seu papel acetinado, cor de creme, um pouco amarelecido pela idade, era de um tipo que já não se fabricava havia pelo menos quarenta anos. Dava para imaginar, porém, que o caderno era muito mais velho do que isso. Vira-o exposto na vitrine de uma lojinha de badulaques desmazelada de um setor miserável da cidade (qual setor, exatamente, já não se recordava) e fora no mesmo instante tomado pelo desejo avassalador de possuí-lo. Supunha-se que os membros do Partido não frequentassem estabelecimentos comerciais comuns (“dedicados ao livre comércio”, diziam), mas a regra não era obedecida com rigor porque havia diversas coisas, por exemplo cadarço de sapato e lâmina de barbear, impossíveis de serem obtidas de outra forma. Depois de olhar rapidamente para os dois lados da rua, Winston se enfiara na loja e comprara o caderno por dois dólares e meio. Na ocasião, não tinha consciência de querê-lo para alguma coisa específica. Cheio de culpa, levara-o para casa dentro da pasta. Mesmo sem nada escrito nele, aquele era um bem comprometedor.

A coisa que estava prestes a fazer era começar um diário. Não que isso fosse ilegal (nada era ilegal, visto que já não existiam leis), mas se o fato fosse descoberto era praticamente certo que o punissem com a morte ou com pelo menos vinte e cinco anos de prisão em algum campo de trabalhos forçados. Winston encaixou uma pena no porta-penas e chupou-a para remover a graxa. A pena era um instrumento arcaico, pouco usado inclusive para assinaturas, e ele obtivera aquela, furtivamente e com alguma dificuldade, só por ter sentido que o belo papel creme merecia que escrevessem nele com uma pena de verdade, em vez de ser rabiscado com lápis-tinta. Na verdade, Winston não estava habituado a escrever a mão. Exceto no caso de um ou outro bilhete muito curto, o hábito era ditar tudo ao ditógrafo, o que, evidentemente, não se aplicava à circunstância presente. Mergulhou a caneta na tinta e vacilou por um segundo. Suas entranhas foram percorridas por um estremecimento. Marcar o papel era o ato decisivo. Em letras miúdas, desajeitadas, escreveu:

4 de abril de 1984.

Recostou-se na cadeira. Estava possuído por uma sensação de absoluto desamparo. Para começar, não sabia com certeza se estava mesmo em 1984. Devia ser por aí, visto que estava seguro de ter trinta e nove anos e acreditava ter nascido em 1944 ou 1945; mas nos tempos que corriam era impossível precisar uma data sem uma margem de erro de um ou dois anos.

Para quem, ocorreu-lhe perguntar-se de repente, estava escrevendo aquele diário? Para o futuro, para os não nascidos. Sua mente deu voltas por um momento em torno da data duvidosa na página, depois, com um solavanco, colidiu com um termo em Novafala: duplipensamento. Pela primeira vez deu-se conta da dimensão de seu projeto. Como fazer para comunicar-se com o futuro? Era algo impossível por natureza. Ou bem o futuro seria semelhante ao presente e não daria ouvidos ao que ele queria lhe dizer, ou bem seria diferente e sua iniciativa não faria sentido.

Ficou sentado por algum tempo contemplando estupidamente o papel. A teletela passara a transmitir uma música militar estridente. Estranho, parecia não apenas ter perdido a capacidade de se expressar, como inclusive ter esquecido o que originalmente pretendia dizer. Durante semanas se preparara para aquele momento e jamais lhe passara pela cabeça que pudesse ter necessidade de alguma outra coisa que não coragem. Escrever, em si, seria fácil. Bastava transferir para o papel o monólogo infinito e incansável que ocupava o interior de sua cabeça havia anos, literalmente. Naquele momento, porém, mesmo o monólogo estancara. Para rematar, sua úlcera varicosa começara a comichar, uma coisa torturante. Não ousava coçar-se, porque sempre que fazia isso a úlcera inflamava. Os segundos se sucediam. Só estava consciente da página vazia diante dele, da comichão na pele acima do tornozelo, do clangor da música e de uma leve tontura provocada pelo gim.

De repente começou a escrever de puro pânico, percebendo apenas de modo impreciso o que ia anotando. Sua letra miúda, infantil, se espalhava pela página em linhas incertas, abandonando primeiro as maiúsculas, depois até mesmo os pontos finais.

4 de abril de 1984. Ontem à noite cineminha. Só filme de guerra. Um muito bom do bombardeio de um navio cheio de refugiados em algum lugar do Mediterrâneo. Público achando muita graça nos tiros dados num gordão que tentava nadar para longe perseguido por um helicóptero. primeiro ele aparecia chafurdando na água como um golfinho, depois já estava todo esburacado e o mar em volta ficou rosa e ele afundou tão de repente que parecia que a água tinha entrado pelos buracos. público urrando de tanto rir quando ele afundou. depois aparecia um bote salva-vidas cheio de crianças com um helicóptero pairando logo acima. tinha uma mulher de meia-idade talvez uma judia sentada na proa com um garoto de uns três anos no colo. garoto chorando de medo e escondendo a cabeça entre os seios dela como se tentasse se enterrar nela e a mulher envolvendo o garoto com os braços e tentando acalmá-lo só que ela mesma estava morta de medo, e o tempo todo cobria o garoto o máximo possível como se achasse que seus braços iam conseguir protegê-lo das balas. aí o helicóptero largou uma bomba de vinte quilos bem no meio deles clarão terrível e o bote virou um monte de gravetos. depois uma tomada sensacional de um braço de criança subindo subindo pelo ar um helicóptero com uma câmera no nariz deve ter acompanhado o braço subindo e muita gente aplaudiu nos assentos do partido mas uma mulher sentada no meio dos proletas de repente começou a criar caso e a gritar que eles não tinham nada que mostrar aquilo não na frente das crianças não deviam não era direito não na frente das crianças não era até que a polícia botou ela botou pra fora acho que não aconteceu nada com ela ninguém dá a mínima para o que os proletas falam típica reação de proleta eles nunca...

Winston parou de escrever, em parte porque estava com cãibra. Não sabia o que o levara a derramar aquela torrente de idiotices. Mas o estranho era que enquanto ele fazia aquilo uma lembrança completamente diferente se definira em sua mente, a tal ponto que quase decidira registrá-la. Fora por causa desse outro incidente, percebia agora, que tomara a decisão repentina de ir para casa e começar o diário.

Acontecera naquela manhã no Ministério, se é que se podia dizer que algo assim tão nebuloso pudesse ser chamado de acontecimento.

Eram quase onze da manhã, e no Departamento de Documentação, onde Winston trabalhava, já arrastavam as cadeiras para fora das estações de trabalho para reuni-las no centro do salão, na frente da grande teletela, nos preparativos para os Dois Minutos de Ódio. Winston estava a ponto de se instalar em uma das fileiras centrais, quando de repente duas pessoas a quem conhecia de vista mas com quem nunca trocara uma só palavra entraram no aposento. Uma delas era uma garota com quem muitas vezes cruzava nos corredores. Não sabia seu nome, porém sabia que trabalhava no Departamento de Ficção. Supunha — já que a vira algumas vezes com as mãos sujas de óleo e munida de uma chave inglesa — que tivesse uma função de caráter mecânico em alguma das máquinas romanceadoras. Era uma garota de ar provocador, de uns vinte e sete anos, abundante cabelo preto, rosto sardento e movimentos bruscos, atléticos. Trazia uma faixa estreita, escarlate, símbolo da Liga Juvenil Antissexo, enrolada na cintura por cima do macacão, de modo a evidenciar sutilmente as formas harmoniosas de seus quadris. Winston sentira aversão por ela desde o primeiríssimo momento em que a vira. Sabia a razão. Era por causa da atmosfera de quadras de hóquei, banhos frios, caminhadas comunitárias e mente impoluta que, por alguma razão, a impregnava. Sentia aversão por quase todas as mulheres, sobretudo as jovens e bonitas. Os adeptos mais fanáticos do Partido, os devoradores de slogans, os espiões amadores e os farejadores de inortodoxia eram sempre mulheres, sobretudo as jovens. Mas aquela garota em especial lhe dava a impressão de ser mais perigosa do que a maioria. Numa ocasião em que os dois haviam se cruzado no corredor ela lhe dirigira um rápido olhar enviesado que parecera perfurar seu corpo e por um instante o deixara tomado do mais profundo horror. Passara-lhe pela cabeça, inclusive, que ela devia ser uma agente da Polícia das Ideias. Isso, na verdade, era muito improvável. Mesmo assim ele continuava a sentir um desconforto esquisito, uma mistura de medo e hostilidade, sempre que ela estava por perto.

A outra pessoa era um homem chamado O’Brien, membro do Núcleo do Partido e ocupante de um cargo tão importante e remoto que Winston fazia apenas uma vaga ideia de qual fosse sua natureza. Por um momento, ao ver o macacão negro de um membro do Núcleo do Partido se aproximar, o grupo de pessoas que cercavam as cadeiras ficou em silêncio. O’Brien era um homem grande, corpulento, de pescoço grosso e rosto rude, jocoso, brutal. A despeito da aparência imponente, seu estilo não era desprovido de sedução. Tinha um jeito de reposicionar os óculos no alto do nariz que era curiosamente desarmante — de um modo impossível de definir, curiosamente civilizado. Era um gesto que, caso ainda fosse possível alguém pensar nestes termos, talvez lembrasse um nobre inglês do século XVIII oferecendo a caixa de rapé. Winston cruzara O’Brien uma dúzia de vezes, talvez, ao longo de um número quase igual de anos. Sentia-se intensamente atraído por ele, e não apenas porque o contraste entre seus modos educados e seu físico de combatente de elite o intrigasse. Era muito mais em razão de uma crença secreta — talvez nem chegasse a ser crença, talvez fosse apenas uma esperança —: a de que a ortodoxia política de O’Brien não era impecável. Alguma coisa no rosto do outro o fazia acreditar piamente nisso. E, de novo, talvez não fosse nem inortodoxia o que estava escrito naquele rosto, mas tão só inteligência. Por isso ou por aquilo, O’Brien parecia ser uma pessoa com quem se podia conversar, se por acaso fosse possível lograr a teletela e ficar a sós com ele. Winston nunca fizera o menor esforço para tirar sua dúvida a limpo: na verdade, não havia como fazê-lo. Naquele momento O’Brien dirigiu os olhos para o relógio de pulso, viu que já eram quase onze horas e, óbvio, resolveu ficar no Departamento de Documentação até o término dos Dois Minutos de Ódio. Ocupou um assento na mesma fileira em que estava Winston, a dois lugares de distância. Uma mulher franzina, de cabelo ruivo, que trabalhava no cubículo vizinho ao de Winston, estava sentada entre os dois. A garota de cabelo escuro estava logo atrás.

Pouco depois um guincho pavoroso, estridente, como o som produzido por alguma máquina monstruosa girando sem lubrificação, escapou da vasta teletela posicionada no fundo da sala. Era um barulho que mexia com os nervos da pessoa e arrepiava os cabelos da nuca. O Ódio havia começado.

Como de costume, o rosto de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira na tela. Ouviram-se assobios em vários pontos da plateia. A mulher ruiva e franzina soltou um guincho em que medo e repugnância se fundiam. Goldstein era o renegado e apóstata que um dia, muito tempo antes (quanto tempo, exatamente, era coisa de que ninguém se lembrava), fora uma das figuras destacadas do Partido, quase tão importante quanto o próprio Grande Irmão, e que depois se entregara a atividades contrarrevolucionárias, fora condenado à morte e em seguida fugira misteriosamente e sumira do mapa. A programação de Dois Minutos de Ódio variava todos os dias, mas o principal personagem era sempre Goldstein. Ele era o traidor original, o primeiro conspurcador da pureza do Partido. Todos os crimes subsequentes contra o Partido, todas as perfídias, sabotagens, heresias, todos os desvios eram resultado direto de sua pregação. Desta ou daquela maneira ele continuava vivo e maquinando seus conluios: talvez em algum lugar do outro lado do mar, talvez até sob a proteção de seus benfeitores estrangeiros — era o que se dizia ocasionalmente — em algum esconderijo na própria Oceânia.

O diafragma de Winston estava contraído. Ele era incapaz de olhar para o rosto de Goldstein sem ser invadido por uma dolorosa combinação de emoções. Era um rosto judaico chupado, envolto por uma vasta lanugem de cabelo branco e munido de um pequeno cavanhaque — um rosto inteligente e apesar disso, por alguma razão, inerentemente desprezível, com uma espécie de tolice senil no longo nariz esguio, onde se equilibrava um par de óculos já perto da ponta. Parecia a cara de uma ovelha, e a voz, também, tinha uma qualidade algo ovina. Goldstein bradava seu discurso envenenado de sempre sobre as doutrinas do Partido — um discurso tão exagerado e perverso que não servia nem para enganar uma criança, e ao mesmo tempo suficientemente plausível para fazer com que o ouvinte fosse tomado pela sensação alarmada de que outras pessoas menos equilibradas do que ele próprio poderiam ser iludidas pelo que estava sendo afirmado. Goldstein atacava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata celebração da paz com a Eurásia, defendia a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída — e tudo isso num rápido discurso polissilábico que era uma espécie de paródia do estilo habitual dos oradores do Partido, inclusive com palavras em Novafala: mais palavras em Novafala, aliás, do que qualquer membro do Partido costumava usar na vida real. E o tempo todo, para que ninguém alimentasse uma dúvida sequer sobre a realidade encoberta pela lenga-lenga especiosa de Goldstein, por trás de sua cabeça, na teletela, desfilavam as colunas intermináveis do exército eurasiano — fileira após fileira de homens de aspecto sólido e fisionomias asiáticas desprovidas de expressão, que emergiam na superfície da tela e desapareciam, para ser substituídos por outros exatamente iguais. O rumor abafado e ritmado das botas dos soldados formava o pano de fundo para a voz de trombone de Goldstein.

Não fazia nem meio minuto que o Ódio havia começado e metade das pessoas presentes no salão já começara a emitir exclamações incontroláveis de fúria. Impossível tolerar a visão do rosto ovino repleto de empáfia na tela e o poder aterrador do exército eurasiano logo atrás. Além disso, a visão ou mesmo a ideia de Goldstein produziam automaticamente medo e ira. Ele era um objeto de ódio ainda mais constante do que a Eurásia ou a Lestásia, já que sempre que a Oceânia entrava em guerra com uma dessas potências, costumava estar em paz com a outra. O estranho, porém, era que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todos, embora todos os dias, e mil vezes por dia, nos palanques, nas teletelas, nos jornais, nos livros, suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, expostas ao escárnio geral como o lixo lamentável que eram, apesar disso tudo, o ritmo de crescimento de sua influência parecia nunca arrefecer. Sempre havia novos trouxas à espera de ser seduzidos por ele. Não se passava um dia sem que espiões e sabotadores agindo a seu serviço fossem desmascarados pela Polícia das Ideias. Ele era o comandante de um vasto exército nas sombras, uma rede clandestina de conspiradores dedicados à derrubada do Estado. A Confraria, esse era seu suposto nome. Também circulavam histórias sobre um livro terrível, um compêndio de todas as heresias, do qual Goldstein era o autor e que circulava clandestinamente aqui e ali. Um livro sem título. Quando queriam referir-se a ele, as pessoas diziam apenas o livro. Mas só se tomava conhecimento dessas coisas por intermédio de boatos imprecisos. Nem a Confraria nem o livro eram assuntos que um membro comum do Partido estivesse inclinado a mencionar se pudesse evitá-lo.

Em seu segundo minuto, o Ódio virou desvario. As pessoas pulavam em seus lugares, gritando com toda a força de seus pulmões no esforço de afogar a exasperante voz estentórea que saía da tela. A mulher esguia e ruiva adquirira uma tonalidade rosa-vivo, e sua boca se abria e se fechava como a boca de um peixe fora d’água. Mesmo o rosto severo de O’Brien ficara rubro. Ele estava sentado muito ereto na cadeira; seu peito vigoroso estufava e estremecia como se estivesse enfrentando uma vaga. A garota de cabelo escuro sentada atrás de Winston começara a gritar “Porco! Porco! Porco!”, e de repente apanhou um pesado dicionário de Novafala e arremessou-o contra a tela. O livro bateu no nariz de Goldstein e despencou: a voz, inexorável, prosseguia. Num momento de lucidez, Winston constatou estar berrando junto com os outros e percebeu que golpeava violentamente a trave de sua cadeira com os calcanhares. O mais horrível dos Dois Minutos de Ódio não era o fato de a pessoa ser obrigada a desempenhar um papel, mas de ser impossível manter-se à margem. Depois de trinta segundos, já não era preciso fingir. Um êxtase horrendo de medo e sentimento de vingança, um desejo de matar, de torturar, de afundar rostos com uma marreta, parecia circular pela plateia inteira como uma corrente elétrica, transformando as pessoas, mesmo contra sua vontade, em malucos a berrar, rostos deformados pela fúria. Mesmo assim, a raiva que as pessoas sentiam era uma emoção abstrata, sem direção, que podia ser transferida de um objeto para outro como a chama de um maçarico. Assim, em determinado instante a fúria de Winston não estava nem um pouco voltada contra Goldstein, mas, ao contrário, visava o Grande Irmão, o Partido e a Polícia das Ideias; e nesses momentos seu coração se solidarizava com o herege solitário e ridicularizado que aparecia na tela, único guardião da verdade e da saúde mental num mundo de mentiras. Isso não o impedia de, no instante seguinte, irmanar-se àqueles que o cercavam; quando isso acontecia, tudo o que era dito a respeito de Goldstein lhe parecia verdadeiro. Nesses momentos, sua repulsa secreta pelo Grande Irmão se transformava em veneração, e o Grande Irmão adquiria uma estatura monumental, transformava-se num protetor destemido, firme feito rocha para enfrentar as hordas da Ásia, e Goldstein, a despeito de seu isolamento, de sua vulnerabilidade e da incerteza que cercava inclusive sua existência, virava um mago sinistro, capaz de destruir a estrutura da civilização com o mero poder de sua voz.

Em algumas ocasiões chegava a ser possível alterar o objeto do próprio ódio por meio de um ato voluntário. De chofre, graças a um esforço violento como aquele a que recorremos para erguer a cabeça do travesseiro durante um pesadelo, Winston conseguia transferir seu ódio ao rosto que aparecia na tela para a garota de cabelo escuro sentada logo atrás. Alucinações vívidas, belas, passavam-lhe pela mente. Haveria de golpeá-la até a morte com um cassetete de borracha. Haveria de amarrá-la nua a uma estaca e depois alvejá-la com flechas, como são Sebastião. Haveria de violentá-la e no momento do clímax cortaria sua garganta. De mais a mais, agora percebia mais claramente que antes por que a odiava. Odiava-a porque era jovem e bela e assexuada, porque queria ir para a cama com ela e nunca o faria, porque em torno de sua adorável cintura flexível que parecia lhe pedir que a envolvesse com o braço havia apenas a odiosa faixa escarlate, símbolo agressivo de castidade.

O Ódio chegou ao clímax. A voz de Goldstein se transformara efetivamente num balido de ovelha e por um instante seu rosto assumiu um semblante de ovelha. Depois o semblante de ovelha se dissolveu e foi substituído pelo rosto de um soldado eurasiano que parecia avançar, imenso e terrível, metralhadora roncando, como se pretendesse saltar para fora da superfície da tela, de modo que algumas pessoas sentadas na primeira fila se inclinaram para trás nos assentos. No mesmo instante, porém, levando todos os presentes a suspirar aliviados, o personagem hostil desapareceu para dar lugar ao rosto do Grande Irmão, cabelo preto, bigode preto, cheio de força e misteriosa calma, e tão imenso que quase enchia a tela inteira. Ninguém ouvia o que o Grande Irmão estava dizendo. Eram apenas algumas palavras de estímulo, o tipo de palavras pronunciadas no fragor da batalha, impossíveis de distinguir isoladamente, mas que restauram a confiança pelo mero fato de serem ditas. Em seguida o rosto do Grande Irmão se esfumou outra vez e os três slogans do Partido, em letras maiúsculas, ocuparam seu lugar.

GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORNCIA É FORÇA

O rosto do Grande Irmão, contudo, deu a impressão de permanecer na tela por vários segundos mais, como se o impacto que causara nas retinas de todos os presentes fosse vívido demais para desaparecer imediatamente. A mulher esguia e ruiva se jogara para a frente, apoiando-se no encosto da cadeira diante dela. Com um murmúrio trêmulo que parecia dizer “Meu Salvador!”, estendeu os braços para a tela. Em seguida afundou o rosto nas mãos. Era visível que fazia uma oração.

Nesse momento todo o grupo ali presente prorrompeu num canto grave, lento, ritmado, em que entoava “g-i!... g-i!... g-i!…” — uma e outra vez, muito devagar, com uma longa pausa entre o “g” e o “i” —, um som grave, em surdina, às vezes curiosamente feroz, em cujo segundo plano parecia ouvir-se o ruído de pés descalços golpeando o chão e o latejar de tantãs. Aquilo continuou por uns trinta segundos. Tratava-se de um refrão ouvido com frequência em momentos de emoção avassaladora. Em parte era uma espécie de hino à sabedoria e à majestade do Grande Irmão, mas antes de mais nada era um ato de auto-hipnose, um embotamento voluntário da consciência por intermédio de um ruído rítmico. Winston teve a sensação de gelar por dentro. Durante os Dois Minutos de Ódio ele não conseguia deixar de se integrar ao delírio coletivo, porém aquela entonação sub-humana de “g-i!... g-i!...” sempre o deixava horrorizado. Claro que cantava com os outros: impossível não fazê-lo. Dissimular os próprios sentimentos, manter a expressão do rosto sob controle, fazer o que os outros fazem: tudo reações instintivas. Mas houve um espaço de uns dois segundos durante o qual a expressão de seus olhos talvez o tivesse traído. E foi exatamente nesse instante que a coisa significativa aconteceu — se é que de fato aconteceu.

Por um instante seus olhos se encontraram com os de O’Brien. O’Brien se erguera de seu assento. Tirara os óculos e estava recolocando-os no nariz naquele seu gesto característico. Mas houve uma fração de segundo em que os olhos dos dois se encontraram, e enquanto isso acontecia Winston compreendeu — sim, compreendeu! — que O’Brien pensava o mesmo que ele. Uma mensagem inequívoca fora transmitida. Era como se as duas mentes, de Winston e O’Brien, tivessem se aberto e os pensamentos fluído de um para o outro através dos olhos. “Estou com você”, O’Brien parecia estar dizendo. “Sei exatamente o que está sentindo. Sei tudo sobre seu desprezo, seu ódio, seu asco. Mas não se preocupe, estou com você!” Em seguida o clarão de entendimento se dissipou e o rosto de O’Brien voltou a ser tão impenetrável quanto os de todos os outros.

Isso fora tudo, e ele já não estava seguro quanto ao que acontecera. Incidentes como aquele nunca tinham sequelas. Eles só serviam para manter viva, nele, a fé, ou a esperança, de que outros além dele fossem inimigos do Partido. Talvez, afinal, os boatos sobre a existência de vastas conspirações clandestinas fossem verdadeiros — talvez a Confraria realmente existisse! Era impossível, apesar da infinidade de prisões e confissões e execuções, ter certeza de que a Confraria não passava de invenção. Havia dias em que ele acreditava em sua existência, outros em que não acreditava. Nada confirmava o fato, além de vislumbres passageiros que talvez significassem alguma coisa, talvez não significassem nada: fragmentos de conversa ouvidos de forma difusa, rabiscos pouco legíveis nas paredes dos lavatórios — uma vez, inclusive, ao presenciar o encontro de dois estranhos, um mínimo movimento de mãos que lhe parecera um sinal de reconhecimento. Tudo não passava de hipótese: muito provavelmente imaginara aquilo. Voltara para sua estação de trabalho sem tornar a olhar para O’Brien. A ideia de levar adiante aquele contato passageiro nem lhe passara pela cabeça. Teria sido perigoso ao extremo, mesmo que soubesse como agir para fazê-lo. Por um segundo, dois segundos, ele e O’Brien haviam trocado um olhar equívoco, e ponto final. Mas mesmo isso era um acontecimento memorável na solidão cerrada em que eram obrigados a viver.

Winston saiu de seu torpor e endireitou o corpo na cadeira. Soltou um arroto. O gim em seu estômago começava a subir.

Seus olhos voltaram a fitar a página. Constatou que durante o tempo em que ficara ali sentado sentindo-se desamparado continuara a escrever, como numa ação automática. E já não era a letra retraída e desajeitada de antes. A pena deslizara voluptuosamente pelo papel macio, grafando em letras de forma graúdas e nítidas:

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

vezes sem fim, enchendo metade de uma página.

Não conseguiu evitar uma fisgada de pânico. Um absurdo, já que escrever aquelas palavras específicas não era mais perigoso do que o ato inicial de começar um diário; por um momento, porém, teve a tentação de arrancar as páginas inutilizadas e deixar todo o projeto de lado.

Não o fez, porém, porque sabia que era inútil. O fato de escrever ou deixar de escrever ABAIXO O GRANDE IRMÃO era irrelevante. Não fazia a menor diferença levar o diário adiante ou não. De toda maneira, a Polícia das Ideias haveria de apanhá-lo. Cometera — e teria cometido, mesmo que jamais houvesse aproximado a pena do papel — o crime essencial que englobava todos os outros. Pensamento-crime, eles o chamavam. O pensamento-crime não era uma coisa que se pudesse disfarçar para sempre. Você até conseguia se esquivar durante algum tempo, às vezes durante anos, só que mais cedo ou mais tarde, com toda a certeza, eles o agarrariam.

Era sempre à noite — as prisões invariavelmente aconteciam à noite. O tranco súbito que arranca do sono, a mão brutal sacudindo o ombro, as luzes ofuscando os olhos, o círculo de rostos impiedosos em torno da cama. Na vasta maioria dos casos não havia julgamento, não havia registro de prisão. As pessoas simplesmente desapareciam, sempre durante a noite. Seus nomes eram removidos dos arquivos, todas as menções a qualquer coisa que tivessem feito eram apagadas, suas existências anteriores eram negadas e em seguida esquecidas. Você era cancelado, aniquilado. Vaporizado, esse o termo costumeiro.

Por um momento, foi tomado por uma espécie de histeria. Começou a escrever, em garranchos apressados e sem capricho:

vão me dar um tiro não me incomodo vão me dar um tiro na nuca não me incomodo abaixo o grande irmão eles sempre atiram na nuca não me incomodo abaixo o grande irmão...

Recostou-se outra vez na cadeira, um pouco envergonhado de si mesmo, e largou a pena. No instante seguinte estremeceu com violência. Alguém batia à porta.

Já!? Ficou ali sentado, imóvel feito um rato, na esperança inútil de que a pessoa junto à porta fosse embora depois da primeira tentativa. Mas não, bateram outra vez. O pior de tudo seria protelar. Seu coração batia como um tambor, porém seu rosto provavelmente estava desprovido de expressão, resultado de um longo hábito. Ergueu-se e se aproximou da porta arrastando os pés.

*


* Novafala era o idioma oficial da Oceânia. Para saber mais sobre sua estrutura e etimologia, ver Apêndice.





2.


Quando apoiou a mão na maçaneta, Winston percebeu que havia deixado o diário aberto em cima da mesa. Cobrindo o papel com letras garrafais, as frases ABAIXO O GRANDE IRMÃO quase podiam ser lidas do outro lado do aposento. Um descuido de uma estupidez inconcebível. Contudo, Winston se deu conta de que mesmo em pânico ele não quisera borrar o papel creme fechando o diário com a tinta ainda úmida.

Respirou fundo e abriu a porta. No mesmo instante sentiu uma onda cálida de alívio percorrer-lhe o corpo. Uma mulher pálida, de aparência emaciada, cabelo ralo e rosto enrugado estava parada do lado de fora.

“Ah, camarada”, começou ela, num tom de voz monótono e queixoso, “tive a impressão de ouvir você chegar. Será que poderia ir até a minha casa dar uma olhada na pia da cozinha? Está entupida e...”

Era a sra. Parsons, mulher de um vizinho de andar. (“Sra.” era uma forma de tratamento pouco favorecida pelo Partido — a ideia era chamar todo mundo de “camarada” —, porém com certas mulheres seu uso era quase instintivo.) Ela devia ter uns trinta anos, mas aparentava muito mais. Dava a impressão de ter poeira acumulada nas rugas do rosto. Winston a seguiu pelo corredor. Esses consertos de amador eram uma amolação quase diária. Os apartamentos das Mansões Victory eram antigos, haviam sido construídos em 1930, por volta disso, e estavam caindo aos pedaços. O reboco do teto e das paredes vivia despencando, o encanamento estourava com qualquer geada mais forte, havia goteiras no teto sempre que nevava, o sistema de calefação costumava ser regulado em potência baixa, isso quando não permanecia desligado por razões de economia. Os consertos que os moradores não conseguiam fazer sozinhos precisavam ser autorizados por comitês inacessíveis, capazes de retardar por dois anos uma singela troca de vidraça.

“Claro que só estou pedindo sua ajuda porque o Tom não está em casa”, disse a sra. Parsons sem mais explicações.

O apartamento dos Parsons era maior que o de Winston, e sua esqualidez era de outro tipo. Tudo tinha um aspecto surrado, maltratado, como se um animal grande e violento tivesse acabado de passar por ali. Apetrechos esportivos — bastões de hóquei, luvas de boxe, uma bola de futebol furada, um calção suado pelo avesso — estavam largados pelo chão, e sobre a mesa via-se uma confusão de pratos sujos e livros de exercícios com as orelhas dobradas. As paredes ostentavam bandeiras vermelhas da Liga da Juventude e dos Espiões e um pôster em tamanho natural do Grande Irmão. Sentia-se o tradicional cheiro de repolho cozido comum ao prédio inteiro, só que temperado por um fedor ainda mais pronunciado de suor, que — percebia-se à primeira farejada, embora fosse difícil explicar por quê — era o suor de uma pessoa ausente no momento. Em outro cômodo alguém utilizava um pente e um pedaço de papel higiênico para tentar acompanhar o ritmo da marcha militar que continuava saindo da teletela.

“São as crianças”, disse a sra. Parsons, lançando um olhar um tanto apreensivo para a porta. “Ainda não puseram os pés fora de casa hoje. E claro que...”

Ela tinha o hábito de deixar as frases pela metade. A pia da cozinha estava cheia quase até a borda de uma água imunda e esverdeada, cujo cheiro de repolho era simplesmente insuportável. Winston se ajoelhou e examinou o cotovelo do encanamento. Detestava ter de usar as mãos e detestava ter de se abaixar, coisa que sempre podia provocar um acesso de tosse. A sra. Parsons observava sem saber o que fazer.

“Claro que se o Tom estivesse em casa, resolvia o problema num instante”, disse ela. “Ele adora fazer esse tipo de coisa. É muito habilidoso, o Tom.”

Parsons trabalhava com Winston no Ministério da Verdade. Era um sujeito gordinho mas diligente, de uma estupidez paralisante, um amontoado de entusiasmos imbecis — um daqueles burros de carga absolutamente submissos e dedicados de quem dependia, mais até que da Polícia das Ideias, a estabilidade do Partido. Aos trinta e cinco anos, acabara de ser excluído, contra a vontade, da Liga da Juventude, e antes de ingressar na Liga da Juventude conseguira permanecer com os Espiões um ano mais que a idade prevista nos estatutos. No Ministério, desempenhava alguma função subalterna que não tivesse a inteligência como requisito; por outro lado, porém, era figura de proa no Comitê Esportivo e em todos os demais comitês responsáveis pela organização de caminhadas comunitárias, manifestações espontâneas, campanhas de economia e atividades voluntárias em geral. Com discreto orgulho, entre uma e outra baforada de seu cachimbo, anunciava para quem quisesse ouvi-lo que tivera participações no Centro Comunitário toda santa noite ao longo dos últimos quatro anos. Um cheiro opressivo de suor, uma espécie de testemunho inconsciente da vida extenuante que ele levava, acompanhava-o aonde quer que fosse e impregnava o lugar mesmo depois de ele ter saído.

“A senhora tem uma chave inglesa?”, indagou Winston, tentando soltar a rosca do cotovelo.

“Uma chave inglesa”, repetiu a sra. Parsons, tornando-se no mesmo instante invertebrada. “Não sei, não sei. Pode ser que as crianças...”

Ouviu-se um tropel de botinas e outra clarinada no pente quando as crianças irromperam na sala. A sra. Parsons apareceu com a chave inglesa. Winston deixou escorrer a água e tirou com repugnância o chumaço de cabelo humano que entupira o cano. Limpou os dedos o melhor que pôde na água fria da torneira e voltou para o outro aposento.

“Mãos ao alto!”, berrou uma voz selvagem.

Um garoto de nove anos, bonito e com cara de brigão surgira detrás da mesa e o ameaçava com uma pistola de brinquedo, enquanto sua irmã menor, uns dois anos mais jovem, imitava-o utilizando um pedaço de madeira. Ambos trajavam os calções azuis, as camisetas cinza e os lenços vermelhos de amarrar no pescoço que compunham o uniforme dos Espiões. Winston ergueu as mãos acima da cabeça, mas com uma sensação incômoda — o jeito do menino era tão malévolo que a coisa não parecia ser de brincadeira.

“Você é um traidor!”, gritou o menino. “É um criminoso do pensamento! Um espião eurasiano! Eu acabo com você, vaporizo você, mando você para as minas de sal!”

De repente as duas crianças estavam pulando em volta dele, gritando “Traidor!” e “Criminoso do pensamento!”, a garotinha imitando o irmão em todos os movimentos. Por alguma razão aquilo era um pouco apavorante, como as cambalhotas dos filhotes de tigre que não tardarão a crescer e tornar-se devoradores de homens. Havia uma espécie de ferocidade calculista nos olhos do garoto, um desejo bastante óbvio de bater ou dar chutes em Winston, e a consciência de que não faltava muito para alcançar o tamanho suficiente para fazer isso. Ainda bem que ele não tinha nas mãos um revólver de verdade, pensou Winston.

Os olhos da sra. Parsons iam nervosamente de Winston para as crianças e destas para ele. À luz mais clara da sala de estar, ele reparou, não sem interesse, que de fato havia poeira acumulada nas rugas do rosto dela.

“Eles fazem tanta algazarra”, disse ela. “Estão desapontados porque não puderam ver o enforcamento. Estou ocupada demais para levá-los e o Tom não vai chegar a tempo do trabalho.”

“Por que a gente não pode ir ver o enforcamento?”, rugiu o garoto com seu vozeirão.

“A gente quer ir no enforcamento! A gente quer ir no enforcamento!”, cantarolou a garotinha, que continuava pulando ao redor de Winston.

Alguns prisioneiros eurasianos, praticantes de crimes de guerra, seriam enforcados no Parque naquela noite, lembrou-se Winston. Isso acontecia aproximadamente uma vez por mês, e era um espetáculo muito popular. As crianças faziam questão de que os pais as levassem para assistir. Despediu-se da sra. Parsons e avançou para a porta. Mas não dera seis passos no corredor quando algo o atingiu na nuca com uma pancada extremamente dolorosa. Foi como ser espetado com um pedaço de arame incandescente. Winston virou-se a tempo de ver a sra. Parsons arrastando o filho apartamento adentro enquanto o menino guardava um estilingue no bolso.

“Goldstein!”, trovejou o garoto enquanto a mãe fechava a porta. Mas o que mais impressionou Winston foi o olhar de pânico impotente estampado no rosto cinzento da mulher.

De volta a seu apartamento, passou depressa diante da teletela e tornou a sentar-se à mesa, ainda massageando a nuca. A teletela já não transmitia música. Em vez disso, uma voz militar sincopada lia, com uma espécie de prazer atroz, uma descrição dos armamentos da nova Fortaleza Flutuante que acabara de ser ancorada entre a Islândia e as Ilhas Faroe.

Com crianças daquele tipo, pensou Winston, aquela infeliz mulher deve levar uma vida de terror. Mais um ou dois anos e eles começariam a vigiá-la noite e dia em busca do menor sintoma de inortodoxia. Quase todas as crianças eram horríveis atualmente. O pior de tudo era que, por meio de organizações como a dos Espiões, elas eram transformadas em selvagens incontroláveis de maneira sistemática — e nem assim mostravam a menor inclinação para rebelar-se contra a disciplina do Partido. Pelo contrário, adoravam o Partido e tudo que se relacionasse a ele. As canções, os desfiles, as bandeiras, as marchas, os exercícios com rifles de brinquedo, as palavras de ordem, o culto ao Grande Irmão — tudo isso, para elas, era uma espécie de jogo sensacional. Toda a sua ferocidade era voltada para fora, dirigida contra os inimigos do Estado, contra os estrangeiros, os traidores, os sabotadores, os criminosos do pensamento. Chegava a ser natural que as pessoas com mais de trinta anos temessem os próprios filhos. E com razão, pois era raro que uma semana se passasse sem que o Times trouxesse um parágrafo descrevendo como um pequeno bisbilhoteiro — “herói mirim” era a expressão usada com mais frequência — ouvira às escondidas os pais fazerem algum comentário comprometedor e os denunciara à Polícia das Ideias.

A ferroada do projétil lançado pelo estilingue já não doía. Winston pegou a caneta sem muito ânimo, perguntando-se se encontraria alguma outra coisa para escrever no diário. De repente voltou a pensar em O’Brien.

Alguns anos antes — quantos? Devia fazer uns sete anos — ele sonhara que estava andando num aposento completamente às escuras. E alguém sentado a um lado disse, quando ele passou: “Ainda nos encontraremos no lugar onde não há escuridão”. Isso foi dito com muita tranquilidade, de forma quase despreocupada — era uma afirmação, não uma ordem. Ele seguira em frente sem se deter. O curioso é que na época, no sonho, as palavras não lhe causaram maior impressão. Só mais tarde e aos poucos elas começaram a adquirir um significado. Já não se lembrava se fora antes ou depois do sonho que vira O’Brien pela primeira vez; e tampouco se lembrava de quando identificara pela primeira vez a voz do sonho como sendo a de O’Brien. De todo modo, a identidade era inegável. O’Brien era a pessoa que falara com ele no escuro.

Winston nunca soubera com certeza — mesmo depois da troca de olhares daquela manhã, continuava sendo impossível ter certeza — se O’Brien era amigo ou inimigo. Se bem que isso não parecesse importar muito. Havia entre eles um elo de entendimento cuja importância era maior que o afeto ou a comunhão de ideias. “Ainda nos encontraremos no lugar onde não há escuridão”, dissera ele. Winston não sabia o que isso significava, apenas que de uma maneira ou de outra aquilo acabaria se tornando realidade.

A voz transmitida pela teletela fez uma pausa. No ar estagnado pairou o toque de um clarim, nítido e belo. A voz prosseguiu com aspereza:

“Atenção! Atenção, por favor! Uma notícia-relâmpago acaba de chegar do fronte malabarense. Nossas forças obtiveram gloriosa vitória no sul da Índia. Estou autorizado a afirmar que a ação que noticiamos neste momento pode perfeitamente deixar a guerra a uma distância mensurável do final. Eis a notícia-relâmpago...”

Más notícias a caminho, pensou Winston. E de fato, logo depois da descrição sanguinolenta da aniquilação de um exército eurasiano, com um número elevadíssimo de soldados inimigos mortos ou feitos prisioneiros, veio o anúncio de que, a partir da semana seguinte, a ração de chocolate seria reduzida de trinta para vinte gramas.

Winstou arrotou de novo. O efeito do gim estava passando, substituído por uma sensação de esvaziamento. A teletela — fosse para comemorar a vitória, fosse para apagar a lembrança da porção de chocolate perdida — atacou com Oceânia, glória a ti. As pessoas deviam ouvi-la em posição de sentido.

Oceânia, glória a ti deu lugar a uma seleção musical mais leve. Winston se aproximou da janela, sempre de costas para a teletela. O dia continuava frio e sem nuvens. Em algum lugar ao longe uma bomba-foguete explodiu com um estrondo surdo, reverberante. Eram vinte ou trinta delas caindo sobre Londres todas as semanas.

Lá embaixo, na rua, o vento castigava o cartaz rasgado, agitando-o de um lado para o outro, e a palavra Socing, condizentemente, aparecia e desaparecia. Socing. Os sagrados princípios do Socing. Novafala, duplipensamento, a mutabilidade do passado. Winston tinha a sensação de estar vagando pelas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso em que o monstro era ele próprio. Estava sozinho. O passado estava morto, o futuro era inimaginável. Que certeza podia ter de que naquele momento uma criatura humana, uma que fosse, estivesse do lado dele? E como saber se o domínio do Partido não seria para sempre? À guisa de resposta, vieram-lhe à cabeça os três slogans estampados na fachada branca do Ministério da Verdade:

GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORNCIA É FORÇA

Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco centavos. Ali também, em letras minúsculas e precisas, estavam inscritos os mesmos slogans, e do outro lado da moeda via-se a cabeça do Grande Irmão. Até na moeda os olhos perseguiam a pessoa. Nas moedas, nos selos, nas capas dos livros, em bandeiras, em cartazes e nas embalagens dos maços de cigarro — em toda parte. Sempre aqueles olhos observando a pessoa e a voz a envolvê-la. Dormindo ou acordada, trabalhando ou comendo, dentro ou fora de casa, no banho ou na cama — não havia saída. Com exceção dos poucos centímetros que cada um possuía dentro do crânio, ninguém tinha nada de seu.

O sol avançara e as infindáveis janelas do Ministério da Verdade, agora que já não recebiam luz direta, pareciam tão temíveis quanto as seteiras de uma fortaleza. O coração de Winston se encolheu diante do enorme vulto piramidal. O edifício era forte demais, não havia como tomá-lo. Nem mil bombas-foguetes seriam capazes de destruí-lo. Voltou a perguntar-se para quem estaria escrevendo o diário. Para o futuro, para o passado — para uma época talvez imaginária. E diante dele estava o extermínio, não a morte. O diário seria reduzido a cinzas e ele próprio viraria vapor. Somente a Polícia das Ideias leria o que ele havia escrito, antes de suprimirem tudo da existência e da memória. Como era possível fazer um apelo ao futuro, quando nem um rastro seu, nem mesmo uma palavra anônima rabiscada num pedaço de papel, tinha condições de sobreviver fisicamente?

A teletela deu as horas: duas da tarde. Winston devia sair em dez minutos. Precisava estar de volta ao trabalho às duas e meia.

Curiosamente, o anúncio das horas pareceu dar-lhe novo ânimo. Era um fantasma solitário afirmando uma verdade de que ninguém jamais ouviria falar. Só que, enquanto a afirmasse, de alguma maneira obscura a continuidade não se romperia. Não era fazendo-se ouvir, mas mantendo a sanidade mental que a pessoa transmitia sua herança humana. Voltou para a mesa, molhou a pena da caneta e escreveu:

Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que não vivam sós — a um tempo em que a verdade exista e em que o que for feito não possa ser desfeito:

Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensamento — saudações!

Ele já estava morto, refletiu. Parecia-lhe que só agora, quando começava a ser capaz de formular seus pensamentos, dera o passo decisivo. As consequências de toda ação estão contidas na própria ação. Escreveu:

O pensamento-crime não acarreta a morte: o pensamento-crime é a morte.

Agora que se via como um homem morto, tornava-se importante continuar vivo o maior tempo possível. Dois dedos de sua mão direita estavam sujos de tinta. Era exatamente o tipo de detalhe que podia entregar uma pessoa. Algum fanático enxerido do Ministério (uma mulher, talvez, alguém como a mulher de cabelo ruivo ou a moça de cabelo preto do Departamento de Ficção) podia ficar intrigado e começar a se perguntar por que ele havia passado o intervalo do almoço escrevendo, por que teria usado uma caneta antiquada, o que teria escrito — e depois soltar alguma insinuação no local adequado. Foi até o banheiro e removeu cuidadosamente a tinta dos dedos com o sabonete marrom-escuro, um sabonete que raspava a mão como uma lixa e que, portanto, atendia muito bem a seus propósitos.

Guardou o diário na gaveta. Não fazia sentido pensar em escondê-lo, mas ele podia ao menos garantir que a eventual descoberta de sua existência não lhe passasse despercebida. Um fio de cabelo atravessado na extremidade das páginas era óbvio demais. Com a ponta do dedo, recolheu um grãozinho identificável de poeira esbranquiçada e o depositou num canto da capa, de onde certamente cairia se alguém mexesse no caderno.





3.


Winston sonhava com sua mãe. Devia estar com uns dez ou onze anos quando a mãe desaparecera, pensou. Era uma mulher alta, majestosa, mais para calada, de movimentos lentos e cabeleira clara magnífica. Do pai, lembrava-se com menos clareza: moreno, magro, sempre vestindo roupas escuras impecáveis (Winston se lembrava especialmente das solas finíssimas de seus sapatos), e de óculos. Sem dúvida os dois haviam sido engolidos por um dos primeiros grandes expurgos dos anos 1950.

Naquele momento a mãe estava sentada em algum lugar muito abaixo dele com sua irmã mais moça no colo. A única lembrança que Winston guardava da irmã era a de um bebê minúsculo, frágil, sempre em silêncio, com grandes olhos atentos. As duas tinham os olhos erguidos para ele. Estavam no interior de algum lugar subterrâneo — talvez o fundo de um poço ou de uma sepultura muito profunda —, mas era um lugar que, mesmo já estando tão abaixo do lugar onde ele estava, continuava a mover-se para baixo. As duas estavam no salão de um navio que naufragava, de olhos fixos nele, lá em cima, através da água que se turvava. Ainda havia ar no salão, elas ainda conseguiam vê-lo e ele a elas, mas o tempo todo as duas iam afundando, afundando nas águas verdes que um instante mais tarde haveria de ocultá-las para sempre. Ele estava fora, na luz, no espaço, enquanto elas eram sugadas para a morte, e estavam lá embaixo porque ele estava aqui em cima. Ele sabia e elas sabiam, ele via no rosto delas que elas sabiam. Não havia censura nem no rosto nem no coração delas, simplesmente a consciência de que teriam de morrer para que ele pudesse continuar vivo, e que isso era parte da ordem inevitável das coisas.

Ele não conseguia se lembrar do que acontecera, mas em seu sonho sabia que de alguma maneira a vida de sua mãe e a de sua irmã haviam sido sacrificadas à sua. Era um desses sonhos que, mesmo mantendo o cenário onírico característico, são uma continuação da vida intelectual da pessoa, e em que tomamos consciência de fatos e ideias que continuamos achando novos e valiosos depois que acordamos. A questão que naquele momento atingiu Winston como um golpe foi o fato de que a morte de sua mãe, quase trinta anos antes, fora trágica e dolorosa de um modo que já não seria possível. Ele se dava conta de que a tragédia pertencia aos tempos de antigamente, aos tempos em que ainda havia privacidade, amor e amizade, e em que os membros de uma família se amparavam uns aos outros sem precisar saber por quê. A memória de sua mãe atormentava seu coração porque ela morrera amando-o, quando ele era jovem e egoísta demais para poder retribuir seu amor, e porque, de alguma maneira, ele não se lembrava como, ela se sacrificara a uma concepção de lealdade privada e inalterável. Eram coisas que, ele percebia, não poderiam acontecer agora. Agora havia medo, ódio e dor, mas não dignidade na emoção, não tristezas profundas ou complexas. Winston tinha a sensação de ver todas essas coisas nos grandes olhos de sua mãe e de sua irmã, olhando para ele lá de baixo, através da água verde, centenas de braças abaixo, sem nunca parar de afundar.

No momento seguinte viu-se sobre uma relva curta e viçosa numa tarde de verão em que os raios oblíquos do sol douravam o solo. A paisagem que contemplava era uma recorrência tão frequente em seus sonhos que nunca se sentia totalmente seguro de tê-la ou não tê-la visto na vida real. Em suas divagações, chamava-a de Terra Dourada. Era um pasto antigo recortado pelas dentadas dos coelhos e percorrido por uma trilha sinuosa, com um ou outro promontório de toupeira. Na sebe irregular do outro lado do campo, a brisa balançava muito suavemente os ramos dos olmos, com suas folhas estremecendo de leve em densas massas que lembravam cabelos de mulher. Em algum lugar bem próximo mas que o olhar não alcançava, havia uma torrente límpida movendo-se devagar; nela, os robalinhos nadavam nas poças sob os chorões.

A garota de cabelo escuro vinha pelo campo na direção dele. Com um único movimento ela se despojou da roupa e jogou-a para um lado com desdém. Seu corpo era branco e liso, mas Winston não sentia desejo. Na verdade, mal olhou para aquele corpo, pois estava tomado de admiração pelo gesto da moça jogando a roupa para um lado. Com sua graça e displicência, era um gesto que parecia aniquilar toda uma cultura, todo um sistema de pensamento, como se o Grande Irmão, o Partido e a Polícia das Ideias pudessem ser todos jogados no nada com um único e glorioso movimento de braço. Aquele era um gesto que também pertencia aos tempos de antigamente. Winston acordou com a palavra “Shakespeare” nos lábios.

A teletela emitia um zumbido de rachar o crânio que se manteve no mesmo diapasão por trinta segundos. Com efeito, eram sete e quinze da manhã, hora em que os funcionários dos escritórios precisam se levantar. Winston arrancou o próprio corpo da cama com dificuldade — nu, pois os membros do Partido Exterior recebiam somente três mil cupons de vestuário por ano, e um pijama custava seiscentos — e apanhou uma camiseta encardida e um short que estavam jogados sobre uma cadeira. Atividades Físicas começaria em três minutos. No instante seguinte ele se viu dobrado ao meio por uma violenta crise de tosse que quase sempre o atacava logo depois que ele acordava. A tosse esvaziara seus pulmões tão completamente que ele só conseguiu voltar a respirar depois que se deitou de costas e aspirou o ar profundamente algumas vezes. Tinha as veias dilatadas pelo esforço de tossir e a úlcera varicosa começara a comichar.

“Grupo de trinta a quarenta!”, ganiu uma voz feminina de furar os tímpanos. “Grupo de trinta a quarenta! Para seus lugares, por favor. Trinta a quarenta!”

Winston ficou em posição de sentido diante da teletela, na qual a imagem de uma mulher bastante jovem, muito magra mas musculosa, vestindo túnica e sapatos de ginástica, já ocupara seu lugar.

“Dobrando os braços, esticando os braços!”, berrou ela. “Me acompanhem. Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Vamos lá, camaradas, quero ver um pouco mais de energia! Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro!...”

A dor do ataque de tosse não afastara por completo da cabeça de Winston a impressão deixada pelo sonho, e o movimento rítmico do exercício a recompôs em parte. Enquanto jogava mecanicamente os braços para diante e para trás, ostentando no rosto a expressão de prazer compenetrado vista como correta para a execução das Atividades Físicas, ele se esforçava para recuar o pensamento para o período difuso de sua primeira infância. Era extraordinariamente difícil. Até o fim da década de 1950, nenhum problema; daí em diante, tudo desbotava. Na ausência de todo e qualquer registro externo a que recorrer, até mesmo o contorno de sua própria vida perdia a nitidez. A pessoa conseguia evocar os acontecimentos mais notáveis, que muito provavelmente jamais haviam ocorrido. Lembrava-se de detalhes de incidentes sem conseguir recompor sua atmosfera, e havia longos períodos em branco aos quais não conseguia atribuir fato algum. Naquele tempo tudo era diferente. Mesmo os nomes dos países e suas formas no mapa, tudo era diferente. A Pista de Pouso Um, por exemplo, na época não era chamada assim: na época seu nome era Inglaterra, ou Grã-Bretanha, embora Londres — disto ele estava seguro — sempre tivesse se chamado Londres.

Winston não conseguia se lembrar de jeito nenhum de uma época em que seu país não estivesse em guerra, mas era evidente que existira um intervalo bastante prolongado de paz durante sua infância, porque uma de suas memórias mais antigas era de um ataque aéreo que aparentemente pegara todo mundo de surpresa. Talvez fosse na época em que Colchester fora atingida pela bomba atômica. Ele não se lembrava do ataque em si, mas lembrava-se da mão de seu pai apertando a sua enquanto os dois desciam, desciam, desciam correndo para chegar a algum lugar profundamente enterrado no chão, dando voltas e mais voltas numa escada em espiral que retinia debaixo de seus pés e que acabou cansando tanto as suas pernas que ele começou a choramingar e os dois foram forçados a parar para descansar. A mãe, com seu jeito lento e desconectado, vinha logo atrás deles. Trazia sua irmãzinha no colo — ou quem sabe fosse apenas uma trouxa de cobertores que ela carregava: não sabia muito bem se a irmã já havia nascido àquela altura. Por fim haviam chegado a um lugar barulhento, entupido de gente, que ele percebera ser uma estação de metrô.

Havia pessoas sentadas sobre toda a superfície do piso de pedra e também pessoas comprimidas umas contra as outras, sentadas em beliches de metal, umas por cima das outras. Winston, sua mãe e seu pai arrumaram um lugar no chão, e perto deles havia um velho e uma velha sentados lado a lado num beliche. O velho vestia um terno escuro bem-posto e tinha o cabelo muito branco coberto por um boné preto, de pano: seu rosto estava rubro e seus olhos azuis cheios de lágrimas. Cheirava a gim. Parecia que o gim exalava de sua pele como suor, e seria possível imaginar que as lágrimas que lhe brotavam dos olhos fossem puro gim. Mas embora estivesse um pouco bêbado, ele também sofria sob o peso de uma dor genuína e intolerável. À sua maneira infantil, Winston entendeu que alguma coisa terrível, alguma coisa que estava além do perdão e que jamais poderia ser remediada, acabara de suceder. Ao mesmo tempo, teve a impressão de que sabia que coisa era essa. Alguém que o velho amava, uma netinha, talvez, havia sido morto. O velho repetia a pequenos intervalos de tempo:

“A gente não devia ter confiado neles. Bem que eu falei, Mãe, não foi? É nisso que dá confiar neles. Eu disse e repeti. A gente não devia ter confiado naqueles canalhas.”

Mas quem eram esses canalhas em quem eles não deviam ter confiado Winston já não conseguia se lembrar.

Desde mais ou menos aquela época, a guerra fora literalmente contínua, embora, a rigor, não tivesse sido o tempo todo a mesma guerra. Durante vários meses, em seus tempos de criança, houvera combates confusos nas ruas de Londres, e de alguns deles Winston guardava uma lembrança nítida. Só que seria praticamente impossível reconstruir a história de todo aquele período, dizer quem lutava contra quem neste ou naquele dado momento, pois não havia registros escritos e os relatos orais jamais se referiam a algum quadro político diferente do vigente. Naquele momento, por exemlo, em 1984 (se é que estavam em 1984), a Oceânia estava em guerra com a Eurásia e era aliada da Lestásia. Nunca, em nenhuma declaração pública ou privada, era admitido que as três potências alguma vez tivessem se agrupado de modo diferente. Na verdade, como Winston sabia muito bem, há não mais de quatro anos a Oceânia estava em guerra com a Lestásia e em aliança com a Eurásia. Só que isso não passava de uma amostra de conhecimento furtivo que ele por acaso possuía graças ao fato de sua memória não estar corretamente controlada. Em termos oficiais, a troca de aliados jamais acontecera. A Oceânia estava em guerra com a Eurásia: em consequência, a Oceânia sempre estivera em guerra com a Eurásia. O inimigo do momento sempre representava o mal absoluto, com o resultado óbvio de que todo e qualquer acordo passado ou futuro com ele era impossível.

O assustador, refletiu Winston pela décima milésima vez enquanto forçava os ombros dolorosamente para trás (com as mãos nos quadris, giravam o tronco da cintura para cima, um exercício considerado benéfico para os músculos das costas), o assustador era que talvez tudo aquilo fosse verdade. Se o Partido era capaz de meter a mão no passado e afirmar que esta ou aquela ocorrência jamais acontecera — sem dúvida isso era mais aterrorizante do que a mera tortura ou a morte.

O Partido dizia que a Oceânia jamais fora aliada da Eurásia. Ele, Winston Smith, sabia que a Oceânia fora aliada da Eurásia não mais de quatro anos antes. Mas em que local existia esse conhecimento? Apenas em sua própria consciência que, de todo modo, em breve seria aniquilada. E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido — se todos os registros contassem a mesma história —, a mentira tornava-se história e virava verdade. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”, rezava o lema do Partido. E com tudo isso o passado, mesmo com sua natureza alterável, jamais fora alterado. Tudo o que fosse verdade agora fora verdade desde sempre, a vida toda. Muito simples. O indivíduo só precisava obter uma série interminável de vitórias sobre a própria memória. “Controle da realidade”, era a designação adotada. Em Novafala: “duplipensamento”.

“Descansar!”, bramou a instrutora, com uma leve ponta de cordialidade.

Winston largou os braços ao longo do corpo e pouco a pouco voltou a encher os pulmões com ar. Sua mente deslizou para o labiríntico mundo do duplipensamento. Saber e não saber, estar consciente de mostrar-se cem por cento confiável ao contar mentiras construídas laboriosamente, defender ao mesmo tempo duas opiniões que se anulam uma à outra, sabendo que são contraditórias e acreditando nas duas; recorrer à lógica para questionar a lógica, repudiar a moralidade dizendo-se um moralista, acreditar que a democracia era impossível e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo o que fosse preciso esquecer, depois reinstalar o esquecido na memória no momento em que ele se mostrasse necessário, depois esquecer tudo de novo sem o menor problema: e, acima de tudo, aplicar o mesmo processo ao processo em si. Esta a última sutileza: induzir conscientemente a inconsciência e depois, mais uma vez, tornar-se inconsciente do ato de hipnose realizado pouco antes. Inclusive entender que o mundo em “duplipensamento” envolvia o uso do duplipensamento.

A instrutora ordenava que ficassem novamente em posição de sentido. “E agora vamos ver quais de nós são capazes de encostar a mão nos dedos dos pés!”, disse entusiasmada. “Inclinem-se todos sem dobrar os joelhos, por favor, camaradas. Um-dois! Um-dois!...”

Winston abominava aquele exercício, que provocava dores agudas que iam de seus calcanhares a suas nádegas e que muitas vezes acabavam lhe provocando um novo ataque de tosse. A sensação semiprazerosa abandonou suas meditações. O passado, refletiu ele, não fora simplesmente alterado; na verdade fora destruído. Pois como fazer para verificar o mais óbvio dos fatos, quando o único registro de sua veracidade estava em sua memória? Tentou se lembrar do ano em que ouvira a primeira menção ao Grande Irmão. Achava que devia ter sido em algum momento dos anos 1960, mas era impossível ter certeza. Nas histórias do Partido, é evidente que o Grande Irmão aparecia como o líder e o guardião da Revolução desde seus primeiríssimos dias. Seus feitos haviam sido recuados gradualmente no tempo até atingir o mundo fabuloso dos anos 1940 e 50, quando os capitalistas, com seus estranhos chapéus cilíndricos, ainda circulavam pelas ruas de Londres a bordo de grandes automóveis cintilantes ou em carruagens puxadas por cavalos e equipadas com laterais de vidro. Impossível saber o que era verdade e o que era mentira nessa fábula. Winston não conseguia se lembrar sequer da data em que o próprio Partido passara a existir. Não lhe parecia que tivesse ouvido a palavra Socing antes de 1960, mas quem sabe na expressão utilizada pela Velhafala — ou seja, “Socialismo inglês” — ela um dia tivesse sido de uso corrente. Tudo se desmanchava na névoa. Às vezes, de fato, era possível apontar uma mentira específica. Não era verdade, por exemplo, que, como afirmavam os livros de história do Partido, o Partido tivesse inventado o avião. Winston se lembrava de que na sua mais tenra infância já existiam aviões. Só que era impossível provar o que quer que fosse. Nunca havia a menor prova de nada. Uma única vez em toda a sua vida ele tivera nas mãos uma prova documental irrefutável da falsificação de um fato histórico. E naquela ocasião...

“Smith!”, berrou a voz rabugenta na teletela. “6079 Smith W! Isso mesmo, você! Incline-se mais, por favor! Você não está dando tudo o que pode. Não está se esforçando. Incline-se, por favor! Assim! Agora está melhor, camarada. Posição de descanso, todo o pelotão. Olhem para mim.”

Um suor quente repentino brotara por todo o corpo de Winston. Seu rosto permanecia completamente inescrutável. Nunca dê mostras de desânimo! Nunca dê mostras de ressentimento! Uma simples chispa no olhar podia ser sua perdição. Ficou observando enquanto a instrutora erguia os braços acima da cabeça e — impossível dizer “graciosamente”, mas com notável exatidão e eficiência — inclinou-se e encaixou a ponta dos dedos das mãos embaixo dos dedos dos pés.

“Assim, camaradas! É assim que eu quero que vocês façam o exercício. Olhem de novo como eu faço. Tenho trinta e nove anos e pari quatro filhos. Agora olhem.” Ela voltou a dobrar o corpo. “Vocês podem ver que os meus joelhos não estão dobrados. Todos vocês são capazes de fazer isso. Basta querer”, acrescentou ao endireitar o corpo. “Qualquer pessoa com menos de quarenta e cinco anos é perfeitamente capaz de tocar os dedos dos pés. Nem todos têm o privilégio de lutar na linha de frente, mas pelo menos podemos nos manter em forma. Pensem em nossos rapazes no fronte de Malabar! E nos marinheiros nas Fortalezas Flutuantes! Imaginem só o que eles têm de aguentar! Agora vamos tentar de novo. Assim está melhor, camarada, muito melhor”, acrescentou em tom estimulante quando Winston, num arranco violento, conseguiu tocar os dedos dos pés sem dobrar os joelhos pela primeira vez em vários anos.

*





4.


Com o suspiro profundo e inconsciente que nem a proximidade da teletela o impedia de soltar quando seu dia de trabalho começava, Winston puxou o ditógrafo para junto de si, soprou a poeira do bocal e pôs os óculos. Em seguida, desenrolou e uniu com um clipe os quatro pequenos cilindros de papel que o tubo pneumático já despejara no lado direito de sua escrivaninha.

Nas paredes da estação de trabalho viam-se três orifícios. À direita do ditógrafo, um pequeno tubo pneumático para as mensagens escritas; à esquerda, um tubo de maior calibre para os jornais; e na parede lateral, ao alcance da mão de Winston, uma grande abertura retangular, protegida por uma grade de arame. Esta última destinava-se aos papéis a descartar. Aberturas similares se espalhavam aos milhares, ou dezenas de milhares, por todo o edifício, fazendo-se presentes não apenas em cada sala mas também, a pequenos intervalos, em todos os corredores. Por algum motivo, tinham recebido o apelido de buracos da memória. Quando a pessoa sabia que determinado documento precisava ser destruído, ou mesmo quando topava com um pedaço qualquer de papel usado, levantava automaticamente a tampa do buraco da memória mais próximo e o jogava ali dentro, e então o papel ia torvelinhando numa corrente de ar quente até cair numa das fornalhas descomunais que permaneciam ocultas nos recessos do edifício.

Winston examinou as quatro tiras de papel que acabara de desenrolar. Em cada uma delas via-se uma mensagem de apenas uma ou duas linhas, no jargão abreviado — não era Novafala propriamente dita, mas consistia sobretudo em palavras extraídas do vocabulário da Novafala — que os funcionários do Ministério empregavam em suas comunicações internas. Diziam:

times 17.3.84 retificar discurso gi áfrica imprecisões

times 19.12.83 checar edição hoje estimativas quarto trimestre pt 83 erros impressão

times 14.2.84 retificar malcitado minância chocolate

times 3.12.83 reportagem ordemdia gi duplomaisnãobom ref despessoas reescrever todamente mostrarsup antearquiv.

Com um vago sentimento de satisfação, Winston pôs a quarta mensagem de lado. Tratava-se de um serviço complicado e de muita responsabilidade, e o mais recomendável era deixá-lo para o fim. As outras três eram questões de rotina, ainda que a segunda provavelmente o obrigasse a um exame tedioso de incontáveis listas de números.

Winston discou “edições anteriores” na teletela e solicitou os exemplares do Times de que precisaria para se desincumbir de suas tarefas, e poucos minutos depois eles já deslizavam pelo tubo pneumático. As mensagens que Winston recebera diziam respeito a artigos ou reportagens que por esse ou aquele motivo fora julgado necessário alterar — ou, no linguajar oficial, retificar. Por exemplo, a leitura do Times de 17 de março dava a impressão de que, num discurso proferido na véspera, o Grande Irmão previra que as coisas permaneceriam calmas no fronte do sul da Índia, mas que o norte da África em breve assistiria a uma ofensiva das forças eurasianas. Na verdade, porém, o alto-comando da Eurásia lançara uma ofensiva sobre o sul da Índia, deixando o norte da África em paz. Assim, era necessário reescrever um parágrafo do discurso do Grande Irmão, de forma a garantir que a previsão que ele havia feito estivesse de acordo com aquilo que realmente acontecera. Ou ainda: o Times de 19 de dezembro publicara as estimativas oficiais do volume a ser atingido na produção de uma série de bens de consumo no quarto trimestre de 1983, que ao mesmo tempo era o sexto trimestre do Nono Plano Trienal. A edição do Times daquele dia trazia a informação sobre o volume de produção efetivamente atingido no período, e os números estavam em franco desacordo com os prognósticos anunciados em dezembro. A tarefa de Winston era retificar os números originais, fazendo-os corresponder aos resultados de fato obtidos. Já a terceira mensagem fazia referência a um erro muito simples, cuja correção não demandaria mais que alguns minutos de trabalho. Em fevereiro último, o Ministério da Pujança fizera publicamente a promessa (no linguajar oficial: “assumira o compromisso categórico”) de não promover nenhum corte na ração de chocolate no decorrer de 1984. Na verdade, como Winston já sabia, no fim daquela semana a ração de chocolate seria reduzida de trinta para vinte gramas. Bastava substituir a promessa original pela advertência de que a ração de chocolate provavelmente sofreria uma redução em abril.

Tão logo se desincumbiu das mensagens, Winston juntou com clipes as ditografias de suas correções às respectivas edições do Times e as introduziu no tubo pneumático. Em seguida, com um movimento que ele fez o possível para que parecesse inconsciente, amassou as mensagens originais e duas ou três anotações que ele próprio fizera e as atirou todas no buraco da memória para que fossem devoradas pelas chamas.

Winston não sabia em detalhe o que acontecia no labirinto invisível a que os tubos pneumáticos conduziam, mas tinha uma visão geral da coisa. Depois de efetuadas todas as correções a que determinada edição do Times precisava ser submetida e uma vez procedida a inclusão de todas as emendas, a edição era reimpressa, o original era destruído e a cópia corrigida era arquivada no lugar da outra. Esse processo de alteração contínua valia não apenas para jornais como também para livros, periódicos, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, trilhas sonoras, desenhos animados, fotos — enfim, para todo tipo de literatura ou documentação que pudesse vir a ter algum significado político ou ideológico. Dia a dia e quase minuto a minuto o passado era atualizado. Desse modo era possível comprovar com evidências documentais que todas as previsões feitas pelo Partido haviam sido acertadas; sendo que, simultaneamente, todo vestígio de notícia ou manifestação de opinião conflitante com as necessidades do momento eram eliminados. A história não passava de um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário. Uma vez executado o serviço, era absolutamente impossível provar a ocorrência de qualquer tipo de falsificação. A maior seção do Departamento de Documentação, muito mais ampla do que aquela em que Winston trabalhava, era composta de pessoas cuja única obrigação era localizar e recolher todos os exemplares de livros, jornais e outros documentos que tivessem sido substituídos e precisavam ser eliminados. Alguns números do Times que — devido a mudanças no alinhamento político ou em virtude de profecias equivocadas do Grande Irmão — podiam ter sido reescritos uma dúzia de vezes continuavam arquivados com sua data original de publicação, sem que houvesse outro exemplar para contradizê-lo. Os livros também eram recolhidos e reescritos vezes sem conta, e nas reedições jamais se admitia a introdução de modificações. Tampouco nas instruções que Winston recebia por escrito e das quais tratava de se livrar tão logo se desincumbia delas, reconhecia-se ou dava-se a entender que a tarefa solicitada implicava um ato de falsificação; a referência era sempre a deslizes, equívocos, erros de impressão ou citações improcedentes, os quais era necessário, em benefício da exatidão, corrigir.

Se bem que, pensou ele ao reajustar os números do Ministério da Pujança, aquilo nem falsificação era. Tratava-se apenas de substituir um absurdo por outro. Quase todo o material com que lidavam ali era desprovido da mais ínfima ligação com o mundo real — faltava até o tipo de ligação contido numa mentira deslavada. As versões originais das estatísticas não eram menos fantasiosas que suas versões retificadas. Na maioria das vezes, Winston e seus colegas eram simplesmente obrigados a tirá-las da cartola. As projeções do Ministério da Pujança, por exemplo, indicavam que a produção trimestral de botas chegaria a cento e quarenta e cinco milhões de pares. A produção efetiva ficara em sessenta e dois milhões. Ao reescrever as estimativas, porém, Winston baixara o número para cinquenta e sete milhões de pares, para dessa forma abrir espaço para as costumeiras declarações de que a cota de produção fora superada. De todo modo, os sessenta e dois milhões de pares não se aproximavam mais da verdade do que os cinquenta e sete milhões ou os cento e quarenta e cinco milhões. Era bem provável que nem um mísero par de botas tivesse sido produzido. Mais provável ainda era que ninguém soubesse quantos pares haviam sido produzidos, nem fizesse questão de saber. O que se sabia sem sombra de dúvida era que todos os trimestres uma quantidade astronômica de botas era produzida no papel, enquanto possivelmente metade da população da Oceânia andava descalça pelas ruas. E assim acontecia com todos os tipos de fatos documentados, importantes ou não. Tudo ia empalidecendo num mundo de sombras em que, por fim, até mesmo o ano em que estavam se tornava incerto.

Winston olhou para o outro lado da sala. Na estação de trabalho correspondente à sua, um homenzinho com ar escrupuloso e cavanhaque escuro chamado Tillotson trabalhava com perseverança. Tinha um jornal dobrado sobre os joelhos e os lábios bastante próximos do bocal do ditógrafo. Dava a impressão de estar preocupado em manter sigilo sobre as coisas que dizia, mantendo-as somente entre ele e a teletela. Ergueu os olhos, e seus óculos projetaram um brilho hostil na direção de Winston.

Winston mal conhecia Tillotson, e não fazia a menor ideia do tipo de trabalho que ele realizava. No Departamento de Documentação as pessoas não ficavam tagarelando sobre suas atividades. Na sala comprida e desprovida de janelas, com suas duas fileiras de estações de trabalho, o farfalhar interminável da papelada e o zum-zum de vozes murmurando junto ao bocal dos ditógrafos, havia bem umas dez pessoas que Winston não conhecia nem pelo nome, embora as visse diariamente correndo de lá para cá pelos corredores e gesticulando durante os Dois Minutos de Ódio. Sabia que na estação de trabalho vizinha à sua a mocinha de cabelo ruivo se esfalfava dia após dia tentando simplesmente localizar e eliminar dos jornais e revistas o nome das pessoas que haviam sido vaporizadas e que, portanto, não podiam ter existido. Havia certa congruência nisso, visto o marido dela ter sido vaporizado anos antes. E, algumas estações de trabalho mais à frente, um sujeito afável, ineficiente e sonhador, de nome Ampleforth, com orelhas extremamente peludas e um surpreendente talento para manipular rimas e metros, vivia às voltas com a produção de versões adulteradas — denominadas textos definitivos — de poemas que haviam se tornado ideologicamente ofensivos, mas que, por uma ou outra razão, não podiam ser expurgados das antologias. E aquela sala, com seus cinquenta funcionários mais ou menos, não passava de uma subseção, de uma única célula, por assim dizer, da colossal complexidade do Departamento de Documentação. Mais adiante, acima, abaixo, havia outros magotes de funcionários às voltas com uma miríade inimaginável de atividades. Havia as imensas tipografias com seus subeditores, seus tipógrafos especialistas e seus estúdios altamente sofisticados para a realização de maquiagem de fotografias. Havia a seção de teleprogramas com seus engenheiros, seus produtores e suas equipes de atores especialmente selecionados por sua competência na imitação de vozes. Havia os exércitos de escriturários cujo trabalho consistia simplesmente na confecção de listas de livros e periódicos a serem recolhidos. Havia os vastos depósitos onde eram armazenados os documentos corrigidos, e as fornalhas ocultas em que os originais eram destruídos. E, em lugares indeterminados, totalmente anônimas, havia as cabeças dirigentes que coordenavam todo aquele esforço e estabeleciam as diretrizes políticas que tornavam necessário que este fragmento do passado fosse preservado, aquele adulterado e aquele outro destituído de toda e qualquer existência.

E, no fim das contas, o Departamento de Documentação não passava de um ramo do Ministério da Verdade cuja função primeira não era reconstruir o passado e sim abastecer os cidadãos da Oceânia com jornais, filmes, livros escolares, programas de teletela, peças dramáticas, romances — com todo tipo imaginável de informação, ensino ou entretenimento, de estátuas a slogans, de poemas líricos a tratados de biologia, de cartilhas de ortografia a dicionários de Novafala. E ao ministério cabia não apenas suprir as inúmeras necessidades do Partido como também reproduzir toda essa operação num nível inferior, em benefício do proletariado. Havia uma série de departamentos dedicados especificamente à literatura, à música, ao teatro e ao entretenimento proletário em geral. Ali eram produzidos jornais populares contendo apenas e tão somente esportes, crimes e astrologia, romances sem a menor qualidade, curtos e sensacionalistas, filmes com cenas e mais cenas de sexo, e canções sentimentais compostas de forma totalmente mecânica por uma modalidade especial de caleidoscópio conhecida como versificador. Havia inclusive uma subseção inteira — Pornodiv era seu nome em Novafala — dedicada à produção do tipo mais grosseiro de pornografia, que era despachado em embalagens fechadas e que nenhum integrante do Partido, salvo os envolvidos em sua produção, tinha a permissão de ver.

Enquanto Winston trabalhava, o tubo pneumático despejara mais três mensagens em sua escrivaninha, mas eram questões simples e ele as resolvera antes de ser interrompido pelos Dois Minutos de Ódio. Findo o Ódio, voltou à estação de trabalho, tirou da prateleira o dicionário de Novafala, empurrou o ditógrafo para o lado, limpou os óculos e se dedicou a sua principal atividade da manhã.

O trabalho era o maior prazer da vida de Winston. Suas tarefas compunham uma rotina majoritariamente enfadonha, mas vez por outra apareciam incumbências que, de tão difíceis e intrincadas, faziam-no correr o risco de perder-se nelas, como nas profundezas de um problema matemático. Eram obras delicadíssimas de contrafação, sem orientação alguma além de sua familiaridade com os princípios do Socing e uma ideia aproximada do que o Partido queria que fosse dito. Winston era bom nesse tipo de coisa. Uma vez ou outra já fora até encarregado de retificar os editoriais do Times, inteiramente escritos em Novafala. Desenrolou a mensagem que deixara de lado no começo do dia. Ela dizia:

times 3.12.83 reportagem ordemdia gi duplomaisnãobom ref despessoas reescrever todamente mostrarsup antearquiv.

Isso poderia ser traduzido da seguinte maneira em Velhafala (ou Inglês Padrão):

A reportagem sobre a ordem do dia pronunciada pelo Grande Irmão e publicada no Times do dia 3 de dezembro de 1983 ficou péssima e ainda faz referência a pessoas que não existem. Reescreva-a e apresente um rascunho a seus superiores antes de mandá-la para o arquivo.

Winston leu a matéria condenada. Aparentemente, a principal intenção da ordem do dia do Grande Irmão fora elogiar o trabalho da organização conhecida como FFCC, responsável por fornecer cigarros e outros itens para o conforto dos marinheiros das Fortalezas Flutuantes. Um certo camarada Withers, membro insigne do Núcleo do Partido, merecera menção especial e fora condecorado com a Ordem do Mérito Conspícuo, Segunda Classe.

Três meses depois, de uma hora para a outra e sem nenhum motivo aparente, a FFCC fora dissolvida. Supunha-se que Withers e seus sócios tivessem caído em desgraça, mas tanto os jornais como a teletela haviam silenciado sobre o assunto. Nada de extraordinário nisso, pois quase nunca os transgressores políticos eram levados a julgamento ou mesmo denunciados publicamente. Os grandes expurgos, que envolviam milhares de pessoas, com julgamentos públicos dos traidores e criminosos do pensamento que faziam confissões abjetas e em seguida eram executados, serviam como punições excepcionalmente exemplares e só aconteciam a cada dois ou três anos. O mais comum era que as pessoas que caíam em desgraça no Partido simplesmente desaparecessem e nunca mais se ouvisse falar delas. Ninguém fazia a menor ideia de que fim teriam levado. Em alguns casos podiam nem estar mortas. Winston possivelmente havia testemunhado o desaparecimento de trinta conhecidos seus ao longo dos anos, isso sem contar seus pais.

Winston acariciou suavemente o nariz com um clipe. Na estação de trabalho do outro lado da sala, circunspecto, o camarada Tillotson continuava debruçado sobre seu ditógrafo. Ergueu a cabeça por um momento: de novo o brilho hostil dos óculos. Winston ficou pensando que talvez o camarada Tillotson estivesse fazendo o mesmo trabalho que ele. Era perfeitamente possível. Tarefa tão complicada jamais seria confiada a uma única pessoa; por outro lado, deixá-la a cargo de uma comissão seria admitir abertamente que o que se pretendia ali era uma adulteração. Com toda a probabilidade havia no mínimo uma dúzia de pessoas elaborando versões rivais daquilo que o Grande Irmão de fato dissera em sua ordem do dia. E em breve algum mandachuva do Núcleo do Partido escolheria esta ou aquela versão, faria a reedição do texto e acionaria os indispensáveis e complexos processos de referência cruzada para que em seguida a mentira selecionada entrasse para os anais permanentes e se tornasse verdade.

Winston não sabia por que Withers caíra em desgraça. Talvez por corrupção ou incompetência. Talvez o Grande Irmão estivesse apenas se livrando de um subordinado popular demais. Talvez Withers ou alguém próximo a ele estivesse sob suspeita de abrigar tendências heréticas. Ou talvez — e o mais provável — a coisa acontecera apenas e tão somente porque expurgos e pulverizações eram elementos indispensáveis à mecânica governamental. As únicas pistas concretas estavam nas palavras “ref despessoas”, que indicavam que Withers já estava morto. Não que esse fosse o desfecho automático sempre que alguém era detido. Às vezes o preso acabava sendo solto e era autorizado a viver um ou dois anos em liberdade antes de ser executado. Muito de vez em quando, uma pessoa que todos julgavam morta havia muito tempo fazia uma reaparição fantasmagórica num julgamento público, comprometendo centenas de outros com seu testemunho para então tornar a desaparecer, dessa vez para sempre. Withers, contudo, já era uma despessoa. Não existia; nunca havia existido. Winston concluiu que não bastaria simplesmente inverter a tendência do discurso do Grande Irmão. Era melhor fazê-lo versar sobre algo que não tivesse nada a ver com o assunto original.

Podia transformar o discurso na habitual cantilena contra traidores e criminosos do pensamento, mas isso era um pouco óbvio demais; por outro lado, se inventasse uma vitória no fronte ou um triunfo de superprodução no âmbito do Nono Plano Trienal, talvez estivesse criando uma complicação grande demais para os registros. De súbito apareceu na sua cabeça a imagem sob medida, por assim dizer, de um certo camarada Ogilvy, recentemente morto em combate em circunstâncias heroicas. Havia ocasiões em que o Grande Irmão dedicava sua ordem do dia à celebração de algum membro humilde e insignificante do Partido, cuja vida e morte eram então elevadas à condição de exemplos dignos de ser seguidos. Era chegada a hora de ele festejar o camarada Ogilvy. Na verdade nunca existira nenhum camarada Ogilvy, mas um punhado de linhas impressas e duas ou três fotos forjadas fariam com que ganhasse vida.

Winston refletiu por alguns instantes, depois puxou o ditógrafo para junto de si e começou a ditar no conhecido estilo do Grande Irmão: um estilo ao mesmo tempo militar e pedante e, graças a uma artimanha que consistia em formular perguntas e prontamente apresentar as respostas para elas (“Que ensinamentos tiramos desse fato, camaradas? O ensinamento — que aliás é também um dos princípios fundamentais do Socing — de que” etc. etc.), muito fácil de imitar.

Aos três anos de idade, o camarada Ogilvy rejeitara todos os seus brinquedos, exceto um tambor, uma submetralhadora e um helicóptero em miniatura. Aos seis, graças a uma autorização especial — um ano antes do que permitia o regulamento —, ingressara nas fileiras dos Espiões; aos nove, se tornara comandante de tropa. Aos onze, denunciara um tio à Polícia das Ideias depois de ter escutado às escondidas uma conversa que lhe parecera conter tendências criminosas. Aos dezessete, fora organizador distrital da Liga Juvenil Antissexo. Aos dezenove, projetara uma granada de mão adotada pelo Ministério da Paz e que no primeiro teste matara trinta e um prisioneiros eurasianos de uma só vez. Aos vinte e três, perdera a vida em combate. Perseguido por jatos inimigos ao sobrevoar o Oceano Índico com despachos importantes, amarrara a metralhadora ao corpo, usando-a como lastro, e saltara do helicóptero em alto-mar com despachos e tudo — um fim, disse o Grande Irmão, impossível de contemplar sem uma certa inveja. Em seguida, o Grande Irmão acrescentou algumas observações sobre a pureza e a determinação que haviam marcado a vida do camarada Ogilvy. Era abstêmio, não fumava e sua única distração era a hora que passava diariamente na academia de ginástica. Além disso, fizera voto de celibato, pois acreditava que o casamento e as preocupações com a família eram incompatíveis com uma vida de absoluta dedicação ao dever. Quando se dispunha a conversar, era sempre sobre os princípios do Socing, e sua única aspiração na vida era derrotar o inimigo eurasiano e perseguir implacavelmente espiões, sabotadores, criminosos do pensamento e traidores em geral.

Winston ponderou a possibilidade de conceder ao camarada Ogilvy a Ordem do Mérito Conspícuo; no fim concluiu que não devia fazê-lo, considerando o trabalho desnecessário de referência cruzada que isso acarretaria.

Tornou a olhar de relance para o rival na estação de trabalho oposta à sua. Algo parecia lhe dizer com segurança que Tillotson estava às voltas com o mesmo trabalho que ele. Era impossível saber qual das versões acabaria sendo adotada, porém Winston acreditava firmemente que seria a sua. O camarada Ogilvy, que até uma hora antes não existia nem na imaginação, agora era um fato. Não deixava de ser curioso, pensou Winston, que fosse possível criar homens mortos, mas não homens vivos. O camarada Ogilvy, que nunca existira no presente, agora existia no passado, e tão logo o ato da falsificação caísse no esquecimento, existiria com a mesma autenticidade e com base no mesmo tipo de evidência que Carlos Magno ou Júlio César.

*





5.


Na cantina de teto baixo situada na parte subterrânea do edifício, longe da superfície do solo, a fila do almoço se arrastava, avançando muito devagar. O ambiente já estava superlotado e o barulho era ensurdecedor. O bafo do ensopado escapava pela grade do balcão, espalhando um cheiro azedo, metálico, que não encobria completamente os vapores do gim Victory. No outro extremo da sala havia um pequeno bar, não mais que um buraco na parede, onde era possível comprar gim por dez centavos a dose grande.

“Exatamente a pessoa que eu estava procurando”, disse alguém atrás de Winston.

Winston se virou. Era seu amigo Syme, que trabalhava no Departamento de Pesquisas. Talvez o termo não fosse exatamente “amigo”. Agora ninguém mais tinha amigos, só camaradas: mas a companhia de alguns camaradas era mais prazerosa que a de outros. Syme era filólogo, especialista em Novafala. Na realidade fazia parte da vasta equipe de especialistas encarregada de compilar a Décima Primeira Edição do Dicionário de Novafala. Era um sujeito minúsculo, menor ainda que Winston, de cabelo escuro e grandes olhos protuberantes ao mesmo tempo tristonhos e zombeteiros, que davam a impressão de interrogar a fisionomia do interlocutor enquanto falava com ele.

“Eu queria saber se você tem alguma lâmina de barbear”, disse.

“Nenhuma!”, respondeu Winston depressa, como quem se sente culpado. “Procurei por toda parte. Não tem em lugar nenhum.”

Todo mundo vivia lhe pedindo lâminas de barbear. A bem da verdade, Winston tinha duas lâminas sem uso, que estava deixando de reserva. Fazia alguns meses que as lâminas estavam em falta. Sempre havia algum artigo necessário que as lojas do Partido não conseguiam fornecer. Às vezes botões, às vezes lã para cerzir, às vezes cadarço para sapatos; no momento era lâmina de barbear. Só se podia obter alguma — quando dava — virando furtivamente do avesso o mercado “livre”.

“Faz seis semanas que uso a mesma lâmina”, acrescentou, faltando com a verdade.

A fila deu um tranco e voltou a avançar alguns passos. Quando pararam, Winston se virou e voltou a encarar Syme. Cada um pegou uma bandeja de metal engordurada de uma pilha na beirada do balcão.

“Você foi ver o enforcamento dos prisioneiros ontem?”, quis saber Syme.

“Eu estava trabalhando”, respondeu Winston com indiferença. “Imagino que vão mostrar no noticiário.”

“Um substituto muito inadequado”, observou Syme.

Seus olhos zombeteiros perscrutaram o rosto de Winston. “Eu conheço você”, os olhos pareciam dizer. “Você é transparente para mim. Sei muito bem por que você não foi ver o enforcamento daqueles prisioneiros.” Num estilo intelectual, Syme era virulentamente ortodoxo. Mostrando satisfação malévola, gostava de falar de incursões de helicóptero contra povoados inimigos, de julgamentos e confissões de criminosos do pensamento, de execuções nos porões do Ministério do Amor. Conversar com ele era, em grande medida, tentar desviá-lo desse tipo de assunto e envolvê-lo, se possível, nos aspectos técnicos da Novafala, que conhecia muito bem e sobre os quais discorria com interesse. Winston voltou a cabeça um pouco para um lado para esquivar-se ao exame dos grandes olhos escuros.

“Foi um belo enforcamento”, disse Syme, pensativo. “Acho que estraga tudo, essa história de amarrar os pés deles. Gosto de ver quando eles esperneiam. E principalmente, no fim, a língua espichada para fora, azul — um azul bem vivo. É meu detalhe predileto.”

“Próximo!”, berrou o proleta de avental branco de concha na mão.

Winston e Syme passaram suas bandejas por baixo da grade. Num instante as duas receberam suas porções de almoço-padrão: uma marmita de metal de ensopado rosa-acinzentado, um naco de pão, um cubo de queijo, uma tigela de café Victory sem leite e um tablete de sacarina.

“Tem uma mesa lá adiante, embaixo daquela teletela”, disse Syme. “Vamos apanhar um gim no caminho.”

O gim foi servido em canecas de porcelana sem asa. Os dois avançaram em zigue-zague pelo refeitório apinhado e largaram as bandejas na mesa de tampo metálico a um canto, na qual alguém havia deixado uma poça de ensopado, uma nojeira líquida com aparência de vômito. Winston apanhou sua caneca de gim, fez uma pausa para criar coragem e engoliu de uma só vez a substância com gosto de óleo. Depois de piscar várias vezes para expulsar as lágrimas dos olhos, constatou de repente que estava com fome. Começou a engolir o ensopado em grandes colheradas, um caldo aguado preparado de forma desleixada, com cubos rosados esponjosos que eram, provavelmente, alguma coisa à base de carne. Nenhum dos dois abriu a boca enquanto as duas marmitas não ficaram vazias. Na mesa à esquerda de Winston, quase às suas costas, alguém falava depressa e sem interrupção, uma algaravia áspera que lembrava o grasnado de um pato e que sobressaía do tumulto geral da sala.

“Como vai o dicionário?”, perguntou Winston, elevando o tom de voz para que o outro pudesse ouvi-lo.

“Devagar”, disse Syme. “Estou nos adjetivos. Fascinante.”

Ele se animara todo ao ver Winston mencionar a Novafala. Empurrou a marmita para um lado, segurou o naco de pão com uma das mãos delicadas e o queijo com a outra, depois inclinou-se por cima da mesa para conseguir falar sem ser obrigado a gritar.

“A Décima Primeira Edição é a edição definitiva”, disse. “Estamos dando os últimos retoques na língua — para que ela fique do jeito que há de ser quando ninguém mais falar outra coisa. Depois que acabarmos, pessoas como você serão obrigadas a aprender tudo de novo. Tenho a impressão de que você acha que nossa principal missão é inventar palavras novas. Nada disso! Estamos destruindo palavras — dezenas de palavras, centenas de palavras todos os dias. Estamos reduzindo a língua ao osso. A Décima Primeira Edição não conterá uma única palavra que venha a se tornar obsoleta antes de 2050.”

Deu uma dentada faminta no pão e engoliu duas colheradas de ensopado, depois continuou falando, com uma espécie de paixão pedante. Seu rosto escuro e afilado se animara, seus olhos haviam perdido a expressão zombeteira e adquirido um ar quase sonhador.

“Que coisa bonita, a destruição de palavras! Claro que a grande concentração de palavras inúteis está nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que também podem ser descartados. Não só os sinônimos; os antônimos também. Afinal de contas, o que justifica a existência de uma palavra que seja simplesmente o oposto de outra? Uma palavra já contém em si mesma o seu oposto. Pense em “bom”, por exemplo. Se você tem uma palavra como “bom”, qual é a necessidade de uma palavra como “ruim”? “Desbom” dá conta perfeitamente do recado. É até melhor, porque é um antônimo perfeito, coisa que a outra palavra não é. Ou então, se você quiser uma versão mais intensa de “bom”, qual é o sentido de dispor de uma verdadeira série de palavras imprecisas e inúteis como “excelente”, “esplêndido” e todas as demais? “Maisbom” resolve o problema; ou “duplimaisbom”, se quiser algo ainda mais intenso. Claro que já usamos essas formas, mas na versão final da Novafala tudo o mais desaparecerá. No fim o conceito inteiro de bondade e ruindade será coberto por apenas seis palavras — na realidade por uma palavra apenas. Você consegue ver a beleza da coisa, Winston? Claro que a ideia partiu do “g. i.”, acrescentou, como alguém que se lembra de um detalhe que não havia mencionado.

Uma espécie de ansied